18 capítulos · 29 indicadores oficiais · cada número com a fonte ao lado
Brasil nos dados
Os temas que mais dividem o país, testados com números. O site toma posição quando os dados sustentam uma conclusão e mostra também os números que pesam contra ela.
29 indicadores · seis governosConsulte aqui o placarExpandir notas e entender o cálculo
Uma comparação de 0 a 10 entre governos, feita com indicadores de economia, educação, saúde, meio ambiente, energia elétrica e homicídios.
Placar geralnota de 0 a 10 por governo
29 indicadores oficiais de economia, saúde, educação, meio ambiente, infraestrutura e segurança, com peso pela responsabilidade federal. * Nota provisória, dados até 2024 ou 2025. Como a nota é feita (capítulo 13)
Como chegamos às notas?
Comparamos cada indicador. Usamos os resultados apresentados nos cadernos 6, 8, 9, 10, 11 e 12, com as fontes ao lado de cada dado.
Transformamos a posição em nota. Em cada indicador, o melhor resultado recebe 10 e o pior recebe 0; os demais recebem notas intermediárias pela posição. Empates dividem a nota. Não é uma medida do tamanho da diferença entre governos.
Aplicamos o peso da responsabilidade. Indicador federal vale 1; compartilhado com estados e municípios vale 0,5. Serviços municipais de água e esgoto ficam fora da nota. São 13 indicadores federais e 16 compartilhados, com peso total possível de 21.
Calculamos a média ponderada. Somamos cada nota multiplicada pelo seu peso e dividimos pela soma dos pesos dos indicadores com dados comparáveis daquele governo. Dado ausente fica fora da conta.
Nota geral = soma de (nota × peso) ÷ soma dos pesos com dado
Exemplo simplificado: nota 8 em um indicador federal e 6 em um compartilhado dão (8 × 1 + 6 × 0,5) ÷ 1,5 = 7,3, arredondado para uma casa decimal.
estimativaAs notas são um cálculo do site. Os pesos são escolhas editoriais, testadas com outras regras no caderno 13. Governos com menos dados têm bases menores de comparação; crises e pandemia não são descontadas. A nota do Lula 3 é provisória, com dados até 2024 ou 2025.
Quatro perguntas, quatro respostas com dados: como o Brasil se compara com outros países, como o patrimônio está dividido aqui dentro, quanto tempo uma família pobre leva para subir na vida e quanto valem os atalhos que costumam ser vendidos como saída.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
Comparado com o mundo, o Brasil está entre os piores
Para comparar a desigualdade entre países, o Banco Mundial usa o índice de Gini. Ele vai de 0 a 100: no 0, todo mundo ganha igual; no 100, uma única pessoa fica com toda a renda do país. Quanto maior o número, mais desigual.
▲ mais igual
▼ mais desigual
3%
fatoDos 161 países com dado no Banco Mundial, só 3% (5 países) são mais desiguais que o Brasil.
Fonte
Banco Mundial, índice de Gini (indicador SI.POV.GINI), último valor disponível de cada país, conforme compilado pelo World Scorecard a partir da base do Banco Mundial (161 países com dado). O ano do dado aparece ao lado de cada valor.
Cuidados: cada país tem dado de um ano diferente. Considerando só dados de 2018 em diante, apenas a Colômbia ficaria à frente do Brasil. Alguns países medem consumo em vez de renda, o que costuma dar um Gini menor; o Brasil mede renda.
Cálculo nosso: os 3% são 5 países dentre os outros 160 da lista, arredondado. O quanto o Brasil é mais desigual compara os índices diretamente: 51,6 é 23% maior que 41,8 (Estados Unidos), 43% maior que 36,0 (China) e 56% maior que 33,0 (Rússia). É uma simplificação didática, porque o Gini não é uma escala em que o dobro do número signifique o dobro de desigualdade.
Se o Brasil fosse 100 pessoas, quem fica com as 100 moedas?
Imagine que todo o patrimônio do país (casas, carros, dinheiro guardado, pedaços de empresas) virou 100 moedas. E que toda a população virou 100 pessoas.
1 pessoa = 1% da população
1 moeda = 1% do patrimônio
fatoPelos dados de 2024, o 1% mais rico tem 37% de tudo. A metade mais pobre, 50 pessoas, divide 2 moedas e meia.
Dados do relatório: 1% mais rico com 37% do patrimônio; 10% mais ricos com 70%; metade mais pobre com 2,4%. Cálculo nosso: os próximos 9% ficam com 33% (70 menos 37) e os 40% do meio com 27,6% (100 menos 70 menos 2,4); somados, os 90% de baixo ficam com 30% (100 menos 70). No desenho, 27,6 e 2,4 foram arredondados para 28 e 2 moedas.
Quanto tempo uma família pobre leva para chegar à renda média do seu país?
A OCDE estimou quantas gerações os descendentes de uma família entre os 10% mais pobres levariam para chegar à renda média do próprio país. Aqui cada geração vale 30 anos, a mesma conta da OCDE. Cada barra começa hoje e termina quando os descendentes chegariam lá.
estimativaAna tem 30 anos, está entre os 10% mais pobres do Brasil e teve um filho agora, em 2026. No ritmo atual, nem o filho nem o neto de Ana chegam à renda média do país. Quem chega é o descendente da 9ª geração:
Filhonasce em 2026
Netonasce em 2056
Bisnetonasce em 2086
Trinetonasce em 2116
Tetranetonasce em 2146
6ª geraçãonasce em 2176
7ª geraçãonasce em 2206
8ª geraçãonasce em 2236
9ª geraçãonasce em 2266 e chega à renda média por volta de 2296
Se Ana morasse na Dinamarca, quem chegaria lá seria o neto dela, por volta de 2086.
cada pedaço da barra é uma geração (30 anos)
fatoDos 30 países estudados, só a Colômbia passa de 10 gerações. O Brasil vem logo atrás, empatado com a África do Sul, com 9 gerações, o dobro da média. Estados Unidos, Coreia do Sul e Reino Unido ficam perto da média, com 5. Alemanha e França ficam um pouco acima, com 6.
Fonte
OCDE, "A Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility" (Um elevador social quebrado? Como promover a mobilidade social), 2018, figura 1.5. A OCDE avisa que a conta é uma simulação para dar a dimensão do problema, não uma previsão exata. Resumo oficial do relatório (PDF).
Valores por país como reportados em: Poder360 (Dinamarca, países nórdicos, Brasil, África do Sul, Colômbia); Statista (Espanha, Bélgica, Itália, Suíça, China, Índia e média de 4,5); France Stratégie, órgão do governo francês (França, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido); OCDE, Inclusive Growth Review of Korea (Coreia do Sul). A equivalência de 5 gerações a cerca de 150 anos, que dá 30 anos por geração, está no relatório da OCDE sobre a Coreia.
Cálculo nosso: o fim de cada barra é 2026 mais o número de gerações vezes 30, e os anos do exemplo de Ana seguem a mesma conta. O exemplo é ilustrativo.
E o esforço? Os quatro atalhos mais vendidos
Quem nasce pobre ouve que pode subir trabalhando duro na empresa, abrindo um negócio, virando influenciador ou tendo sorte no jogo. Quanto vale cada atalho na prática?
A régua das chances
Quanto mais para baixo, mais difícil. Cada marca da régua é 10 vezes mais difícil que a de cima.
Os números medem coisas diferentes e servem para mostrar a ordem de grandeza, não para comparar ao pé da letra. O ponto preto é a referência: a chance real, medida, de quem nasce entre os 25% mais pobres chegar aos 10% mais ricos, por qualquer caminho.
Carreira em empresa
1 em 36 mil
trabalhadores com carteira consegue, a cada ano, uma vaga de presidente de grande empresa. estimativa
Só 4,4% dos trabalhadores são diretores ou gerentes.
O presidente fica de 5,6 anos (empresa aberta) a 12,7 anos (fechada) no cargo.
RAIS 2024 (57,1 milhões de empregos); IBGE, PNAD Contínua 2019, via FGV IBRE; IBGE, Cempre 2024 (cerca de 21 mil organizações com 250 pessoas ou mais, incluindo órgãos públicos); troca anual de 7,5% e tempo no cargo nas grandes varejistas, via BM&C News. Estimativa nossa: 21 mil vezes 7,5% dá cerca de 1.600 vagas por ano; a faixa real pode ir de 1 em 30 mil a 1 em 50 mil.
Abrir um negócio
1 em 500
empresas e organizações do país tem 250 funcionários ou mais. fato
Só 37,9% das empresas sobrevivem aos cinco primeiros anos.
Entre startups, metade fecha em até quatro anos.
IBGE, Cempre 2024 (0,2% com 250 pessoas ou mais), via Agência IBGE; IBGE, Demografia das Empresas 2022, via Agência Brasil; Fundação Dom Cabral, estudo de 2014 com amostra pequena.
Viver de internet
1 em 8
criadores de conteúdo fatura mais de R$ 10 mil por mês. fato
28% não ganham nada com o conteúdo que produzem.
Só 9% vivem apenas dessa renda.
YOUPIX, Creators & Negócios 2025 (cerca de 12% acima de R$ 10 mil por mês; 28,17% sem renda), via ABC da Comunicação e Diário do Comércio; Wake Creators, Censo 2025, via Meio & Mensagem. Pesquisas respondidas por criadores ativos: o quadro real tende a ser pior.
Sorte no jogo
1 em 50 milhões
é a chance de acertar a Mega-Sena com um jogo simples. De cada R$ 100 apostados, volta para os apostadores: fato
Referência da régua: Atlas da Mobilidade Social, IMDS e Prospera Lab, 2026, brasileiros nascidos entre 1983 e 1990: 1,28% dos filhos dos 25% mais pobres chegam aos 10% mais ricos, via Metrópoles. Conversões para "1 em X" são cálculo nosso: 12% vira 1 em 8; 1,28% vira 1 em 78; 0,2% vira 1 em 500.
Por que tantos ainda acreditam que basta se esforçar
O capítulo 1 mostrou: de cada 78 filhos dos brasileiros mais pobres, só 1 chega aos 10% mais ricos. Mesmo assim, muita gente segue acreditando que basta se esforçar. E quando alguém aponta de onde vem essa crença, a reação é desconfiar de quem aponta. Por quê?
A tese: a crença no esforço individual foi plantada no Brasil por décadas, por um país que chegou ao topo do mundo com guerras e golpes e que usou o cinema para se apresentar como herói. Quem cresceu vendo isso tende a rejeitar as provas do contrário.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. A crença
O país descrê do sistema, mas aposta na própria virada
fatoEm 2017, 38% dos brasileiros achavam que os pobres, com muito esforço, têm as mesmas chances que os ricos. Em 2019, 70% esperavam estar na classe média ou acima em cinco anos, embora a maioria não acreditasse que a desigualdade do país fosse cair.
hipóteseÉ nessa esperança individual que vivem coaches e gurus de enriquecimento. E ela não surgiu sozinha.
Oxfam Brasil/Datafolha, "Nós e as Desigualdades": 2017, 2019. Chance de 1 em 78: Atlas da Mobilidade Social, IMDS, 2026, 1,28% (Metrópoles; conversão nossa).
2. Quem plantou, agora
Uma rede americana para formar a nova direita
A crença no "cada um por si" tem nome: cultura neoliberal. E há documentos sobre como ela foi semeada.
fatoCom base em pesquisa da UFSC, o documentário de Bob Fernandes mostrou como a Atlas Network, rede de think tanks sediada nos EUA, se articulou com o Cato Institute e a Heritage Foundation, com apoio da USAID e da National Endowment for Democracy, ambas do governo americano, para difundir ideias neoliberais no Brasil. Os documentos mostram financiamento e formação de lideranças ligadas a think tanks e ao MBL.
15 institutos ligados à Atlas no Brasil e 14 dirigentes deles no governo Bolsonaro, segundo as pesquisadoras Camila Feix Vidal e Jahde Lopez.
2019: memorando interno da Atlas comemora que o Brasil "virou a chave" e virou modelo para a América Latina.
Um país que se vê escolhido e chegou ao topo pela força
A Atlas é só o capítulo mais recente. Para entender por que esse modelo tem tanta autoridade, é preciso voltar à origem do poder americano.
fatoEm 1630, John Winthrop pregou que a colônia seria uma "cidade sobre a colina", exemplo para o mundo. Em 1845, o "Destino Manifesto" passou a justificar a expansão do país como vontade divina. Em 1961, o presidente Eisenhower alertou contra o poder do "complexo industrial-militar".
37%do gasto militar do mundo é dos EUA (US$ 997 bi em 2024)
~400intervenções militares desde 1776; 34% na América Latina
64operações secretas para derrubar governos entre 1947 e 1989
4,5 a 4,7 mimortos nas zonas de guerra após o 11 de Setembro
Irã, 1953.fatoA CIA admitiu em 2013 seu papel no golpe contra o premiê Mossadegh, que havia nacionalizado o petróleo.
Guatemala, 1954.fatoA CIA derrubou Árbenz após a reforma agrária atingir terras da americana United Fruit. Seguiram-se 30 anos de guerra civil e até 200 mil mortos.
Chile, 1973.fatoOs EUA nunca aceitaram Allende. A CIA admite que sabia do golpe, mas nega participação direta.
Vietnã.estimativa2 milhões de civis e 1,1 milhão de combatentes norte-vietnamitas mortos, pelo número oficial vietnamita.
hipótesePetróleo, terras, a Petrobras espionada em 2013: o interesse econômico aparece junto com a guerra. O poder conquistado pela força precisava de uma imagem que o tornasse aceitável.
Essa imagem foi construída de propósito. Os EUA têm até nome para isso: "soft power", conceito de Joseph Nye, de Harvard e ex-secretário-assistente de Defesa, para conseguir o que se quer pela atração, sem força.
1940.fatoO governo Roosevelt cria um escritório chefiado por Nelson Rockefeller para vender à América Latina o modelo americano de consumo e progresso. Disney vem ao Brasil e cria o Zé Carioca.
800 filmes.fatoEntre 1911 e 2017, mais de 800 filmes, como Top Gun e Pearl Harbor, tiveram apoio do Pentágono, que em troca pode pedir mudanças no roteiro.
Rambo II, 1985.fatoO herói volta ao Vietnã e vence sozinho a guerra que os EUA perderam, contra vietnamitas e soviéticos. hipóteseO vilão russo de Rocky IV e a bandeira salvando o planeta em Independence Day completam o roteiro: o americano é o mocinho.
2 de cada 3 ingressosfatovendidos no Brasil em 2023 foram de filmes da Warner e da Disney.
1 em cada 4fatoespectadores mudou de opinião sobre o governo americano depois de ver um único filme sobre a CIA, num estudo exploratório.
No Brasil, atração e força se alternaram. Quando a cultura não bastou, veio o golpe. Depois do golpe, veio a reforma das ideias.
1940 a 1945:fatoPolítica da Boa Vizinhança, Disney e Carmen Miranda.
1964:fatoOs EUA prepararam a Operação Brother Sam, com porta-aviões, destróieres e 100 toneladas de armas para apoiar o golpe em caso de guerra civil. O embaixador Lincoln Gordon estimulou doações ao Ipes e ao Ibad, que participaram do golpe.
1964 a 1968:fatoDoze acordos MEC-USAID orientam a reforma da educação e da universidade.
Anos 1990:fatoO Consenso de Washington, dez receitas como privatização e abertura comercial, orienta as reformas de Collor e Fernando Henrique.
2013:fatoA NSA espionou a presidente Dilma, seus assessores e a Petrobras.
2010 em diante:fatoAtlas Network e a formação da nova direita.
Volte ao número do começo: 1 em 78. Para quem cresceu vendo o americano vencer sozinho na tela, ouvindo que o mercado premia quem se esforça e sem saber de Brother Sam ou da Atlas, esse número parece exceção, não regra. Por isso a reação a quem mostra os documentos é desconfiança. hipóteseA leitura deste capítulo é que a crença no esforço individual foi cultivada por décadas de investimento, da Política da Boa Vizinhança, nos anos 1940, à Atlas Network.
Cuidados: influência não é controle, e a maioria dos brasileiros já desconfia da meritocracia plena. As reformas dos anos 90 também tiveram causas internas, como a hiperinflação. E a tese não deve tratar toda discordância como prova de influência: sua força está nos documentos.
Nas últimas décadas, o Brasil viveu uma das mudanças religiosas mais rápidas do mundo. Igrejas evangélicas se multiplicaram como franquias, alguns líderes acumularam fortunas e a fé chegou ao Congresso. No centro disso está uma ideia que conversa direto com o capítulo 2: a de que quem tem fé prospera, e quem não prosperou não teve fé suficiente.
A tese: a fé não é o problema. O problema é uma corrente que transformou a fé em negócio, trouxe dos EUA a ideia de que a riqueza é prêmio divino e converteu templos em força política.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Antes de tudo
A fé também já organizou a luta por direitos
fatoDurante a ditadura, a Igreja Católica ajudou a organizar operários, camponeses e indígenas. Nos anos 1970, católicos e luteranos criaram a Comissão Pastoral da Terra para conscientizar trabalhadores rurais e estimular sindicatos. Esse trabalho contribuiu para o surgimento do PT, da CUT e do MST. O livro "Brasil: Nunca Mais", que denunciou a tortura, foi coordenado por Dom Paulo Evaristo Arns com o pastor Jaime Wright.
Este capítulo não é sobre a fé de quem frequenta uma igreja. É sobre o que algumas igrejas fizeram com ela.
fatoNo mesmo período, os católicos caíram de 65,1% para 56,7% entre 2010 e 2022. estimativaO demógrafo José Eustáquio Diniz Alves projeta que os evangélicos devem ultrapassar os católicos por volta de 2032.
IBGE, Censo 2022, via Agência Gov; 1900, 2000 e projeção: José Eustáquio Diniz Alves, via IHU Unisinos.
3. O modelo de franquia
17 igrejas novas por dia
1.049templos evangélicos registrados em 1970
109.560em 2019, mais de 100 vezes mais
6.356abertos só em 2019: 17 por dia
7 em 10estabelecimentos religiosos com CNPJ são evangélicos (2021)
fatoNo Brasil, igrejas se registram como empresas, com CNPJ, e não pagam impostos sobre o que arrecadam. A Igreja Universal, fundada por Edir Macedo em 1977, criou o modelo que outras copiaram: o sociólogo Ricardo Mariano descreve sua expansão como uma mistura de racionalismo empresarial com promessa de milagre. Hoje ela está em mais de 100 países. Boa parte do crescimento, porém, vem de milhares de pequenas igrejas independentes de bairro, que reproduzem o mesmo formato.
fatoUm estudo do Insper concluiu que, sem a isenção de impostos, boa parte das igrejas pentecostais abertas entre 1992 e 2018 não existiria. estimativaPelo mesmo estudo, a tributação renderia de R$ 3,4 a 5,8 bilhões por ano.
Victor Araújo, Centro de Estudos da Metrópole, USP, via Agência Fapesp e Campo Grande News (1970); 2021, IHU Unisinos; Ricardo Mariano, "Império da Igreja Universal", via Folha de S.Paulo; Universal em mais de 100 países, CartaCapital; Insper. A contagem por CNPJ não pega igrejas informais, então o número real é maior.
4. O dinheiro
Quem dá e quem acumula
fatoUm estudo da FGV mostrou que os evangélicos, então cerca de 18% da população, pagavam dois terços de todo o dízimo do país. Em 2011, segundo a Receita Federal, as igrejas católicas e evangélicas arrecadaram R$ 20,6 bilhões, R$ 14,2 bilhões deles em doações de fiéis.
Edir Macedo, fundador da Universal e dono da Record: estimativaUS$ 950 milhões, cerca de R$ 1,9 bilhão na época, segundo a Forbes em 2013. A igreja contesta o valor.
Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, ex-Universal: estimativaUS$ 220 milhões, segundo a mesma lista.
Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo: a Forbes estimou US$ 150 milhões em 2013, mas em 2019 pediu desculpas ao pastor, que afirma ter apenas 3% desse valor.
hipóteseFortuna de líder religioso é difícil de medir, porque se mistura com o patrimônio das igrejas e de suas empresas de mídia. O padrão, porém, é claro: o dinheiro sai do bolso de fiéis majoritariamente pobres e se concentra no topo.
FGV, "A Economia das Religiões" (2007), via FGV CPS; Receita Federal (2011), via Gospel Mais; Forbes 2013, via InfoMoney e Exame, que registra que a Forbes não usou a mesma metodologia de suas listas de bilionários; contestação da Universal, Bahia Notícias; retratação, Forbes Brasil. Dados de dízimo e arrecadação são antigos; não há série oficial recente.
5. A teologia
Prosperidade: o "basta se esforçar" com bênção divina
fatoA teologia da prosperidade nasceu nos Estados Unidos. Seu maior divulgador foi o pastor texano Kenneth Hagin, com a "confissão positiva": a ideia de que o fiel pode tomar posse das bênçãos, inclusive dinheiro, pela fé e pela palavra. Chegou ao Brasil no fim dos anos 1970, com a Universal como principal porta de entrada. Pesquisadores da UFMG ligam diretamente essa teologia ao "american way of life".
fato56% dos protestantes brasileiros acreditam que Deus dá riqueza e saúde a quem tem fé suficiente. Na maior parte da América Latina, até a maioria dos católicos concorda.
hipóteseÉ a mesma lógica do capítulo 2, com um passo a mais. Se a riqueza é prêmio pela fé, a pobreza vira falta de fé. O problema deixa de ser a desigualdade e passa a ser o fiel, que é convidado a dar mais para merecer mais.
132 + 14deputados e senadores na Frente Parlamentar Evangélica (2023)
69%dos evangélicos votaram em Bolsonaro em 2018, contra 31% em Haddad
fatoEm 2022, 16% dos evangélicos disseram ter recebido orientação de pastores para votar em Bolsonaro; para Lula, menos de 1%. A bancada atua para ampliar a isenção de impostos das igrejas, cujas dívidas na Dívida Ativa da União chegavam a R$ 1,5 bilhão em 2020.
fatoO voto evangélico não é um bloco. Em agosto de 2022, entre evangélicos que ganham até dois salários mínimos, Lula tinha 41% e Bolsonaro 38%. Entre os de renda mais alta, Bolsonaro tinha 61% e Lula 22%.
A fé que nos anos 1970 organizou trabalhadores rurais e denunciou a tortura é a mesma que hoje enche templos de periferia. O que mudou foi quem a administra. Uma parte das igrejas passou a funcionar como franquia, importou dos EUA a ideia de que riqueza é sinal de bênção e transformou fiéis em eleitores. Para quem vive com pouco e ouve, aos domingos, que a prosperidade depende da própria fé, o 1 em 78 do capítulo 1 não parece injustiça. Parece falta de fé.
Cuidados: evangélico não é sinônimo de neopentecostal nem de teologia da prosperidade; muitas igrejas oferecem acolhimento, rede de apoio e serviços onde o Estado não chega. Os dados de dízimo e de fortunas são antigos e estimados. A comparação entre templos, escolas e hospitais do Censo foi evitada aqui de propósito: o IBGE não identifica a religião dos templos, e pesquisadores criticam esse uso.
Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Netanyahu em Israel. Muita gente acha exagero dizer que fazem parte de um mesmo movimento. Este capítulo aplica um teste simples: uma rede organizada deixa rastros. Ideias em comum, encontros, dinheiro e governos agindo uns pelos outros. Os quatro rastros estão documentados, e um quinto mostra, ano a ano, o lugar do bolsonarismo dentro dela. E o resultado tem números: mortos, crianças, presos.
A tese: existe uma rede transnacional, articulada a partir dos EUA, que une nacionalismo, religião e poder de Estado. Ela cresce onde o capitalismo entra em crise e usa uma leitura política do Antigo Testamento para transformar insegurança em voto e em violência contra quem é apontado como inimigo.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
Rastro 1: ideias
Os mesmos think tanks, do Brasil a Washington
No capítulo 2, a Heritage Foundation aparece ao lado da Atlas Network difundindo ideias neoliberais no Brasil. Ela volta aqui.
fatoA Heritage escreveu o "Project 2025", plano de mais de 900 páginas para o segundo governo Trump, que críticos descrevem como um projeto de nacionalismo cristão. J.D. Vance, hoje vice-presidente, escreveu o prefácio do livro do presidente da Heritage e chamou a fundação de principal motor de ideias dos republicanos, de Reagan a Trump.
fatoSteve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump na Casa Branca, criou o "The Movement", aliança para unir o nacionalismo populista. Em fevereiro de 2019, um mês após a posse de Jair Bolsonaro, nomeou Eduardo Bolsonaro representante do grupo na América do Sul. A aproximação trouxe ao Brasil a CPAC, maior conferência conservadora dos EUA, que também se espalhou por Israel, Hungria, Japão e Coreia do Sul: foram cinco edições brasileiras entre 2019 e 2024. Em janeiro de 2025, numa festa paralela à posse de Trump, Bannon apresentou Eduardo como futuro presidente do Brasil.
US$ 280 milhões da direita cristã americana pelo mundo
US$ 280 migastos por 28 grupos da direita cristã dos EUA fora do país desde 2007
US$ 44 misó na América Latina, sem revelar quem são os doadores
fatoA investigação do openDemocracy mapeou grupos ligados à direita cristã americana financiando campanhas contra direitos das mulheres e da população LGBT em outros países, e parte deles espalhou desinformação sobre a Covid-19 na América Latina. A Europa recebeu quase US$ 90 milhões. Como muitos desses grupos se registram como igreja, não são obrigados a revelar suas contas, e o valor real tende a ser maior.
Quando o Estado americano entra para defender um aliado
fatoEm julho de 2025, depois de meses de campanha de Eduardo Bolsonaro nos EUA, Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e ligou a medida, por escrito, ao que chamou de "caça às bruxas" contra Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe. No mesmo mês, o governo americano aplicou a Lei Magnitsky, criada para punir violadores de direitos humanos, contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do caso. Eduardo comemorou como "marco histórico". A Polícia Federal indiciou Jair e Eduardo por coação a autoridades do processo. Em junho de 2026, a 1ª Turma do STF condenou Eduardo por coação no curso do processo; o recurso foi rejeitado em setembro, e em 8 de outubro foi expedido mandado de prisão.
fatoEm 2018, Trump mudou a embaixada americana para Jerusalém e disse ter feito isso "pelos evangélicos". Bolsonaro prometeu fazer o mesmo.
Os quatro rastros anteriores mostram que a rede existe. Este mostra que o bolsonarismo não apenas se parece com ela: participa dela, recebe apoio e dá apoio.
2018:fatoÀs vésperas da eleição, Steve Bannon se reúne com Eduardo Bolsonaro. Segundo o próprio Eduardo, Bannon se ofereceu para ajudar a campanha com inteligência, atuação digital e análise de dados, sem dinheiro direto.
2019 a 2022:fatoEduardo vira representante do The Movement e cria a CPAC Brasil. No governo, 14 dirigentes de institutos ligados à Atlas Network ocupam cargos.
2021:fatoEduardo participa, nos EUA, do simpósio de Mike Lindell sobre a suposta fraude na eleição americana de 2020. Bannon declara que a eleição brasileira de 2022 seria "roubada pelas máquinas".
2022:fatoJason Miller, ex-assessor de Trump e dono da rede social Gettr, financia eventos do instituto de Eduardo e vai ao ato de 7 de setembro organizado por Bolsonaro.
Janeiro de 2023:fatoBannon chama os invasores de 8 de janeiro de "combatentes da liberdade", diz que a eleição foi roubada, compara o ataque ao 6 de janeiro americano e cria a hashtag "Primavera Brasileira". Segundo a Agência Pública, a interlocução de Bannon com Eduardo influenciou a construção da tese da fraude.
Fevereiro de 2024:fatoQuatro dias depois de ter o passaporte apreendido na investigação do golpe, Bolsonaro passa duas noites na embaixada da Hungria, governada por Viktor Orbán, a quem já chamou de "irmão". A defesa diz que foi "manter contatos".
Abril e maio de 2024:fatoElon Musk ataca Moraes. O americano Michael Shellenberger publica os "Twitter Files Brazil", fala no Senado brasileiro e numa audiência do Congresso dos EUA sobre uma suposta "crise" na democracia brasileira, com mobilização de Eduardo. Shellenberger depois admitiu não ter provas de uma das acusações centrais.
Janeiro de 2025:fatoBannon apresenta Eduardo como futuro presidente do Brasil numa festa paralela à posse de Trump.
Julho de 2025:fatoDepois de meses de campanha de Eduardo nos EUA, vêm a tarifa de 50% ligada por Trump ao julgamento de Bolsonaro e a sanção a Moraes. A Polícia Federal indicia Jair e Eduardo por coação no processo do golpe.
Junho a outubro de 2026:fatoO STF condena Eduardo a 4 anos e 2 meses por coação no processo do golpe. O recurso é rejeitado em setembro, e o mandado de prisão é expedido em 8 de outubro.
fatoO sionismo cristão, ligado a uma leitura da Bíblia chamada dispensacionalismo, acredita que a volta dos judeus à Terra Santa e a criação de Israel cumprem uma profecia ligada à volta de Cristo. É forte entre evangélicos dos EUA e do Brasil. Segundo o teólogo Dusilek, ouvido pela BBC, no Brasil esse apoio vem com adesão a valores e símbolos do Antigo Testamento. Bolsonaro se batizou no rio Jordão em 2016. Em Israel, Netanyahu voltou ao poder em 2022 à frente do governo mais à direita da história do país, com três partidos de extrema direita.
hipóteseO que une esses líderes não é o judaísmo, e sim uma leitura feita por cristãos: povo escolhido, terra prometida, inimigos a vencer. A mesma "nação abençoada" do capítulo 2, agora com versículo.
73.381mortos em Gaza desde outubro de 2023, segundo as autoridades locais (agosto de 2026)
18 mil+crianças mortas em Gaza até agosto de 2025, segundo o Unicef
935mortos no Irã em 12 dias de ataques de Israel, com apoio de bombardeios dos EUA, em junho de 2025
68 milimigrantes presos pelo ICE em fevereiro de 2026, recorde histórico
Gaza.fatoA guerra começou com o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e sequestrou 251. A resposta israelense destruiu quase toda a infraestrutura do território. Mesmo depois do cessar-fogo de outubro de 2025, o Unicef contou 300 crianças mortas, uma por dia. Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de prisão contra Netanyahu por crimes de guerra, incluindo usar a fome como arma. Em setembro de 2025, uma comissão independente da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio. Israel rejeita as duas acusações.
Irã.estimativaSegundo o governo iraniano, os 935 mortos incluem 132 mulheres e 38 crianças. Os mísseis iranianos mataram 28 pessoas em Israel.
ICE, a polícia de imigração de Trump.fatoPelo menos 30 pessoas morreram sob custódia do ICE em 2025, o maior número em duas décadas e quase três vezes o de 2024. Em 2026, foram 14 mortes só nos primeiros três meses. O número de presos quase dobrou em um ano, e metade ou mais não tem condenação criminal.
+30%de votos para a extrema direita, em média, depois de crises financeiras (1870 a 2014)
18,8% x 15%participação da China e dos EUA no PIB mundial por poder de compra, em 2024
fatoUm estudo com mais de 800 eleições em 20 países ricos mostrou que, depois de crises financeiras, eleitores se voltam para a extrema direita, que costuma culpar minorias e estrangeiros. Nos EUA, regiões que perderam empregos para a China se moveram para a direita. Pelo critério de poder de compra, a China já tem a maior economia do mundo.
hipóteseQuando o modelo que prometia prosperidade para quem se esforça deixa de entregar e o centro do mundo se desloca para o Oriente, a rede oferece inimigos, fé e nação no lugar de explicações.
2016: Trump eleito; Bannon vira seu estrategista-chefe. Bolsonaro se batiza no rio Jordão.
2018: embaixada dos EUA em Jerusalém "pelos evangélicos". Bolsonaro eleito.
2019: Eduardo Bolsonaro no The Movement. Primeira CPAC Brasil.
2022: Netanyahu forma o governo mais à direita da história de Israel.
2023: a Heritage publica o Project 2025. Ataque do Hamas e início da guerra em Gaza.
2024: Mandado do Tribunal Penal Internacional contra Netanyahu.
2025: Trump volta ao poder. Guerra de 12 dias contra o Irã. Tarifa de 50% e sanção a Moraes em defesa de Bolsonaro. Comissão da ONU conclui genocídio em Gaza. Recorde de mortes sob custódia do ICE.
2026: recorde de imigrantes presos nos EUA. STF condena Eduardo Bolsonaro por coação. Crianças continuam morrendo em Gaza após o cessar-fogo.
Conclusão
Não é teoria da conspiração quando há comunicado oficial, conferência anual, dinheiro rastreado e carta presidencial. A rede compartilha ideias, se encontra, se financia e usa o poder de Estado para defender seus membros. Ela se alimenta da mesma história contada nos capítulos anteriores: um país desigual, onde aprendemos que basta se esforçar e que a prosperidade é bênção. Quando a promessa não se cumpre, a rede aponta inimigos. E os números do capítulo mostram o que acontece com eles.
Cuidados: nem todo conservador ou evangélico faz parte dessa rede, e muitos fiéis a rejeitam. O sionismo cristão é um movimento de cristãos; criticá-lo, ou criticar o governo de Israel, não é criticar o judaísmo nem os judeus. As mortes em Gaza e no Irã vêm de guerras com mais de um lado, e os números de Gaza e do Irã vêm de autoridades locais. As explicações econômicas são parte da história, não toda ela.
A corrupção no Brasil é real, antiga e atravessa partidos. Mas o combate a ela nunca foi neutro. Alguns casos andaram depressa, outros prescreveram na gaveta. Este capítulo mostra os dois lados: a corrupção que existiu e os atores que usaram o combate a ela para mudar quem governa o país. Autoridades americanas, empresários, políticos investigados, a imprensa e um juiz que o STF declarou parcial.
A tese: a corrupção é suprapartidária, mas a punição foi seletiva. Entre 2005 e 2018, o combate à corrupção virou instrumento político contra um partido, com participação de atores brasileiros e estrangeiros que tinham interesses próprios no resultado.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Ponto de partida
A corrupção é antiga e não tem partido
1998, PSDB.fatoO "mensalão mineiro" desviou recursos de estatais de Minas Gerais para a campanha de reeleição do governador Eduardo Azeredo, ex-presidente nacional do PSDB, por meio das empresas do publicitário Marcos Valério. O mesmo operador do mensalão do PT, sete anos antes.
Anos 1990, Petrobras.fatoEm acordo de leniência com o Cade, a empreiteira Setal admitiu que o cartel que combinava licitações da Petrobras existia desde o fim dos anos 1990, ainda no governo Fernando Henrique. Delatores dizem que o esquema se tornou mais efetivo a partir de 2003 e 2004, com diretores indicados por PP, PT e PMDB.
2017, Lista de Fachin.fatoEntre os políticos com foro privilegiado investigados a partir das delações da Odebrecht estavam 16 do PT, 14 do PMDB, 11 do PSDB e 8 do PP, além de nomes de mais nove partidos.
Escala logarítmica: cada marca vale dez vezes a anterior. Sem ela, os casos menores nem apareceriam.
centro-direita e direitavários partidos ou governossem partido central ou fraude financeira
Orçamento secreto (emendas de relator)2020-2022 · Governo Bolsonaro e cúpula do Congresso
R$ 53,5 bi
autorizado, não é desvio comprovado
Banestado1996-2002 · Evasão de divisas
R$ 42 bi
remessas ilegais ao exterior; fonte secundária
Banco Master2019-2025 · Multipartidário, em apuração
R$ 41 bi
reservado pelo FGC para ressarcir clientes; em investigação
Zelotes (Carf)2015 · Fraude fiscal, sem partido central
R$ 19 bi
débitos tributários sob suspeita; fonte secundária
Fraude no INSS2019-2024 · Governos Bolsonaro e Lula
R$ 6,3 bi
descontos em aposentadorias, legais e ilegais somados
Petrolão (investigado pela Lava Jato)2004-2014 · PT, PP e MDB, entre outros
R$ 6,2 a 19 bi
A barra cheia é o mínimo reconhecido pela Petrobras no balanço; o trecho tracejado vai até a estimativa da PF, de R$ 19 bi, que poria o caso no patamar da Zelotes. A Lava Jato também investigou outros esquemas, que não foram somados aqui.
Vampiros da Saúde1990-2004 · Vários governos
R$ 2,4 bi
fonte secundária
Cartel dos trens de SP1998-2008 · Governos do PSDB em SP
R$ 834 mi
estimativa do Ministério Público
Anões do Orçamento1993 · Parlamentares de PMDB, PTB e outros
R$ 800 mi
fonte secundária
Mensalão2003-2005 · PT e aliados (PL, PTB, PP, PMDB)
R$ 101 mi
desvio apontado em laudo da PF
Máfia da merenda (SP)2014-2015 · PSDB, MDB e PTB citados
R$ 11 mi
contrato estadual investigado; contratos municipais somam R$ 210 mi
Mensalão mineiro1998 · PSDB
R$ 9 mi
desvio apontado pelo Ministério Público
estimativaOs valores não medem a mesma coisa: alguns são desvio comprovado, outros são valor autorizado, movimentado ou sob suspeita. A comparação mostra a ordem de grandeza, não um placar exato. O orçamento secreto aparece no topo pelo volume que passou pelo mecanismo, não por desvio comprovado.
hipóteseO mensalão, que virou sinônimo de corrupção no país, está entre os menores casos da lista em dinheiro.
fatoNão existe levantamento confiável de quanto dinheiro cada partido recebeu em todos os esquemas. O melhor retrato disponível é a primeira Lista de Fachin, de 2017: os políticos com foro investigados a partir das delações da Odebrecht.
Esquerda e centro-esquerda 29,7%
Centro, centro-direita e direita 70,3%
Participação de cada partido no total de 74 investigados:
PT21,6%
PMDB18,9%
PSDB14,9%
PP10,8%
PSD8,1%
DEM5,4%
PSB5,4%
PR4,1%
PRB4,1%
PCdoB2,7%
PPS1,4%
PTC1,4%
SD1,4%
estimativaOs percentuais são cálculo nosso sobre os 74 nomes, usando a classificação ideológica feita por quase 500 cientistas políticos. O PT é o partido com maior fatia isolada, 21,6%; somados, os partidos de centro e direita respondem por 70,3%.
fatoNo petrolão, as diretorias da Petrobras foram divididas por indicação política: PT, PP e PMDB. No mensalão, o STF condenou políticos de PT, PMDB, PP, PTB e PL.
fatoO mensalão do PT, revelado em 2005, foi julgado pelo STF na Ação Penal 470, que condenou o ex-ministro José Dirceu, deputados e o operador Marcos Valério, num processo que atingiu políticos do PT, PMDB, PP, PTB e PL. A corrupção existiu e foi punida.
fatoO mensalão mineiro, anterior e com o mesmo operador, ficou anos parado no STF. Quando a Procuradoria pediu 22 anos de prisão, Azeredo renunciou ao mandato e o caso desceu para a Justiça de Minas. O ministro Joaquim Barbosa, do STF, afirmou que a renúncia tinha como objetivo evitar o julgamento e que a prescrição tenderia a se consumar. Azeredo acabou condenado pela Justiça mineira, anos depois do PT.
hipóteseNão há evidência de influência estrangeira no mensalão. O que ele mostra é outra coisa: a mesma prática, com o mesmo operador, recebeu tratamento muito diferente conforme o partido.
fatoSegundo o Cade e delatores, 16 grandes empreiteiras dividiam entre si as obras da Petrobras, trocavam mensagens e mantinham tabelas de quem já tinha vencido cada licitação. Diretores indicados por partidos garantiam o esquema em troca de propina. A própria Petrobras reconheceu o dano, e Odebrecht e Braskem se declararam culpadas na Justiça americana.
Os EUA dentro da operação: treinamento, agentes e multas recordes
2009.fatoUm telegrama diplomático vazado pelo WikiLeaks registra Sergio Moro numa conferência americana sobre lavagem de dinheiro, o "Projeto Pontes". Os participantes pediram treinamento no "modelo de força-tarefa pró-ativa".
2013.fatoA NSA espionou a presidente Dilma e a rede da Petrobras, como mostra o capítulo 2.
2015.fato18 agentes americanos, do FBI e do Departamento de Justiça, passaram quatro dias com a força-tarefa em Curitiba sem passar pelo Ministério da Justiça. Deltan Dallagnol escreveu que não gostava da ideia de o governo ver os pedidos.
US$ 3,5 bipagos por Odebrecht e Braskem a EUA, Brasil e Suíça: a maior multa da história da lei anticorrupção americana
US$ 853 mipagos pela Petrobras às autoridades americanas, além de US$ 2,95 bi a investidores dos EUA
fatoOs procuradores negociaram em sigilo com os americanos a divisão das multas e tentaram criar, com R$ 2,5 bilhões, uma fundação administrada pela própria força-tarefa. O STF suspendeu o acordo.
fatoEm 2015, a Fiesp, maior federação industrial do país, lançou a campanha "Não vou pagar o pato" contra o aumento de impostos. Em dezembro, seu presidente, Paulo Skaf, filiado ao PMDB, anunciou apoio ao impeachment. Em março de 2016, mais de 400 entidades empresariais publicaram anúncios pagos com o lema "Impeachment já" nos três maiores jornais do país, e a Fiesp espalhou 5 mil patos infláveis diante do Congresso. A entidade, sustentada em parte por recursos de origem pública, nunca revelou quanto gastou.
fatoNa eleição de 2014, a campanha de Skaf ao governo de São Paulo recebeu R$ 2,5 milhões de duas empresas investigadas na Lava Jato.
fatoEm 2 de dezembro de 2015, horas depois de a bancada do PT anunciar voto pela continuidade do processo de cassação contra ele no Conselho de Ética, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), aceitou o pedido de impeachment de Dilma. Até o jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido, disse que não foi coincidência. Cunha tinha contas não declaradas na Suíça e depois foi cassado.
fatoEm março de 2016, semanas antes da votação do impeachment na Câmara, o senador Romero Jucá (PMDB), investigado na Lava Jato, foi gravado dizendo ao ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado: "Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria". A solução seria um "grande acordo nacional" com Michel Temer, "com o Supremo, com tudo". Jucá virou ministro de Temer e deixou o cargo após a divulgação.
fatoMensagens da Vaza Jato mostram que Dallagnol e sua equipe privilegiavam a Globo. Num caso, um documento foi anexado ao processo onze minutos antes do Jornal Nacional, que o noticiou naquela noite. Dallagnol também pediu à assessoria um encontro com o colunista Merval Pereira, e a equipe comemorou quando ele publicou o discurso do procurador.
4h24de Lava Jato no Jornal Nacional numa única semana de abril de 2017
33 min x 5 minde menções a Lula e ao então presidente Michel Temer, na mesma semana
The Intercept Brasil, 2021 e 2023; levantamento do Poder360, via site do PT. O Jornal Nacional disse ter priorizado políticos com maior destaque pelos cargos que ocupam ou ocuparam.
10. O resultado político
Uma presidente fora, o favorito preso
39% x 19%Lula e Bolsonaro no Datafolha de agosto de 2018, dias antes de a candidatura de Lula ser barrada
580 diasde prisão de Lula, entre abril de 2018 e novembro de 2019
Dilma, 2016.fatoO Ministério Público Federal concluiu que as "pedaladas" usadas no impeachment não eram crime comum, embora tenham maquiado as contas, o que configuraria improbidade. O impeachment julga crime de responsabilidade, de natureza política, e foi aprovado pelo Congresso.
Lula, 2018.fatoPreso, Lula liderava as pesquisas e venceria Bolsonaro no segundo turno, por 52% a 32%, segundo o Datafolha. Sem ele, Bolsonaro venceu e nomeou Moro ministro da Justiça.
2021.fatoO STF autorizou a defesa de Lula a usar as mensagens apreendidas na Operação Spoofing, a investigação sobre o hacker da Vaza Jato. O ministro Gilmar Mendes leu trechos e disse que, se os fatos existiram, eram constrangedores. Meses depois, o STF anulou as condenações e declarou Moro suspeito. O tribunal não atestou formalmente a autenticidade das mensagens.
2022.fatoO Comitê de Direitos Humanos da ONU concluiu que Moro e os procuradores violaram o direito de Lula a um julgamento imparcial. Moro contesta.
Os 12 casos do ranking, na mesma ordem. Toque em cada um para abrir. Patrimônio é o declarado à Justiça Eleitoral, quando há declaração pública; ser citado não significa ser condenado.
Orçamento secretoR$ 53,5 bi autorizados
Principais envolvidos. Arthur Lira (PP), presidente da Câmara; Rodrigo Pacheco (PSD), presidente do Senado; governo Jair Bolsonaro (PL).
Acusação.fatoBilhões distribuídos por indicação de parlamentares sem identificação pública, que críticos acusavam de servir para o governo comprar votos no Congresso. Lira pediu ao STF que liberasse os pagamentos suspensos.
Críticas e contradições.fatoO STF julgou o mecanismo inconstitucional, não pessoas: não é crime em si. Bolsonaro vetou a obrigatoriedade, mas seu governo distribuiu os recursos. O volume de emendas continuou crescendo no governo Lula, por outras rubricas.
Patrimônio declarado.fatoArthur Lira: R$ 25,96 milhões em 2026, contra R$ 5,96 milhões em 2022, alta nominal de cerca de 335% em quatro anos.
Principais envolvidos. Doleiros como Alberto Youssef, que anos depois seria peça central da Lava Jato, e Dario Messer.
Acusação.estimativaCerca de US$ 24 bilhões remetidos ilegalmente ao exterior pelo antigo banco estatal do Paraná, por meio de 91 contas abertas em nome de laranjas.
Críticas e contradições.fatoO juiz de parte dos processos foi Sergio Moro, e o STF anulou uma de suas sentenças no caso por parcialidade, antes mesmo do caso Lula. O valor circula em listas de imprensa sem fonte oficial. estimativaOs R$ 42 bilhões correspondem aos cerca de US$ 24 bilhões convertidos a um câmbio próximo de R$ 1,75, o do fim dos anos 1990 (cálculo nosso); em valores de hoje, a cifra seria maior.
Patrimônio declarado. Não há declaração pública recente localizada.
Revista Fórum, citando a Mundo Estranho; Capitalist; anulação: acórdão do STF, via TJCE (cópia em agregador; link original não localizado).
Banco MasterR$ 41 bi reservados pelo FGC
Principais envolvidos. Daniel Vorcaro, dono do banco, preso preventivamente desde março de 2026; o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato a presidente no segundo turno de 25 de outubro de 2026; o senador Ciro Nogueira (PP); o BRB, banco do governo do Distrito Federal (MDB); os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli; e, segundo a imprensa, o ex-ministro Guido Mantega e o escritório da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski.
Acusação.fatoFraude com carteiras de crédito sem lastro, investigada por gestão fraudulenta e organização criminosa. A PF apura se políticos atuaram por uma emenda que elevaria a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, entre eles Ciro Nogueira. Relatório da PF aponta Flávio Bolsonaro como "interlocutor direto" de Vorcaro no financiamento do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, que recebeu R$ 61 milhões em repasses. O escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci, tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master, a R$ 3,6 milhões por mês. Uma empresa de Toffoli e seus irmãos vendeu parte de um resort a um fundo ligado ao banco.
Críticas e contradições.fatoFlávio dizia publicamente não conhecer Vorcaro enquanto mensagens registram seis encontros e a cobrança de pagamentos; ele chegou a obter na Justiça a remoção de uma postagem que o ligava ao caso. Moraes e Toffoli viajaram em jatos de empresas ligadas a Vorcaro; Toffoli, então relator, deixou o caso por "foro íntimo" após a PF revelar mensagens. O escândalo atravessa a direita, figuras ligadas a governos do PT e o próprio STF. A investigação está em curso, sem condenações.
Patrimônio declarado.fatoFlávio Bolsonaro: R$ 8,19 milhões em 2026, alta real de 211% desde 2018. Ciro Nogueira: R$ 34,6 milhões em 2026. Vorcaro comprou uma mansão em Trancoso por cerca de R$ 280 milhões, segundo a imprensa. Ministros do STF não declaram bens à Justiça Eleitoral.
Principais envolvidos. Conselheiros do Carf, o tribunal administrativo da Receita; grandes empresas, como a Gerdau, alvo de uma das fases; os lobistas Mauro Marcondes e José Ricardo da Silva; Lula e seu filho Luís Cláudio.
Acusação.fatoCompra de decisões no Carf para anular ou reduzir multas de grandes empresas. Num braço do caso, lobistas foram condenados por "comprar" medidas provisórias nos governos Lula e Dilma, e o MPF denunciou Lula e o filho, que recebeu R$ 2,5 milhões dos consultores.
Críticas e contradições.fatoLula foi absolvido em 2021: o juiz concluiu que não havia evidências mínimas de acerto ilícito em seu favor. A maior parte do dinheiro envolve fraude fiscal de empresas, mas a cobertura política se concentrou em Lula.
Patrimônio declarado.fatoLula: R$ 4,78 milhões em 2026.
Principais envolvidos. Entidades associativas e sindicais; o presidente do INSS Alessandro Stefanutto, demitido; o ministro da Previdência Carlos Lupi (PDT), que caiu com o escândalo.
Acusação.fatoDescontos de mensalidades em aposentadorias sem autorização. Na auditoria da CGU, 97% dos aposentados ouvidos disseram nunca ter autorizado o desconto.
Críticas e contradições.fatoOs convênios foram ampliados no governo Bolsonaro e continuaram no início do governo Lula, cuja CGU iniciou a apuração em 2023. O valor de R$ 6,3 bilhões soma descontos legais e ilegais.
Patrimônio declarado. Não há declaração pública recente localizada.
Principais envolvidos. Os ex-diretores Paulo Roberto Costa (cota do PP) e Renato Duque (cota do PT); o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB); as empreiteiras do cartel, como Odebrecht e OAS; José Dirceu e Lula, condenados por Moro.
Acusação.fatoCartel de 16 empreiteiras dividia contratos da Petrobras e pagava propina a diretores indicados por partidos. Cunha mantinha contas não declaradas na Suíça e foi cassado. Duque teve a pena elevada a 43 anos pelo TRF4.
Críticas e contradições.fatoO cartel existia desde os anos 1990. O TRF4 absolveu o tesoureiro do PT João Vaccari duas vezes por condenações baseadas só em delação. As condenações de Lula e de Dirceu foram anuladas por parcialidade de Moro, não por absolvição no mérito. Do outro lado, empresas e executivos confessaram, e a Petrobras reconheceu as perdas.
Patrimônio declarado.fatoLula: R$ 4,78 milhões em 2026. José Dirceu: R$ 4,13 milhões em 2026, cerca de 78% numa casa em São Paulo.
Principais envolvidos. As multinacionais Siemens, Alstom e Bombardier; governos de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin (PSDB).
Acusação.fatoAs empresas dividiam contratos de manutenção e reforma de trens e metrô. O Ministério Público estimou o desvio em ao menos R$ 834 milhões.
Críticas e contradições.hipóteseMesmo com valor muito maior que o do mensalão, o caso teve pouca repercussão nacional e não tornou Geraldo Alckmin ficha suja.
Patrimônio declarado. Não há declaração pública recente localizada.
Principais envolvidos. José Dirceu, ministro da Casa Civil; José Genoino, presidente do PT; Delúbio Soares, tesoureiro; o operador Marcos Valério; o diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato; a cúpula do Banco Rural. O esquema foi denunciado por Roberto Jefferson (PTB).
Acusação.fatoCompra de apoio de partidos aliados com dinheiro desviado, inclusive R$ 73,8 milhões do fundo Visanet, do Banco do Brasil, e empréstimos simulados. O STF condenou Dirceu por corrupção ativa por 8 a 2, com pena de 7 anos e 11 meses, cumprida. Valério recebeu 37 anos.
Críticas e contradições.fatoA condenação de Dirceu usou a "teoria do domínio do fato", e o jurista conservador Ives Gandra afirmou que ele foi condenado sem provas; para o formulador da teoria, Claus Roxin, ela não dispensa prova da ordem dada. A condenação por quadrilha caiu nos embargos. As defesas contestam que todo o dinheiro do Visanet tenha sido desviado. O mensalão mineiro, mais antigo e com o mesmo operador, demorou muito mais.
Patrimônio declarado.fatoJosé Dirceu: R$ 4,13 milhões em 2026.
Máfia da merenda (SP)R$ 11,4 mi (contrato estadual)
Principais envolvidos. Fernando Capez (PSDB), então presidente da Assembleia de SP; assessores dele; a cooperativa Coaf; o deputado Baleia Rossi (MDB), hoje presidente nacional do partido, e Nelson Marquezelli (PTB), citados em delação.
Acusação.fatoPropina para superfaturar a venda de suco de laranja e alimentos para a merenda. A denúncia aponta que 10% do contrato estadual pagou despesas da campanha de Capez. Contratos com prefeituras sob suspeita somavam R$ 210 milhões.
Críticas e contradições.fatoA CPI da Assembleia, de maioria governista, concluiu que houve fraude, mas sem prejuízo aos cofres públicos; só assessores foram punidos. Capez virou réu no TJ-SP, teve R$ 24 milhões em bens bloqueados e depois foi nomeado diretor do Procon no governo João Doria. Ele nega as acusações.
Patrimônio declarado. Não há declaração pública recente localizada.
Principais envolvidos. Eduardo Azeredo, ex-governador e ex-presidente nacional do PSDB; o operador Marcos Valério; o vice da chapa, Clésio Andrade (PMDB).
Acusação.fatoDesvio de recursos de estatais de Minas para a campanha de reeleição de 1998. Azeredo foi condenado a 20 anos e 10 meses, pena mantida em segunda instância pela Justiça mineira.
Críticas e contradições.fatoAzeredo renunciou ao mandato quando a Procuradoria pediu 22 anos de prisão, e o caso saiu do STF. O ministro Joaquim Barbosa disse que o objetivo era evitar o julgamento. O caso começou antes do mensalão do PT e foi julgado depois.
Patrimônio declarado. Não há declaração pública recente localizada.
Quem criou.fatoEm 2019, o Congresso aprovou a LDO de 2020 com execução obrigatória das emendas de relator-geral, código RP9. Bolsonaro vetou a obrigatoriedade, e o Congresso derrubou os vetos em 2020 e 2021.
Quem potencializou.fatoSob a presidência de Arthur Lira (PP) na Câmara e Rodrigo Pacheco (PSD) no Senado, as emendas de relator somaram R$ 53,5 bilhões autorizados entre 2020 e 2022, sem identificar o parlamentar que indicava o destino do dinheiro. Críticos as acusavam de servir para o governo Bolsonaro comprar votos no Congresso. Lira chegou a pedir ao STF que liberasse os pagamentos suspensos.
O STF.fatoEm dezembro de 2022, o STF declarou o orçamento secreto inconstitucional, por 6 votos a 5, por violar a publicidade, a impessoalidade e a moralidade.
Hoje.fatoO dinheiro migrou para outras rubricas, como as transferências diretas conhecidas como "emendas Pix" e repasses de ministérios, também usados pelo governo Lula. O Orçamento de 2026 reservou cerca de R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, o maior volume da história.
hipóteseAs emendas não são crime em si. Mas um mecanismo que entrega dezenas de bilhões por ano sem critério técnico, com pouca transparência e em troca de apoio político cumpre a função que os escândalos clássicos cumpriam, agora dentro da lei.
4,4 miempregos a menos entre 2014 e 2017, 1,1 milhão deles na construção civil
2,5% → 1,4%do PIB: obras de infraestrutura caíram de 2% a 2,5% antes da crise para 1,4% em 2017
estimativaO número de empregos é do Dieese, feito a pedido da CUT, e compara a economia real com um cenário sem a Lava Jato. Economistas do Ibre/FGV concordam que a operação paralisou boa parte das obras de infraestrutura, mas divergem sobre seu peso na recessão de 2014 a 2016, que também teve queda no preço das commodities, crise hídrica e de energia e erros de política econômica.
hipótesePunir executivos e preservar empresas e empregos era possível. A escolha foi outra, e as maiores construtoras e a cadeia de petróleo brasileira saíram enfraquecidas, enquanto autoridades americanas recebiam multas recordes.
fatoNo Índice de Percepção da Corrupção de 2025, da Transparência Internacional, o Brasil ficou em 107º lugar entre 180 países, com 35 pontos numa escala de 0 (muito corrupto) a 100 (muito limpo). É uma posição no terço de baixo, mas longe do fim da lista: Moçambique, por exemplo, está em 161º. Nenhum índice internacional coloca o Brasil como o país mais corrupto do mundo. O índice mede, porém, como especialistas e executivos percebem a corrupção do setor público, e não a corrupção que de fato acontece.
Outra pesquisa da mesma organização, o Barômetro Global da Corrupção, pergunta diretamente à população se ela pagou propina para usar um serviço público, como escola, hospital, polícia ou documentos, nos 12 meses anteriores. Percentual de quem pagou:
União Europeia (2021)
7%
Estados Unidos (2013)
7%
Brasil (2019)
11%
Ásia (2020)
quase 1 em 5
Oriente Médio e Norte da África (2019)
1 em 5
América Latina e Caribe (2019)
mais de 1 em 5
Mundo (2015 a 2017)
quase 1 em 4
China (2020)
28%
fatoNo Brasil, 11% dos usuários de serviços públicos pagaram propina em 2019, a terceira menor taxa entre os 18 países da América Latina e do Caribe; nas escolas foram 4%, nos hospitais e na Justiça, 5%. A taxa brasileira fica abaixo da média latino-americana, da asiática e da mundial, e mais perto da União Europeia (7%) e dos Estados Unidos (7%) do que da China (28%). Ao mesmo tempo, nove em cada dez brasileiros disseram ver a corrupção no setor público como um grande problema, o maior nível de preocupação da região. No Brasil, a pesquisa foi feita pela Ipsos, com 1.000 entrevistas, entre fevereiro e abril de 2019.
estimativaAs edições são de anos diferentes (o dado dos Estados Unidos é de 2013, a última edição global) e foram feitas por institutos diferentes, com a mesma pergunta. A comparação é aproximada. E o Barômetro mede só a propina do dia a dia: contratos superfaturados e desvios bilionários, como os da Petrobras, não aparecem nessa pergunta, e nenhuma pesquisa internacional mede bem esse tipo de corrupção.
hipóteseA distância entre perceber e viver a corrupção conversa com a tese do sociólogo Jessé Souza, em A tolice da inteligência brasileira e A elite do atraso. Para ele, a interpretação clássica do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, fixou a ideia de um Estado naturalmente corrupto, herdeiro do patrimonialismo português. Essa ideia produz uma oposição falsa entre um Estado ineficiente e corrupto e um mercado virtuoso, e esconde a apropriação privada da riqueza, por salários baixos, lucros altos e captura do orçamento pela elite econômica, o que liga a corrupção ao tema da desigualdade do capítulo 1. Jessé associa esse discurso a uma desigualdade de raiz escravista e racista, e vê no "combate à corrupção" de 2016 um moralismo de classe média que protegeu privilégios. Críticos respondem que ele minimiza a corrupção que existe de fato dentro do Estado. Os dados acima mostram a distância entre percepção e experiência, mas não provam a causa: a corrupção grande, que os escândalos revelaram, também explica parte da percepção.
Anos 1990: nasce o cartel de empreiteiras na Petrobras.
1998: mensalão mineiro na campanha de Azeredo (PSDB), operado por Marcos Valério.
2005: revelado o mensalão do PT, com o mesmo operador.
2009: Moro no Projeto Pontes, programa americano de treinamento.
2012: STF julga o mensalão do PT. O mineiro segue parado.
2013: revelada a espionagem da NSA sobre Dilma e a Petrobras.
2014: começa a Lava Jato.
2015: agentes americanos em Curitiba. Fiesp lança o pato. Cunha aceita o impeachment no dia em que perde o apoio do PT.
2016: anúncios empresariais pedem "Impeachment já". Jucá gravado falando em "estancar a sangria". Dilma afastada. Odebrecht faz acordo recorde com os EUA.
2018: Lula preso com 39% nas pesquisas. Bolsonaro vence e nomeia Moro ministro.
2019 a 2022: Vaza Jato, Lula solto, condenações anuladas, Moro declarado suspeito, decisão do comitê da ONU.
Conclusão
A corrupção existiu no PSDB, no PMDB, no PP, no PT e em quase todos os grandes partidos. A punição, não. O mensalão mineiro, mais antigo, esperou; o do PT foi julgado. Na Petrobras, um cartel nascido nos anos 1990 virou, na narrativa dominante, um problema de um só partido. E um conjunto de atores com interesses próprios agiu ao mesmo tempo: autoridades americanas que levaram multas recordes, uma federação industrial que pagou anúncios pelo impeachment, políticos investigados que queriam "estancar a sangria", uma emissora que recebia documentos minutos antes do telejornal e um juiz que depois virou ministro de quem venceu. Quem decide o que é corrupção decide, na prática, quem governa.
Cuidados: não há documento que mostre os EUA, a Fiesp ou qualquer ator único planejando o conjunto; a convergência é documentada, a coordenação é hipótese. O mensalão do PT foi crime real e julgado. As mensagens da Vaza Jato foram obtidas por um hacker, e Moro e Dallagnol contestam seu uso.
Desde a redemocratização, o Brasil teve oito governos. Cada lado escolhe o número que favorece o seu. Este capítulo faz o contrário: usa indicadores oficiais, comparáveis entre os governos, e mostra o que cada um entregou no que depende do presidente.
A tese a testar: "o PT quebrou o Brasil". Os números mostram uma história com três partes diferentes: os governos Lula 1 e 2 tiveram os melhores resultados; o segundo governo Dilma viveu a pior recessão do período; e o Lula 3 combina recordes sociais com juros e dívida altos.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Antes de comparar
O que é justo cobrar de um presidente
Contexto externo.fatoLula governou num período de crescimento mundial mais forte; Bolsonaro, na pandemia. Por isso o capítulo compara o Brasil com o mundo quando há dado.
Congresso.hipóteseTer ou não maioria no Congresso pesa no que um presidente consegue aprovar. Esse fator não entra nos números.
Juros.fatoQuem define a Selic é o Comitê de Política Monetária do Banco Central, que desde 2021 tem autonomia formal e diretores com mandato fixo, não coincidente com o do presidente.
Fora da conta.fatoSegurança pública e saneamento dependem sobretudo de estados e municípios, e por isso não entram neste placar: segurança é tratada no capítulo 8, e saneamento tem placar próprio, com essa ressalva, no capítulo 12. Os governos Collor e Itamar (1990-1994) ficam fora porque a hiperinflação torna os números incomparáveis; o Plano Real nasceu em 1994, no governo Itamar, com Fernando Henrique como ministro da Fazenda.
2. Crescimento
PIB: média de crescimento por ano
FHC (1995-2002)
2,4%
Lula (2003-2010)
4,1%
Dilma (2011-2014)
2,3%
Dilma e Temer (2015-2018)
−0,9%
cálculo nosso
Bolsonaro (2019-2022)
1,5%
pandemia em 2020
Lula 3 (2023-2025)
3,0%
cálculo nosso, três anos
fatoComparado ao mundo, o Brasil cresceu em média 4,05% ao ano com Lula, acima da média mundial de 2,73%. Com Bolsonaro, cresceu 1,12%, abaixo dos 1,95% do mundo, segundo cálculo da Unicamp. Em 2025, o PIB per capita chegou a R$ 59.687, o maior da série do IBGE, iniciada em 1996.
Médias por governo: Brasil em Mapas, com dados do IBGE (FHC, Lula, Dilma 1) e Exame (Temer e Bolsonaro; Dilma 2011-2016 com média de 0,4%, de onde sai, por cálculo nosso, o período 2015-2018); Lula 3: IBGE, 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, via Poder360; comparação com o mundo: Instituto de Economia da Unicamp.
3. Inflação
IPCA: média por ano em cada governo
FHC (1995-2002)
9,1%
Lula (2003-2010)
5,8%
Dilma (2011-2014)
6,2%
Dilma e Temer (2015-2018)
5,9%
Bolsonaro (2019-2022)
6,1%
Lula 3 (2023-ago/2026)
4,6%
até agosto de 2026
estimativaAs médias anuais são cálculo nosso a partir do IPCA acumulado em cada mandato. FHC tem a média mais alta porque governou logo após a hiperinflação.
IPCA acumulado por mandato: Poder360, com dados do IBGE; Lula 3, 17,9% de janeiro de 2023 a agosto de 2026: IBGE, via Brasil Fora da Caverna.
4. Renda de quem ganha menos
Salário mínimo: ganho acima da inflação
FHC (1995-2002)
40,0%
Lula (2003-2010)
62,4%
Dilma (2011-2014)
12,4%
Dilma e Temer (2015-2018)
5,3%
Bolsonaro (2019-2022)
−1,2%
Lula 3 (2023-2026)
11,5%
quatro reajustes; cálculo nosso
fatoO governo Temer não concedeu ganho real e o governo Bolsonaro abandonou a regra de valorização; o governo Lula 3 a retomou, agora limitada pelo arcabouço fiscal a um ganho de até 2,5% ao ano. Em 2025 e em 2026, o ganho real foi o teto: o mínimo passou a R$ 1.518 e depois a R$ 1.621, com reajuste de 6,79% sobre INPC de 4,18%. estimativaO Lula 3 soma os 6,1% de 2023 e 2024, calculados pela FGV, aos 2,5% de 2025 e aos 2,5% de 2026: cerca de 11,5% em quatro reajustes.
Cálculos da FGV por mandato, via Notícias Concursos (soma de dois mandatos e de Dilma 2 com Temer: cálculo nosso); o Dieese chega a valores próximos, como 53,7% para Lula e 17,7% para FHC, com outra metodologia, via Contag; regra atual: CSPB; reajuste de 2026: Diario de Pernambuco, sobre o Decreto 12.797/2025.
5. Pobreza e emprego
Pobreza e desemprego ao longo do tempo
Cada gráfico usa uma única fonte e uma única régua, porque linhas de pobreza diferentes não podem ser comparadas entre si. As faixas no fundo mostram quem governava.
% da população. Linha tracejada: Banco Mundial (US$ 1,90 e US$ 5,50 por dia, preços de 2011), só anos publicados. Linha contínua: IBGE (US$ 2,15 e US$ 6,85 por dia, preços de 2017), todos os anos. As duas fontes usam réguas diferentes, por isso entre 2012 e 2019, quando se sobrepõem, as linhas correm paralelas em níveis distintos: compare a direção de cada linha, não a distância entre elas.
fatoPela série do Banco Mundial, a extrema pobreza ficou estável no primeiro governo FHC (12,9% em 1995, 13,3% em 1999) e caiu para 10,2% em 2002. Nos anos Lula, caiu quase pela metade, e a pobreza foi de 40% para 24%. As duas séries mostram a mesma virada depois: melhora até 2014, piora na recessão até 2018 e 2019. No governo Bolsonaro, a série do IBGE registra três movimentos: queda em 2020, com o auxílio emergencial; o pior ano da série em 2021, com o auxílio reduzido; e nova queda em 2022, ano eleitoral, com o Auxílio Brasil ampliado. Depois, três anos seguidos de queda até 2024, o melhor resultado da série.
fatoO gráfico termina em 2024 porque é o último ano com dado publicado: o IBGE divulga a pobreza de cada ano só em dezembro do ano seguinte, e os números de 2025 ainda não saíram. A saída do Mapa da Fome em 2025 usou a média de 2022 a 2024, os mesmos anos que fecham o gráfico; o relatório da FAO de 2026 confirmou o Brasil fora do mapa pelo segundo ano, com a insegurança alimentar grave em 0,6% da população no triênio 2023-2025.
fatoSem os programas sociais, a extrema pobreza de 2024 seria de 10%, quase o triplo dos 3,5% registrados.
Desemprego, de FHC a Lula 3
Série reconstruída (estimativa acadêmica), 1995-2011IBGE, PNAD Contínua, 2012-2025
% da força de trabalho, média anual. A PNAD Contínua, pesquisa oficial de desemprego para todo o país, só existe desde 2012. Antes disso, o IBGE media o desemprego com outras pesquisas e outros critérios. Para comparar, pesquisadores da FGV e da USP reconstruíram a série da PNAD Contínua para trás com base nessas pesquisas antigas: é a linha tracejada, uma estimativa, sem os anos 2006 a 2008 e 2010 nas fontes acessíveis.
estimativaPela série reconstruída, o desemprego subiu nos dois governos FHC, de cerca de 7% em 1995 para cerca de 10% em 1999, e ficou nesse nível até 2003. Nos anos Lula, caiu para 7,6% em 2011.
fatoPela série oficial, o desemprego chegou ao mínimo de 6,9% em 2014, subiu na recessão até 12,9% em 2017, atingiu 14% em 2021, fechou 2022 em 9,6% e caiu para 5,6% em 2025, o menor da série. Pela pesquisa antiga das seis maiores metrópoles (PME), caiu de 12,4% em 2003 para 5,4% em 2013.
fatoA dívida líquida do setor público terminou o governo FHC em cerca de 60% do PIB (59,5% a 59,9%, conforme a revisão do Banco Central; pela metodologia antiga, a única que cobre 1994 e por isso usada no placar para o mandato de FHC, 55,5%), caiu quase pela metade até cerca de 30% em 2013 e voltou a subir a partir de 2014, chegando a 52,8% no fim do governo Temer. A dívida bruta teve seu menor nível em dezembro de 2013, 51,5% do PIB, e hoje está em torno de 82%.
Dívida bruta do governo em % do PIB:
Japão
198,5%
Itália
140,3%
França
113,0%
dado de 2023
Zona do euro
87,4%
2024
Brasil
82,0%
junho de 2026
Alemanha
62,5%
2024
hipóteseA dívida brasileira é menor que a de vários países ricos, mas o problema não é só o tamanho: o Brasil paga juros muito mais altos sobre ela, e é isso que a faz crescer. O TCU registra que, só em 2023, os juros nominais acrescentaram 7,5 pontos do PIB à dívida.
fatoOs juros reais, a Selic descontada a inflação, devem fechar o Lula 3 em média de 7,65% ao ano, o maior patamar desde o Lula 1, que teve 11,2%. A Selic chegou a 15% em 2025, a mais alta em quase 20 anos.
fatoDesde 1999, o Brasil segue o chamado tripé macroeconômico, criado no segundo mandato de FHC: meta de inflação, câmbio flutuante e meta de superávit primário nas contas públicas. Pela meta de inflação, o Copom sobe a Selic quando a inflação ou as expectativas de inflação ficam acima do alvo, e corta quando caem. Na prática, pesam a inflação corrente, as projeções do mercado, o dólar, o risco fiscal percebido e os juros dos Estados Unidos.
fatoLula manteve o tripé ao assumir em 2003: anunciou metas de inflação, subiu a Selic e apertou a meta de superávit primário. Entre 1999 e 2012, a Selic descontada a inflação ficou em média acima de 8% ao ano, mesmo com superávits de cerca de 4% do PIB.
hipóteseComo todos os governos desde 1999 operaram dentro do mesmo tripé, a política de juros muda pouco de presidente para presidente, e as diferenças entre governos vêm mais da política social, do salário mínimo, do preço das commodities e dos choques externos. Isso também explica por que o Brasil mantém juros reais entre os mais altos do mundo sob governos de esquerda e de direita.
Banco Central, série oficial 29265: parcela da renda mensal das famílias que vai para pagar dívidas com bancos (juros e amortização), média de cada ano; 2026 é a média de janeiro a junho. A série começa em março de 2005, por isso não cobre FHC nem o início do governo Lula: antes disso o Banco Central não media este indicador.
fatoA fatia da renda comprometida com dívidas subiu de 18% em 2005 para 24% em 2011, com a expansão do crédito nos governos Lula e Dilma. Ficou entre 22% e 24% de 2013 a 2019, caiu para 21,5% em 2020, com os juros baixos e o auxílio emergencial, e subiu com força a partir de 2022, quando a Selic voltou a dois dígitos: 26,4% em 2022 e 28,6% no primeiro semestre de 2026, o maior nível da série.
fatoEm fevereiro de 2026, o endividamento das famílias chegou a 49,9% da renda de 12 meses, superando o pico anterior, de julho de 2022, e o comprometimento da renda bateu o recorde da série iniciada em 2005. Em agosto de 2026, a inadimplência das pessoas físicas chegou a 6% da carteira, também recorde.
Por que as famílias estão endividadas agora
Juros altos.fatoCom a Selic a 15%, a taxa média para pessoas físicas passou de 61% ao ano no início de 2026.
Cartão de crédito.fatoÉ a principal dívida de 83,6% das famílias endividadas. Os juros do rotativo estão no capítulo 7.
Novo crédito consignado.fatoO consignado para trabalhadores do setor privado, lançado em março de 2025, fez as concessões mensais saltarem de R$ 1,6 bilhão para mais de R$ 6 bilhões.
Apostas online.estimativaReportagem do Senado aponta as bets como nova causa relevante de endividamento entre 2024 e 2025, sobretudo na baixa renda.
Custo de vida.hipóteseFamílias de baixa renda passaram a usar crédito para completar o salário, o que explica o recorde de dívidas mesmo com desemprego no menor nível da série.
Pedidos de recuperação judicialPedidos de falência% sobre empresas ativas (eixo da direita)
Barras: pedidos por ano, eixo da esquerda (Serasa). Linha: pedidos de recuperação judicial e falência somados, em % do total de empresas e outras organizações ativas do IBGE, eixo da direita; cálculo nosso. Linha tracejada após a divisória: em 2022 o IBGE mudou o critério de empresa ativa, e o total saltou de 5,7 para cerca de 9,4 milhões, por isso a queda nesse ponto é efeito da nova contagem. Sem linha em 2010, 2011 e 2024 por falta do total de empresas nas fontes consultadas.
estimativaEm proporção às empresas ativas, o peso é pequeno e caiu: de cerca de 5 pedidos para cada 10 mil empresas em 2012 e 2013 para 7,3 em 2016, no pico, e 3,2 em 2021. Em todos os anos, fica abaixo de 0,1% das empresas. A conta é nossa: pedidos da Serasa divididos pelo total de empresas e outras organizações ativas do Cadastro Central de Empresas do IBGE (que inclui cerca de 10% de órgãos públicos e entidades sem fins lucrativos). Em 2022, o IBGE mudou o critério de empresa ativa e o total saltou para cerca de 9,4 milhões, por isso 2022 e 2023 não se comparam com os anos anteriores; o dado de 2024 ainda não foi publicado.
fatoSomados os pedidos de recuperação judicial e de falência, na mesma série da Serasa, o total ficou entre 2.250 e 2.700 por ano de 2010 a 2014 (fim do governo Lula e Dilma), saltou para 3.715 em 2016, no pico da recessão, e caiu ano a ano até 1.699 em 2022 (Temer e Bolsonaro, com juros em queda até o início de 2021 e crédito emergencial e prazos estendidos na pandemia). Com a alta da Selic, voltou a subir: 3.222 em 2024 (Lula 3), ainda abaixo de 2016. A composição mudou: em 2012, de cada 10 pedidos, 7 eram de falência; em 2024, 7 eram de recuperação judicial.
hipóteseA recuperação judicial virou ferramenta de renegociação: a empresa pede proteção para continuar operando em vez de quebrar. Por isso o "recorde de recuperações" não significa recorde de empresas fechando.
Por que não começa em FHC: a recuperação judicial só existe desde junho de 2005, quando a nova Lei de Falências (Lei 11.101) substituiu a antiga concordata; a série da Serasa começa nesse ano, mas os totais anuais de 2006 a 2009 não aparecem completos nas fontes públicas consultadas. Antes disso, as regras e os instrumentos eram outros, e os números não são comparáveis. Em 2025 a Serasa mudou de novo a metodologia e passou a contar processos e empresas envolvidas, por isso 2025 também não entra: pela nova conta, foram 977 pedidos de recuperação judicial, abaixo dos 1.011 de 2016, e os pedidos de falência caíram 19%.
O estoque de investimento estrangeiro nunca foi tão alto
US$ 1,4 triestoque de investimentos estrangeiros no fim de 2025, recorde, segundo a ApexBrasil com dados do Banco Central
6,1% → 46,6%estoque de investimento direto estrangeiro em % do PIB, de 1995 a 2024
US$ 77 bientrada de investimento direto em 2025, a 3ª maior do mundo, atrás de EUA e China (OCDE, dado preliminar)
fatoLevantamento da ApexBrasil, divulgado pelo ICL Notícias e não localizado em fonte primária, aponta que o estoque de investimentos estrangeiros no Brasil chegou a US$ 1,4 trilhão no fim de 2025, alta de US$ 275,3 bilhões (24,1%) sobre 2024. Pelo Banco Central, o estoque de investimento direto estrangeiro, que mede a participação de estrangeiros no capital de empresas no país, era de 6,1% do PIB em 1995, passou de 30% pela primeira vez em 2019 e chegou a 46,6% em 2024, recorde da série. A entrada de investimento direto em 2025 foi de US$ 77 bilhões, cerca de 15% acima de 2024, o que colocou o Brasil em terceiro lugar entre os destinos do mundo, contra a quinta ou sexta posição habitual.
estimativaPor que não entra no placar: o estoque é uma soma acumulada de décadas e varia muito com o câmbio. Em 2024, por exemplo, o estoque em dólares caiu em relação a 2023 porque o dólar subiu de R$ 4,84 para R$ 6,19, como explicou o próprio Banco Central. Parte do salto de 2025 também pode refletir a valorização do real e das empresas, e não só dinheiro novo; o fluxo anual de entrada é a medida mais justa para comparar governos, mas a série por mandato ainda não foi incorporada ao site.
hipóteseO recorde mostra que o país segue atraente para o capital produtivo externo, o que contradiz a ideia de fuga de investidores. Mas a crescente participação estrangeira no capital das empresas também significa que uma fatia maior dos lucros gerados aqui é remetida para fora, tema que conversa com o capítulo da financeirização.
Estoque de 2025: ApexBrasil, via ICL Notícias (Jamil Chade; não localizamos a matéria para link direto); série do Banco Central e efeito do câmbio: Agência Brasil, via Mercado & Consumo; fluxo de 2025 e ranking: OCDE, via Brasil 61.
9. Quem ganhou em todos os governos
O lucro dos bancos
fatoOs bancos lucraram em todos os governos, de todos os lados. Em 2025, o sistema bancário lucrou R$ 255 bilhões, recorde, com a Selic a 15%. A série completa, de FHC a Lula 3, está no capítulo 7, que trata da financeirização da economia.
O que levou à recessão, e o que não justificava o impeachment
fatoO PIB caiu em 2015 e 2016. Economistas apontam quatro causas, e discordam sobre o peso de cada uma: a política econômica de 2011 a 2014, a queda das commodities em 2014, o ajuste de 2015 e a redução do endividamento das empresas a partir de 2016.
Erros do primeiro mandato.fatoA chamada Nova Matriz Econômica reduziu juros e tarifas de energia na marra, deu desonerações tributárias e crédito subsidiado, e segurou preços de combustível e energia. Curiosamente, atendia a bandeiras da própria Fiesp, que depois fez campanha pelo impeachment.
Choques de fora.fatoQueda das commodities, desaceleração da China, a seca e o risco de racionamento de água e energia.
O "cavalo de pau" de 2015.fatoJá reeleita, Dilma nomeou Joaquim Levy, subiu juros, cortou gastos e liberou de uma vez os preços da energia, com forte choque de inflação.
A Lava Jato.estimativaAo paralisar a Petrobras e as grandes construtoras, a operação foi apontada por duas consultorias, em 2015, como responsável pela maior parte da recessão daquele ano.
hipóteseA leitura mais equilibrada é a do economista Bráulio Borges, citada no debate: a Nova Matriz explica parte da crise, mas provavelmente não é o principal fator; choques climáticos, commodities e Lava Jato foram subestimados. Houve erro de política e houve crise provocada de fora do governo, e as duas coisas se somaram.
As pedaladas e o impeachment
fatoA perícia feita por técnicos do Senado em junho de 2016 concluiu que Dilma não teve participação nas pedaladas, o atraso de repasses do Tesouro ao Banco do Brasil. Apontou apenas que ela editou três decretos de crédito suplementar sem autorização do Congresso. Dois dias depois do impeachment, o Congresso aprovou a Lei 13.332/2016, que flexibilizou justamente a abertura desses créditos sem autorização legislativa. Em 2023, o TRF-1 manteve o arquivamento da ação de improbidade sobre as pedaladas, sem julgar o mérito.
hipóteseEste site considera o impeachment uma decisão política, sem crime de responsabilidade que o justificasse: a prática que o fundamentou foi legalizada em seguida, e o Ministério Público concluiu que as pedaladas não eram crime comum. O argumento contrário: o processo seguiu o rito constitucional, foi aprovado por 61 votos a 20 no Senado, e a perícia confirmou os decretos sem autorização.
Cada coluna mede o que mudou durante o governo, ano a ano, para que mandatos de 4 e de 8 anos possam ser comparados. A cor mostra a posição do governo naquele indicador: verde mais forte é melhor, vermelho mais forte é pior. A nota é a média das posições, numa escala de 0 a 10. Role a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Governo
Crescimento do PIB% ao ano
Inflação% ao ano
Salário mínimo realganho % ao ano
Extrema pobrezavariação % ao ano
Desigualdade (Gini)pontos ao ano
Desempregopontos % ao ano
Dívida líquidapontos do PIB ao ano
Fome (FAO)
Nota0 a 10
FHC (1995-2002)
+2,4%
9,1%
+4,3%
-3%
-0,20
+0,39
+3,2
sem dado
3,45º
Lula (2003-2010)
+4,1%
5,8%
+6,3%
-9%
-0,63
-0,25
-2,7
sem dado
8,41º
Dilma (2011-2014)
+2,3%
6,2%
+3,0%
-11%
-0,34
-0,25
-1,4
saiu do mapa
5,73º
Dilma e Temer (2015-2018)
-0,9%
5,9%
+1,3%
+9%
+0,48
+1,38
+5,0
voltou ao mapa
1,26º
Bolsonaro (2019-2022)
+1,5%
6,1%
-0,3%
-5%
-0,48
-0,70
+0,8
no mapa, piora em 2022
4,24º
Lula 3 (2023-2026)*
+3,0%
4,6%
+2,7%
-23%
-0,40
-1,33
+3,6
saiu do mapa
7,32º
* Lula 3, nota provisória. O mandato vai até 31 de dezembro de 2026. estimativaRevisão prevista para março de 2027, quando saem PIB, inflação, desemprego e dívida de 2026; versão final em dezembro de 2027, quando o IBGE divulga pobreza e Gini de 2026. Datas pelo calendário habitual das fontes.
estimativaPlacar calculado por nós, com peso igual para os oito indicadores: Lula 8,4, Lula 3 7,3, Dilma 5,7, Bolsonaro 4,2, FHC 3,4, Dilma e Temer 1,2. Em cada indicador, o melhor governo recebe 10, o pior recebe 0 e os demais ficam no meio, conforme a posição; empates dividem a nota; quem não tem dado comparável não entra naquela coluna. Crescimento, inflação e salário mínimo são médias anuais do mandato. Pobreza, desigualdade, desemprego e dívida comparam o último dado antes do governo com o último dado dele, divididos pelo número de anos entre os dois. Fome é classificada pela situação no período. Mortalidade infantil e vacinação estão no placar da saúde (capítulo 10) e o desmatamento no do meio ambiente (capítulo 11): cada indicador conta em um só placar.
Contas públicas.fatoA dívida líquida do setor público subiu de 30% para 55,5% do PIB com FHC (série antiga do Banco Central, a única que cobre 1994), caiu de 59,9% (série atual, que começa em dezembro de 2002) para 38% com Lula e para 32,6% em 2014, subiu para 52,8% até 2018, para 56,1% em 2022 e para 69,3% em agosto de 2026. É o indicador em que o Lula 3 vai pior, ao lado de FHC e do período 2015-2018.
Desigualdade.fatoPelo Banco Mundial, o Gini caiu de 59,5 em 1995 para 58,1 em 2002, 53,7 em 2009 e 52,0 em 2014; subiu para 53,9 em 2018; voltou a 52,0 em 2022 e chegou a 51,6 em 2023. Sem dado de 2010, ano de Censo, Lula é medido de 2002 a 2009 e Dilma de 2009 a 2014.
Séries diferentes.estimativaExtrema pobreza de FHC e Lula vem do Banco Mundial e, de 2012 em diante, do IBGE; desemprego de FHC e Lula vem da série reconstruída da FGV e da USP; a dívida de FHC usa a metodologia antiga do Banco Central; o Gini do Lula 3 tem só um ano.
Lula 3 ainda não terminou.hipóteseEle parte de uma base deprimida pela pandemia, o que facilita melhorar emprego e pobreza. O resultado é provisório.
Fora do placar.fatoInvestimento (formação bruta de capital fixo, em % do PIB) ficou fora. O IBGE tem série comparável de 2000 em diante; entre 1999 e 2000 há uma quebra, pela inclusão de software e de pesquisa e desenvolvimento, o que deixa FHC sem ponto de partida. Os valores publicados também mudam a cada revisão das Contas Nacionais: 2018 aparece como 15,1% e como 15,8% do PIB em fontes diferentes. O indicador entra quando houver uma única edição da série com todos os anos de posse e de fim de mandato. Valores de referência: 20,9% em 2013, 14,6% em 2017 e 16,8% em 2025. Moradia popular também ficou fora por falta de totais anuais: o Minha Casa Minha Vida contratou 286 mil moradias em 2009, 940 mil em 2013 e 402 mil em 2015, e 1,27 milhão em 2023 e 2024.
O contexto de cada governo
Nenhum presidente governou no vácuo. O quadro abaixo mostra as condições que cada um encontrou, com medidas externas iguais para todos. Ele não altera a nota: serve para ler a nota.
Governo
Inflação herdadaIPCA do ano anterior à posse
MundoPIB per capita, % ao ano
Commoditiesvariação de preço no período
Inflação mundialmédia do período
Choques do período
FHC (1995-2002)
916,4%
+1,8%
+9% (desde 1998)
4,9%
Crises do México, da Ásia e da Rússia; desvalorização do real em 1999; racionamento de energia em 2001
Lula (2003-2010)
12,5%
+1,9%
+76%
4,4%
Crise financeira global de 2008
Dilma (2011-2014)
5,9%
+1,8%
+9%
3,4%
Fim do auge das commodities; seca
Dilma e Temer (2015-2018)
6,4%
+2,0%
−19%
1,9%
Queda das commodities, crise hídrica, Lava Jato, impeachment
Bolsonaro (2019-2022)
3,8%
+1,4%
+69%
3,9%
Pandemia; inflação global em 2021 e 2022
Lula 3 (2023-2026)*
5,8%
+1,9%
−23%
4,0%
Juros globais altos, guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, tarifaço dos EUA em 2025
fatoLula 1 e 2 e Bolsonaro tiveram forte alta das commodities que o Brasil exporta (+76% e +69%); o período 2015-2018 e o Lula 3 enfrentaram queda. FHC herdou a inflação de 916% de 1994 e atravessou três crises externas. Bolsonaro governou durante a pandemia e o surto de inflação mundial que chegou a 8% em 2022.
A nota ajustada pelos vizinhos
Para descontar o que vem de fora, o crescimento passa a ser medido contra a América Latina no mesmo período, e a inflação contra a média mundial. Se o mundo inteiro desacelerou, isso deixa de pesar contra o presidente; se todos cresceram, deixa de contar a favor. Os outros seis indicadores não têm comparação internacional equivalente e ficam como estão.
Governo
PIB per capitaBrasil vs América Latina, % ao ano
Diferençapontos ao ano
InflaçãoBrasil vs mundo, média
Diferençapontos
Nota bruta
Nota com contexto
FHC (1995-2002)
+0,97% vs +0,71%
+0,26
9,1% vs 4,9%
+4,17
3,4 5º
3,1 5º
Lula (2003-2010)
+2,99% vs +2,51%
+0,48
5,8% vs 4,4%
+1,44
8,4 1º
7,9 1º
Dilma (2011-2014)
+1,52% vs +1,66%
−0,14
6,2% vs 3,4%
+2,81
5,7 3º
5,7 3º
Dilma e Temer (2015-2018)
−1,69% vs −0,35%
−1,34
5,9% vs 1,9%
+3,97
1,2 6º
0,7 6º
Bolsonaro (2019-2022)
+0,88% vs +0,34%
+0,54
6,1% vs 3,9%
+2,18
4,2 4º
5,2 4º
Lula 3 (2023-2026)*
+2,58% vs +1,57%
+1,01
4,6% vs 4,0%
+0,65
7,3 2º
7,5 2º
estimativaCálculo nosso. O ajuste aproxima o topo sem trocar a ordem: o Lula 1 e 2 cai de 8,4 para 7,9 e o Lula 3 sobe de 7,3 para 7,5, porque a região toda cresceu com o boom das commodities nos anos 2000, enquanto o Lula 3 cresce acima da região em anos de juros globais altos. Bolsonaro é o que mais sobe, de 4,2 para 5,2, porque o Brasil cresceu mais que a América Latina na pandemia e a inflação brasileira ficou menos acima da mundial do que o número bruto sugere. FHC cai um pouco, de 3,4 para 3,1: o Brasil cresceu pouco acima da América Latina e a inflação ficou bem acima da mundial.
hipóteseO ajuste por vizinhos desconta os choques do mundo, mas não o ponto de partida. A inflação de FHC continua parecendo a pior porque a régua mede o nível, e não a queda: ele recebeu o país com inflação de 916% e o entregou com 12,5%. Esse mérito não aparece em nenhuma das duas notas, e o quadro de contexto acima existe para que o leitor o enxergue.
PIB per capita: Banco Mundial via FRED, Brasil, América Latina e Caribe e mundo (médias anuais compostas: cálculo nosso); inflação mundial: Banco Mundial via FRED; commodities: índice global do FMI via FRED, anual (2003 em diante) e trimestral (1998 a 2002); inflação herdada: IBGE via iDinheiro e Toro. A base de apoio no Congresso ficou fora do quadro por falta de uma medida comparável para todos os governos.
hipóteseA frase "o PT quebrou o Brasil" não resiste ao placar como afirmação geral: os governos Lula ficam no topo. Mas o placar também mostra o ponto mais forte de quem a defende: as contas públicas pioraram muito em 2015-2018 e no Lula 3. O período 2015-2018, que começa com Dilma e termina com Temer, é o pior em quase tudo; o governo Bolsonaro tem bons resultados em desemprego, pobreza e desigualdade no fim do mandato, e os piores em salário mínimo e fome; no desmatamento, tratado no capítulo 11, também tem o pior resultado.
Nos números oficiais, os melhores resultados para quem vive de salário vieram dos governos Lula e do primeiro governo Dilma, e os piores do período 2015-2018. O governo Bolsonaro teve resultado misto, com a pandemia no meio: pobreza e desemprego terminaram abaixo de 2018, mas o país voltou ao Mapa da Fome e o salário mínimo perdeu valor real. Como todos operaram dentro do mesmo tripé desde 1999, juros e inflação variam menos entre governos do que a política social. FHC entregou a estabilidade da moeda, com inflação e juros altos. O segundo governo Dilma é o argumento mais forte de quem diz que o PT quebrou o país, mas a recessão teve causas que iam além do governo, e o impeachment não tinha base nas pedaladas. O Lula 3 tem recordes de emprego, renda e pobreza, mas convive com juros reais altíssimos e dívida em alta. E em todos eles, sem exceção, os bancos lucraram.
Cuidados: presidentes não controlam sozinhos a economia; contexto externo, Congresso e Banco Central pesam. Algumas médias são cálculo nosso a partir de fontes secundárias que usam dados do IBGE e do Banco Central. Indústria e comércio não entraram por falta de séries comparáveis para todo o período nas fontes consultadas.
Em quarenta anos, o Brasil passou de país que se industrializava a país em que o maior negócio é emprestar dinheiro, inclusive ao próprio governo. Este capítulo mostra quando isso aconteceu, quem ganha com isso e como esse poder aparece no dia a dia de famílias e empresas.
A tese: a elite econômica brasileira deixou de ganhar principalmente produzindo e passou a ganhar principalmente com juros. Os bancos estão no centro desse arranjo, pelo tamanho, pelos lucros, pelo acesso ao Banco Central e pela influência sobre o que a imprensa chama de "bom para a economia".
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Quando o Brasil parou de se industrializar
O auge foi em 1985
26,8%do PIB era indústria de transformação em 1985, o auge (Iedi)
11,3%em 2018, o menor nível desde 1947
26,2% → 14,8%fatia da indústria no emprego formal, de 1985 a 2024
fatoA indústria cresceu de cerca de 16% da economia nos anos 1950 para cerca de 27% no início dos anos 1980. A queda começou em meados dos anos 1980, se aprofundou nos anos 1990, teve uma recuperação curta até 2004 (17,8%) e voltou a cair, chegando a 11,3% em 2018. Em 2024, a indústria de transformação representava cerca de 14% do PIB pela conta do IBGE, ou 10,8% pela conta do Iedi a preços constantes. Os 10,8% não desmentem o "menor nível desde 1947" de 2018: são outra medida, a preços constantes, e as duas não se comparam entre si.
hipóteseO Brasil se desindustrializou cedo: começou a perder indústria com renda por pessoa muito menor que a dos países ricos quando eles passaram pelo mesmo processo, como apontam economistas da FGV.
Anos 1970 a 1993: ganhar com a inflação.fatoEconomistas descrevem uma primeira fase de financeirização em que bancos e grandes empresas ganhavam aplicando dinheiro no mercado diário, o overnight, protegido contra a inflação.
Depois de 1994: ganhar com o juro.fatoCom o Plano Real, o ganho com a inflação acabou e foi substituído pelo ganho com juros altos, pagos principalmente pela dívida pública. Um estudo do Ipea chama isso de financeirização "por juros", com a dívida interna do governo como eixo.
O industrial que vira rentista.hipóteseBresser-Pereira, Paula e Bruno descrevem a formação de uma coalizão de interesses rentistas e financeiros que se beneficia de juros reais altos por décadas, e incluem nela o empresário industrial que passa a ganhar mais aplicando do que investindo.
R$ 1 trilhãogasto com juros da dívida pública em 2025, recorde: 7,9% do PIB
32,9%dos títulos da dívida interna estão com instituições financeiras, os maiores credores
As 10 maiores empresas da bolsa brasileira por valor de mercado, em R$ bilhões (início de 2026). Em vermelho, instituições financeiras:
1. Petrobras Petróleo
R$ 426 bi
2. Itaú Unibanco Banco
R$ 386 bi
3. Vale Mineração
R$ 245 bi
4. BTG Pactual Banco
R$ 218 bi
5. Ambev Bebidas
R$ 196 bi
6. Bradesco Banco
R$ 167 bi
7. WEG Indústria
R$ 153 bi
8. Banco do Brasil Banco
R$ 124 bi
9. Itaúsa Holding do Itaú
R$ 120 bi
10. Telefônica Brasil Telecomunicações
R$ 109 bi
fatoCinco das dez são do setor financeiro: Itaú, BTG, Bradesco, Banco do Brasil e Itaúsa, a holding que controla o Itaú. O Nubank, listado em Nova York, chegou a ser a empresa brasileira mais valiosa em 2025; em outras listas de 2026, que o incluem, as financeiras também são cinco das dez.
fatoA concentração cresceu: segundo o Banco Mundial, os cinco maiores bancos tinham 48,7% dos ativos do sistema em 2001 e 83,4% em 2017. O spread bancário, a diferença entre o juro que o banco cobra e o que paga, foi o segundo maior do mundo em 2016, quase sete vezes a média mundial, e seguia entre os cinco maiores em 2024.
estimativaO outro lado: a Febraban argumenta que a concentração brasileira é parecida com a do Canadá e da Austrália, e que inadimplência e impostos explicam boa parte do spread. Concentração alta existe em países ricos; o que diferencia o Brasil é a combinação de concentração, juros básicos altos e spread muito acima da média.
Juros do rotativo do cartão de crédito, % ao ano (levantamento da Proteste com dados dos bancos centrais de cada país, 2017):
Brasil
352,8%
Argentina (máximo)
47,4%
Peru (máximo)
44,1%
Colômbia
29,7%
México
25,4%
Estados Unidos (máximo)
25,0%
Chile
21,6%
Portugal (máximo)
16,1%
fatoEm 2026, o rotativo no Brasil cobrava entre 428% e 440% ao ano, e o cartão era a principal dívida de 83,6% das famílias endividadas. Uma lei de 2023 passou a limitar o total de juros do rotativo ao valor da dívida original.
fatoNa lei, o sócio de uma empresa limitada responde só pelo capital que colocou nela. Na prática, os bancos costumam condicionar o crédito à assinatura pessoal do dono, como avalista ou fiador. Para pequenas empresas, essa garantia pessoal muitas vezes é a única aceita, e até o Pronampe, criado na pandemia, a exigia.
fatoCom o aval, o banco pode cobrar diretamente o patrimônio do sócio, como contas, imóveis e veículos. E mesmo quando a empresa entra em recuperação judicial, o banco pode executar os bens pessoais de quem assinou a garantia enquanto o plano é negociado.
hipóteseAssim, a separação entre a empresa e o dono, que é a base do capitalismo moderno, vale pouco para o pequeno e médio empresário brasileiro quando o credor é um banco. O risco do negócio volta para a pessoa física.
fatoOs bancos lucraram em todos os governos, de todos os lados. Um levantamento da Economatica com nove bancos encontrou R$ 30,7 bilhões de lucro real no período FHC e R$ 199,4 bilhões no período Lula. O lucro do Itaú equivale, no Lula 3, a 0,335% do PIB em média, quase três vezes a média da era FHC. Bradesco e Santander tiveram seus melhores anos sob Bolsonaro. Em 2025, o sistema bancário lucrou R$ 255 bilhões, recorde, com a Selic a 15%.
Lucro do Itaú, o maior banco privado, de FHC a Lula 3:
Lucro líquido, R$ bilhões (eixo da esquerda)Lucro em % do PIB (eixo da direita)
Única série anual completa desde 1995 encontrada em fonte aberta. As barras estão em valores nominais, sem descontar a inflação; a linha, que divide o lucro pelo PIB do mesmo ano, é a melhor comparação entre épocas. Parte do salto de 2009 em diante reflete a fusão com o Unibanco, anunciada em 2008. Para os quatro maiores bancos (Itaú, Bradesco, BB e Santander), há totais só a partir de 2019: R$ 81,5 bi em 2019, R$ 61,6 bi em 2020, R$ 81,6 bi em 2021 e R$ 107,8 bi em 2025.
fatoO lucro do Itaú foi de 0,06% do PIB em 1995 para 0,16% em 2002, quase dobrou nos anos Lula (0,34% em 2010), teve o pico em 2015 (0,39%), caiu em 2020, na pandemia, e voltou a 0,35% em 2024 e 2025. Em média: 0,12% do PIB com FHC, 0,30% nos mandatos do PT até 2018, 0,29% com Bolsonaro e 0,34% no Lula 3. O próprio autor do levantamento ressalva que correlação não prova que um governo tenha causado esse lucro.
hipóteseSe os bancos ganham com qualquer presidente e mais ainda com juros altos, a pergunta "quem quebrou o Brasil" precisa incluir quem lucra com o custo da dívida. Os blocos seguintes mostram por quê.
Revista Oeste, com dados da Economatica; Metrópoles/Economatica; 2025: Banco Central, via Jornal Brasil Online; série do Itaú 1995-2025: levantamento de André Burger com balanços do banco e PIB do IBGE, na Revista Oeste; quatro bancos: Economatica via ICL (2019-2021) e Brasil 247 (2025); cinco bancos: Dieese, 2022 e 2024. A série anual completa desde 2003 depende de base paga (Economatica).
6. Quem escreve as regras
A reforma trabalhista nos computadores dos lobistas
292 de 850emendas à reforma trabalhista (34%) foram redigidas em computadores de entidades patronais
153dessas emendas (52%) entraram, total ou parcialmente, no texto aprovado
fatoEm 2017, o Intercept Brasil analisou os metadados dos arquivos das emendas apresentadas por deputados à reforma trabalhista do governo Temer. O autor original registrado nos arquivos eram quatro entidades: a confederação dos transportes (CNT), a das instituições financeiras (CNF, entidade dos bancos), a da indústria (CNI) e a do transporte de cargas. Deputados que apresentaram emendas da CNF haviam recebido doações de campanha de Itaú, Bradesco, Santander e Safra. O texto original do governo alterava 7 artigos da CLT; o substitutivo do relator, já com as emendas, mexia em 104.
fatoSobre o teto de gastos, não encontramos evidência de que o texto tenha sido escrito dentro de bancos. O que se documenta é o desenho: o teto limitou as despesas primárias, como saúde, educação e previdência, por 20 anos, e deixou de fora os gastos com juros da dívida, que não têm limite.
fatoRoberto Campos Neto era diretor do Santander Brasil quando Bolsonaro o escolheu para presidir o Banco Central. Sérgio Werlang fez o percurso FGV, Banco Central, Itaú. A política de juros é decidida por profissionais que, com frequência, vêm do mercado financeiro e voltam a ele, o mesmo mercado que ganha com juros altos.
fatoOs maiores grupos de comunicação ainda pertencem a famílias: O Globo e o Valor Econômico, por exemplo, são do Grupo Globo, da família Marinho. Mas, desde a década passada, banqueiros e donos de instituições financeiras passaram a controlar diretamente veículos relevantes, sobretudo de economia e notícias.
Veículo
Dono
Ligação com o sistema financeiro
Exame
BTG Pactual (André Esteves)
Banco. Comprou a revista em leilão em 2019, por R$ 72,3 milhões, como único interessado
Veja e demais títulos da Abril
Fábio Carvalho
Comprou o grupo em recuperação judicial em 2018 com apoio do BTG, que ajudou a renegociar a dívida de R$ 1,1 bilhão com credores como o Itaú
InfoMoney
XP Inc. (Guilherme Benchimol)
Corretora e plataforma de investimentos
CNN Brasil e Rádio Itatiaia
Rubens Menin
Controlador do Banco Inter, além da MRV; tem 100% da CNN Brasil desde 2021 e comprou a Itatiaia no mesmo ano
Record e Record News
Edir Macedo
Dono do Banco Digimais, antigo Banco Renner, comprado em etapas de 2009 a 2020; o banco é investigado pela PF
Máquina do Esporte
Genial Investimentos
Banco de investimentos
fatoNa compra da Exame, o BTG disse querer usar a plataforma da revista, focada em finanças pessoais e investimentos, para se aproximar dos clientes, seguindo o modelo do InfoMoney com a XP. A Rádio Itatiaia é a líder histórica de audiência em Minas Gerais. A Record é a segunda maior rede de TV aberta do país.
fatoA outra via de influência são as fontes. Uma pesquisa da USP analisou 14 anos de noticiário econômico da Folha e do Estadão, de 1989 a 2002, e mostrou a substituição das fontes tradicionais, como empresários, produtores rurais, acadêmicos e sindicalistas, por economistas do mercado financeiro. Um estudo apresentado em 2025 analisou uma semana de cobertura do pacote fiscal de Haddad em O Globo e no Valor e concluiu que as notícias refletiram o ponto de vista do mercado financeiro sem contraponto.
hipóteseSão dois canais que se somam: o mercado financeiro é dono de parte dos veículos que falam de economia e é a fonte principal dos que não são seus. Quando quem lucra com juros altos é dono do veículo ou o especialista ouvido sobre juros, inflação e gasto público, a resposta à pergunta "isso é bom para a economia?" tende a sair do ponto de vista dele.
O que não encontramos nas fontes consultadas: participação de bancos no controle da Globo, da Folha, do Estadão, da Band ou do SBT. Nos casos listados, o controle é de pessoas ou grupos financeiros sobre veículos específicos, não sobre o conjunto da grande imprensa.
A desindustrialização começou em meados dos anos 1980; a troca do lucro produtivo pelo ganho financeiro veio em duas ondas, primeiro com a inflação e depois, a partir de 1994, com os juros. No início de 2026, metade das maiores empresas da bolsa era financeira; os cinco maiores bancos concentravam 83,4% dos ativos em 2017, último dado do Banco Mundial encontrado; o país paga R$ 1 trilhão por ano em juros, o cartão de crédito cobra juros sem paralelo na região, e o pequeno empresário dá o próprio patrimônio como garantia. Os bancos lucram com qualquer governo, influenciam a escrita de leis, controlam parte dos veículos de economia e notícias e fornecem as vozes que definem, no noticiário, o que é bom para a economia.
Cuidados: os bancos não definem sozinhos a Selic, que é decidida pelo Banco Central dentro do regime de metas de inflação; inadimplência, impostos e insegurança jurídica também explicam parte do custo do crédito. A comparação dos juros do cartão é de 2017; os níveis mudaram, mas a distância entre o Brasil e os vizinhos continua grande. A evidência sobre textos escritos por lobistas vale para a reforma trabalhista, não para o teto de gastos.
O Brasil registra dezenas de milhares de homicídios por ano, mas a Constituição entrega a segurança pública, na prática, aos governadores. Este capítulo mostra quanto o governo federal gasta, por que ele nunca assumiu o problema e quais governadores tiveram os melhores e piores resultados.
A tese: a segurança pública virou um problema sem dono nacional. A União tem dinheiro e inteligência, mas pouca responsabilidade; os estados têm as polícias e a conta, mas pouco dinheiro e pouca coordenação. Os resultados dependem mais da gestão de cada governador e da dinâmica do crime organizado do que do partido.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. O que diz a Constituição
As polícias que patrulham as ruas são dos governadores
fatoO artigo 144 da Constituição define a segurança pública como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, e lista os órgãos que a exercem. A Polícia Militar, que patrulha as ruas, e a Polícia Civil, que investiga, são estaduais e subordinadas aos governadores. À União cabem a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Penal Federal, com funções específicas, como crimes interestaduais, fronteiras e rodovias.
R$ 153 bigasto total com segurança pública no país em 2024
84% / 9% / 7%divisão entre estados, União e municípios em 2025
R$ 9 bigasto da União em 2015, menos que o estado de São Paulo sozinho (R$ 11,3 bi)
fatoEm 2017, de R$ 91,2 bilhões gastos com segurança, 82% vieram dos estados, 12% da União e 6% dos municípios. Em 2024, estados e municípios bancaram 86% dos R$ 153 bilhões, segundo o FBSP. Os 9% da União em 2025 vêm de outra fonte, a CNM, com outro método; a diferença entre os dois anos não indica queda. Entre 2016 e 2025, o gasto federal cresceu em média 1,3% ao ano, contra 6,1% dos municípios; se a tendência continuar, as prefeituras vão gastar mais que a União. A maior parte do gasto federal vai para a própria Polícia Federal e a PRF: em 2015, só a PRF ficou com 31% do orçamento federal da área.
estimativaNão encontramos uma série única e comparável do gasto federal desde 1995. Os números acima vêm de edições diferentes do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e mostram a mesma proporção ao longo do tempo: a União nunca passou de algo entre 9% e 14% do total.
Número de homicídios registrados no Brasil, 1994 a 2024:
Governo
Homicídios no período
Variação
Principal ação federal
FHC (1995-2002)
32,6 mil → 49,7 mil mortes
+52%
Plano Nacional de Segurança Pública (2000) e Fundo Nacional de Segurança Pública (2001)
Lula (2003-2010)
49,7 mil → 52,3 mil mortes
+5%
Estatuto do Desarmamento (2003) e Pronasci (2007), com R$ 6,7 bilhões
Dilma (2011-2014)
52,3 mil → 60,5 mil mortes
+16%
Encerrou o Pronasci; atuação federal considerada tímida por especialistas
Dilma e Temer (2015-2018)
60,5 mil → 58 mil mortes (pico de 65,6 mil em 2017)
−4%
Susp (Lei 13.675, 2018), Ministério da Segurança Pública e intervenção federal no Rio (2018)
Bolsonaro (2019-2022)
taxa de 27,9 → 21,7 por 100 mil
−22%
Plano Nacional 2021-2030
Lula 3 (2023-2026)*
taxa de 21,7 → 20,1 por 100 mil (até 2024)
−7%
PEC da Segurança Pública, aprovada na Câmara e em análise no Senado
* Lula 3: mandato em curso, dados até 2024. estimativaO dado de 2026 deve sair no Atlas da Violência de 2028, pelo calendário habitual.
fatoO número de mortes cresceu 48% entre 1994 e 2004, muito acima do crescimento da população, de 16,5%. O pico foi em 2017, com 65,6 mil mortes e taxa de 31,8 por 100 mil. Desde então a queda é contínua: em 2024, foram 42,6 mil, taxa de 20,1, a menor da série histórica, segundo o Atlas da Violência. Mas os homicídios ocultos, mortes violentas sem causa definida, quase dobraram entre 2023 e 2024.
hipóteseA tabela não é um placar de presidentes. Como as polícias são estaduais, a curva nacional é a soma de 27 histórias diferentes. Especialistas ouvidos pela CartaCapital em 2019 afirmaram que o governo federal não teve influência na queda dos homicídios iniciada em 2018. A única medida federal com efeito medido nos estudos consultados é o desarmamento: no município de São Paulo, a política de desarmamento estadual, somada ao Estatuto de 2003 e à campanha de entrega de armas, explica cerca de 21% da queda de homicídios a partir de 2001.
A Constituição.fatoSem comando sobre as polícias estaduais, a União só consegue induzir: repassa dinheiro, cria fundos e define diretrizes, mas quem executa são os governadores.
Planos que não sobrevivem ao governo seguinte.fatoDesde FHC, o Brasil teve nove planos nacionais de segurança, e o balanço do Poder360 é que todos fracassaram. O Pronasci de Lula, com R$ 6,7 bilhões e meta de reduzir a taxa de 29 para 12 por 100 mil em quatro anos, foi encerrado por Dilma.
Resistência dos governadores.fatoA PEC da Segurança Pública, enviada por Lula em 2025, previa coordenação centralizada pela União. Diante da resistência de governadores e da oposição, o relator na Câmara manteve o compartilhamento de responsabilidades. Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Ronaldo Caiado se posicionaram contra mudanças que reduzam a autonomia dos estados; os governadores do Nordeste apoiaram a proposta. O texto foi aprovado na Câmara em março de 2026 e teve o texto-base aprovado na CCJ do Senado em 2 de setembro; a votação em plenário ficou para depois do primeiro turno. Até 9 de outubro, não localizamos votação no plenário do Senado.
O custo político.hipóteseAssumir a segurança significa assumir a culpa pela violência. Para presidentes de todos os partidos, foi mais confortável financiar pouco, lançar planos e deixar o desgaste com os governadores. Para governadores, perder o comando das polícias significa perder poder. O resultado é que ninguém responde pelo conjunto.
Só homicídios, só os dois mandatos com série estadual completa disponível (1999-2002 e 2003-2006). A nota, de 0 a 10, é a média de duas posições relativas entre os 27 estados: a variação da taxa no mandato, descontada a variação nacional, e o nível médio da taxa no mandato em relação à média nacional. Os cinco melhores em verde, os cinco piores em vermelho.
Mandatos de 1999 a 2002 (taxa nacional: +10% no período)
#
Estado
Governador
Partido
Espectro
Taxa 1998 → 2002por 100 mil
Variação
Nota
1º
Amazonas
Amazonino Mendes
PFL
Direita
21,3 → 17,3
−19%
7,7
2º
Rio Grande do Norte
Garibaldi Alves Filho
PMDB
Centro
8,5 → 10,6
+25%
6,7
3º
Santa Catarina
Esperidião Amin
PPB
Direita
7,9 → 10,3
+30%
6,3
4º
Tocantins
Siqueira Campos
PFL
Direita
12,3 → 14,9
+21%
6,2
5º
Rio Grande do Sul
Olívio Dutra
PT
Esquerda
15,3 → 18,3
+20%
6,2
6º
Amapá
João Capiberibe
PSB
Centro-esquerda
38,7 → 35,0
−10%
5,8
7º
Roraima
Neudo Campos
PPB
Direita
50,6 → 34,9
−31%
5,8
8º
Bahia
César Borges
PFL
Direita
9,7 → 13,0
+34%
5,8
9º
Paraíba
José Maranhão
PMDB
Centro
13,5 → 17,4
+29%
5,8
10º
Distrito Federal
Joaquim Roriz
PMDB
Centro
37,4 → 34,7
−7%
5,8
11º
Maranhão
Roseana Sarney
PFL
Direita
5,0 → 9,9
+98%
5,4
12º
Mato Grosso do Sul
Zeca do PT
PT
Esquerda
33,5 → 32,4
−3%
5,4
13º
Acre
Jorge Viana
PT
Esquerda
21,2 → 25,7
+21%
5,2
14º
Pará
Almir Gabriel
PSDB
Centro-direita
13,3 → 18,4
+38%
5,2
15º
Piauí
Mão Santa (PMDB) e Hugo Napoleão (PFL)
PMDB / PFL
Centro / Direita
5,2 → 10,9
+110%
5,0
16º
Espírito Santo
José Ignácio Ferreira
PSDB
Centro-direita
58,4 → 51,2
−12%
5,0
17º
Minas Gerais
Itamar Franco
PMDB
Centro
8,6 → 16,2
+88%
4,6
18º
São Paulo
Mário Covas e Geraldo Alckmin
PSDB
Centro-direita
39,7 → 38,0
−4%
4,4
19º
Paraná
Jaime Lerner
PFL
Direita
17,6 → 22,7
+29%
4,4
20º
Mato Grosso
Dante de Oliveira
PSDB
Centro-direita
36,3 → 37,0
+2%
4,4
21º
Rondônia
José Bianco
PFL
Direita
38,3 → 42,3
+10%
4,2
22º
Ceará
Tasso Jereissati
PSDB
Centro-direita
13,4 → 18,9
+41%
4,2
23º
Pernambuco
Jarbas Vasconcelos
PMDB
Centro
58,9 → 54,8
−7%
4,0
24º
Rio de Janeiro
Anthony Garotinho e Benedita da Silva (PT)
PDT / PSB / PT
Centro-esquerda / Esquerda
55,3 → 56,5
+2%
3,5
25º
Goiás
Marconi Perillo
PSDB
Centro-direita
13,4 → 24,5
+83%
3,1
26º
Alagoas
Ronaldo Lessa
PSB
Centro-esquerda
21,8 → 34,3
+57%
2,9
27º
Sergipe
Albano Franco
PSDB
Centro-direita
10,4 → 29,7
+186%
2,1
Mandatos de 2003 a 2006 (taxa nacional: −8% no período)
#
Estado
Governador
Partido
Espectro
Taxa 2002 → 2006por 100 mil
Variação
Nota
1º
Acre
Jorge Viana
PT
Esquerda
25,7 → 22,6
−12%
7,5
2º
Santa Catarina
Luiz Henrique da Silveira
PMDB
Centro
10,3 → 11,0
+7%
7,3
3º
Roraima
Flamarion Portela e Ottomar Pinto (PTB)
PSL / PT / PTB
Direita / Esquerda
34,9 → 27,3
−22%
7,1
4º
Rio Grande do Sul
Germano Rigotto
PMDB
Centro
18,3 → 17,9
−2%
7,1
5º
São Paulo
Geraldo Alckmin e Cláudio Lembo (PFL)
PSDB / PFL
Centro-direita / Direita
38,0 → 19,9
−48%
6,9
6º
Tocantins
Marcelo Miranda
PFL
Direita
14,9 → 17,7
+19%
6,2
7º
Mato Grosso
Blairo Maggi
PPS
Centro-esquerda
37,0 → 31,5
−15%
5,8
8º
Piauí
Wellington Dias
PT
Esquerda
10,9 → 14,4
+32%
5,8
9º
Amazonas
Eduardo Braga
PPS
Centro-esquerda
17,3 → 21,1
+22%
5,6
10º
Mato Grosso do Sul
Zeca do PT
PT
Esquerda
32,4 → 29,5
−9%
5,4
11º
Rio Grande do Norte
Wilma de Faria
PSB
Centro-esquerda
10,6 → 14,8
+40%
5,4
12º
Ceará
Lúcio Alcântara
PSDB
Centro-direita
18,9 → 21,8
+15%
5,2
13º
Goiás
Marconi Perillo e Alcides Rodrigues (PP)
PSDB / PP
Centro-direita / Direita
24,5 → 24,6
+0%
5,2
14º
Maranhão
José Reinaldo
PFL / PSB
Direita / Centro-esquerda
9,9 → 15,0
+52%
5,0
15º
Paraíba
Cássio Cunha Lima
PSDB
Centro-direita
17,4 → 22,6
+30%
5,0
16º
Rio de Janeiro
Rosinha Garotinho
PSB / PMDB
Centro-esquerda / Centro
56,5 → 45,8
−19%
5,0
17º
Sergipe
João Alves Filho
PFL
Direita
29,7 → 29,8
+0%
4,8
18º
Rondônia
Ivo Cassol
PSDB / PPS
Centro-direita / Centro-esquerda
42,3 → 37,7
−11%
4,8
19º
Amapá
Waldez Góes
PDT
Centro-esquerda
35,0 → 33,0
−6%
4,6
20º
Distrito Federal
Joaquim Roriz
PMDB
Centro
34,7 → 32,3
−7%
4,6
21º
Minas Gerais
Aécio Neves
PSDB
Centro-direita
16,2 → 21,3
+31%
4,0
22º
Bahia
Paulo Souto
PFL
Direita
13,0 → 23,5
+81%
3,7
23º
Pernambuco
Jarbas Vasconcelos e Mendonça Filho (PFL)
PMDB / PFL
Centro / Direita
54,8 → 52,7
−4%
3,3
24º
Espírito Santo
Paulo Hartung
PSB / PMDB
Centro-esquerda / Centro
51,2 → 51,2
0%
3,1
25º
Paraná
Roberto Requião
PMDB
Centro
22,7 → 29,8
+31%
3,1
26º
Pará
Simão Jatene
PSDB
Centro-direita
18,4 → 29,2
+59%
2,7
27º
Alagoas
Ronaldo Lessa
PSB
Centro-esquerda
34,3 → 53,0
+55%
1,0
estimativaO que a versão reduzida mostra: os primeiros lugares ficam com estados de violência baixa, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, governados por PPB, PT e PMDB; os últimos, com Alagoas, onde a taxa passou de 21,8 para 53,0 em oito anos sob Ronaldo Lessa (PSB), e com estados que já partiam de níveis muito altos, como Pernambuco e Espírito Santo. São Paulo, de Covas e Alckmin (PSDB), sai do 18º lugar no primeiro mandato para o 5º no segundo, quando a queda de 48% na taxa ganha força. Nenhum partido ou espectro concentra os melhores ou os piores lugares.
hipóteseOs dados de alguns estados nesse período são frágeis. Na Bahia, a taxa cai de 15,5 em 1997 para 6,8 em 1999 e volta a subir depois, um padrão mais compatível com problema de registro das causas de morte do que com mudança real; em estados pequenos, como Acre e Roraima, poucas dezenas de mortes movem muito a taxa. Esses casos devem ser lidos com cautela.
Limites desta versão: usa um único indicador, deixa de fora os mandatos de 1995-1998 e de 2007 em diante e não inclui roubos, letalidade policial nem mortes sem causa definida. A lista de governadores e partidos foi compilada por nós e ainda não foi conferida com os registros do TSE; nos mandatos com troca de governador, a nota vale para o período inteiro. A versão completa substituirá esta quando as séries de 2008 a 2024 e os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública forem incorporados.
Taxas por estado: SIM/Ministério da Saúde, via Mapa da Violência 2010, tabela 3.1.2 (local de ocorrência). Notas: cálculo nosso.
fatoSão Paulo foi o primeiro estado a iniciar uma queda sustentada, a partir de 1999, e continuou caindo: de 13,9 para 6,4 por 100 mil entre 2013 e 2023, hoje a menor taxa do país. Os governos do PSDB criaram sistemas de georreferenciamento dos crimes, como o Infocrim, em 1999 e 2000. Pernambuco, com o Pacto pela Vida de Eduardo Campos, reduziu os crimes violentos letais em 39% entre 2007 e 2013, com metas de queda de 12% ao ano e monitoramento permanente dos resultados; a taxa caiu de 53,1 por 100 mil em 2007 para 34,3 em 2012; avaliações com controle sintético confirmam o efeito. Depois que Campos saiu para disputar a Presidência, em 2014, o programa foi desmontado e os homicídios subiram 75% em cinco anos, no mesmo partido. Na Bahia, governada pelo PT desde 2007, a taxa passou de 23,6 em 2006, abaixo da média nacional, para 45,1 em 2022, a maior do país naquele ano; caiu para 40,6 em 2024.
estimativaRanqueamos apenas casos com dados verificados. Não existe, nas fontes consultadas, um ranking completo de todos os governadores desde 1995 com o mesmo indicador; montar esse ranking exigiria a série estadual completa do Ministério da Saúde, estado por estado.
hipóteseO partido não explica o resultado. Entre os cinco melhores das duas tabelas há governos de PT, PMDB, PFL, PPB e PSDB; entre os cinco piores, de PSDB, PSB, PMDB, PFL, PDT e PT. Um estudo da UFMG com a RAND sobre 1999 a 2010 não encontrou relação entre a ideologia do partido no governo e o gasto estadual com segurança. O que os bons casos têm em comum é método: metas, dados georreferenciados, cobrança de resultados e continuidade. Há também fatores fora do controle do governador: pesquisadores associam parte da queda em São Paulo ao domínio hegemônico do PCC sobre o crime, que reduziu as guerras entre facções, e ao envelhecimento da população; e, segundo o Ipea, no Norte disputas locais ligadas ao narcotráfico bastam para elevar fortemente os indicadores, como no Amapá e no Amazonas. Uma leitura publicada pela Gazeta do Povo atribui a governos de direita a liderança das quedas recentes; a tabela, que cobre só 1999 a 2006, não permite testar essa leitura.
A segurança pública é o único grande problema nacional que a Constituição entrega quase inteiro aos estados. A União paga entre 9% e 14% da conta, lançou nove planos em trinta anos e nunca assumiu o comando. Os homicídios cresceram 52% no período FHC, subiram mais devagar até o pico de 2017 e caem desde 2018. Os melhores resultados estaduais vieram de governadores de partidos diferentes que trataram a segurança com metas, dados e continuidade; os piores, de governos de partidos diferentes que perderam o controle ou abandonaram o que funcionava.
Cuidados: homicídio é o indicador mais confiável, mas não é o único; roubos, letalidade policial e mortes ocultas mudam a leitura de vários estados. Parte da queda recente pode refletir subnotificação, já que os homicídios ocultos quase dobraram entre 2023 e 2024. O espectro político atribuído aos partidos é uma simplificação, e alianças estaduais muitas vezes não seguem a posição nacional do partido.
Em vinte e cinco anos, o Brasil aumentou o investimento em educação, colocou quase todas as crianças na escola e multiplicou as vagas no ensino superior. A aprendizagem aos 15 anos, medida pelo Pisa, porém, parou de subir em 2009, e a expansão do ensino superior privado virou um negócio financiado com dinheiro público.
A tese: o ensino fundamental melhorou em todos os governos desde 2003, mais rápido quando o investimento cresceu. O fracasso comum é o ensino médio, parado por quinze anos. No placar de oito indicadores, FHC fica em primeiro, com nota feita só de acesso e insumos, num período sem medida de aprendizagem; entre os governos medidos nos oito indicadores, Lula 1 e 2 lidera. No ensino superior, o crédito público e a desregulamentação criaram um mercado de massa, concentrado e lucrativo, com qualidade inferior.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. O placar da educação, governo a governo
O fundamental melhorou em todos os governos; o médio, quase nunca
Governo
Investimento% do PIB, início → fim
Analfabetismo15 anos ou mais
Idebanos iniciais · anos finais
Ensino superiormatrículas
Professorescom curso superior
Veredito
FHC (1995-2002)
3,9% → 4,1% (2000 a 2002)
15,6% (1995) → 11,8%
sem Ideb (criado em 2005)
1,66 mi (1994) → 3,52 mi
47,0% (2000) → 50,2%
Criou o Fundef e dobrou as matrículas no ensino superior, cerca de 70% delas privadas; investimento estável; aprendizagem sem medida comparável.
Lula (2003-2010)
4,1% → 5,1%
11,8% → 9,7% (2009)
3,8 → 4,6 · 3,5 → 4,0
3,52 mi → 6,38 mi
50,2% → 71,8%
O maior salto de aprendizagem no fundamental e o segundo maior de investimento; Fundeb, Prouni e expansão das federais.
Dilma (2011-2014)
5,1% → 5,6% (2013)
9,7% (2009) → 8,3%
4,6 → 5,2 · 4,0 → 4,2
6,38 mi → cerca de 7,84 mi
71,8% → 78,4%
Investimento no pico e explosão do Fies; ensino médio estagnado.
Dilma e Temer (2015-2018)
5,0% (2014) → 5,0%
7,2% (2016) → 6,8%
5,2 → 5,8 · 4,2 → 4,7
cerca de 7,84 mi → 8,45 mi
78,4% → 81,7%
Fundamental continua melhorando apesar da recessão; teto de gastos e liberação do ensino a distância.
Bolsonaro (2019-2022)
5,0% → 4,1% (2021) → 4,8%
6,1% (2019) → 5,6%
5,8 → 5,8 · 4,7 → 5,1
8,45 mi → 9,44 mi
85,2% (2019) → 86,7%
Menor investimento da série do Tesouro e anos iniciais parados na pandemia; Novo Fundeb aprovado pelo Congresso.
Lula 3 (2023-2026)*
4,8% → 4,9% (2023)
5,6% → 4,9% (2025)
5,8 → 6,3 · 5,1 → 5,3
9,44 mi → 10,23 mi (2024)
86,7% → 87,7% (2025)
Recuperação pós-pandemia e recordes no Ideb em 2025, inclusive no ensino médio (4,5).
Placar consolidado
Mesmo método do placar da economia, agora com oito indicadores. Cada coluna mede o que mudou durante o governo, ano a ano, comparando o último dado antes da posse com o último dado do mandato. A cor mostra a posição do governo naquele indicador: verde mais forte é melhor, vermelho mais forte é pior. A nota é a média das posições, de 0 a 10. Role a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Governo
Investimentopontos do PIB ao ano
Ideb anos iniciaispontos ao ano
Ideb anos finaispontos ao ano
Ideb ensino médiopontos ao ano
Analfabetismovariação % ao ano
Matrículas no ensino superiorcrescimento % ao ano
Jovens de 15 a 17 anos na escolapontos % ao ano
Professores com curso superiorpontos % ao ano
Nota0 a 10
FHC (1995-2002)
+0,10
sem dado
sem dado
sem dado
-3,5%
+14,0%
+2,00
+1,60
7,81º
Lula (2003-2010)
+0,13
+0,200
+0,125
+0,050
-2,5%
+10,1%
+0,53
+2,70
7,02º
Dilma (2011-2014)
+0,17
+0,150
+0,050
+0,025
-2,9%
+5,7%
-0,18
+1,65
4,83º
Dilma e Temer (2015-2018)
0,00
+0,150
+0,125
+0,025
-2,8%
+2,0%
+0,45
+0,83
3,85º
Bolsonaro (2019-2022)
-0,05
0,000
+0,100
+0,100
-2,7%
+2,9%
+1,08
+0,50
3,66º
Lula 3 (2023-2026)*
+0,10
+0,125
+0,050
+0,075
-4,2%
+4,1%
+0,33
+0,33
4,04º
estimativaCálculo nosso, com peso igual para os oito indicadores: FHC 7,8, Lula 7,0, Dilma 4,8, Lula 3 4,0, Dilma e Temer 3,8, Bolsonaro 3,6. Em cada indicador, o melhor governo recebe 10, o pior recebe 0 e os demais ficam no meio, conforme a posição; empates dividem a nota; quem não tem dado comparável não entra naquela coluna. FHC tem nota em cinco indicadores, porque o Ideb só começa em 2005. Os pontos de partida e de chegada de cada coluna estão nos itens abaixo.
Investimento.fatoEm % do PIB: 3,9% em 2000 e 4,1% em 2002; 5,1% em 2010; 5,6% em 2013, último ano da série do Inep; 5,0% em 2014 e em 2018 e 4,8% em 2022 na série do Tesouro; 4,9% em 2023. estimativaFHC é medido de 2000 a 2002, os anos com dado no mandato; Lula, de 2002 a 2010. Cada coluna divide a variação pelo número de anos entre os dois dados.
Ideb.fatoEnsino médio: 3,4 em 2005, 3,6 em 2009, 3,7 em 2013, 3,8 em 2017, 4,2 em 2021 e 4,5 em 2025. Anos iniciais e finais seguem o gráfico abaixo. Cada governo é medido da última edição antes da posse até a última do mandato; para Lula, de 2005 a 2009.
Analfabetismo.fatoPessoas de 15 anos ou mais: 15,6% em 1995, 11,8% em 2002, 9,7% em 2009, 8,3% em 2014 (Pnad); 7,2% em 2016 e 6,8% em 2018 (Pnad Contínua, pesos antigos); 6,1% em 2019, 5,6% em 2022 e 4,9% em 2025 (Pnad Contínua reponderada pelo Censo 2022). As diferenças entre governos são pequenas, de -2,5% a -4,2% ao ano, e a régua por posição as amplia.
Ensino superior.fatoMatrículas de graduação: 1,66 milhão em 1994, 3,52 milhões em 2002, 6,38 milhões em 2010, 8,45 milhões em 2018, 9,44 milhões em 2022 e 10,23 milhões em 2024. estimativa2014, cerca de 7,84 milhões, calculado a partir da alta de 30,5% entre 2014 e 2024 informada pelo Inep. A coluna conta alunos, não qualidade: desde 2024, mais da metade das matrículas é a distância.
Jovens de 15 a 17 anos na escola.fato69,5% em 1996, 81,5% em 2002, 85,2% em 2009, 84,3% em 2014 (Pnad); 87,0% em 2016, 87,9% em 2018, 92,2% em 2022 e 93,2% em 2025 (Pnad Contínua). estimativaA Pnad Contínua mede um nível cerca de dois pontos acima da Pnad antiga, por isso o período 2015-2018 é medido só de 2016 a 2018.
Professores.fatoPercentual com curso superior: 47,0% das funções docentes em 2000, 50,2% em 2002, 71,8% em 2010, 78,4% em 2014 e 81,7% em 2018 (Censo Escolar, soma das etapas); 85,2% dos docentes em 2019, 86,7% em 2022 e 87,7% em 2025. estimativaO Inep informa que uma atualização de cadastro elevou o percentual a partir de 2019, por isso Bolsonaro é medido de 2019 a 2022. A contagem também muda em 2005 e 2007, dentro do governo Lula, e não encontramos nota oficial que permita descontar esse efeito.
Ponto de partida.hipóteseIndicadores de acesso favorecem quem começa de base baixa: é mais fácil passar de 70% para 80% dos jovens na escola do que de 92% para 95%. Isso ajuda FHC e prejudica os governos recentes. Nos cinco indicadores que os seis governos têm em comum, a ordem é FHC 7,8, Lula 6,4, Dilma 6,0, Lula 3 4,2, Dilma e Temer 2,8 e Bolsonaro 2,8.
Pandemia.hipóteseEm 2020 e 2021 as redes aprovaram quase todos os alunos, o que eleva a parte de aprovação do Ideb de 2021. É provável que o melhor resultado de Bolsonaro no ensino médio e o bom resultado nos anos finais estejam inflados por isso.
Lula 3 ainda não terminou. Investimento tem só 2023, ensino superior vai até 2024 e os demais até 2025. O resultado é provisório.
* Quando recalcular.estimativaRevisão no fim de 2026, com o Censo da Educação Superior de 2025; versão final no fim de 2027, com a Pnad e o Censo Escolar de 2026. O investimento de 2024 a 2026 pode demorar mais. Datas pelo calendário habitual das fontes.
hipóteseEntre os governos medidos nos oito indicadores, Lula 1 e 2 fica à frente com folga: lidera em anos iniciais e professores e fica entre os melhores em investimento, anos finais e ensino superior. FHC tem a maior nota, mas só em acesso e insumos, numa fase em que expandir era mais fácil; a qualidade do ensino no período não tem medida comparável. Dilma e Temer e Bolsonaro ficam no fim: o primeiro parou o ensino médio e o crescimento das matrículas, o segundo cortou investimento e parou os anos iniciais. O Lula 3 aparece em quarto, com bons números em analfabetismo e ensino médio e fracos em anos iniciais, anos finais e professores, numa base já alta.
Ideb, o índice oficial que combina nota e aprovação, de 0 a 10:
Anos iniciais (1º ao 5º ano)Anos finais (6º ao 9º ano)Ensino médio (edições citadas no texto: 2005, 2009, 2013, 2017, 2021, 2023 e 2025)
fatoOs anos iniciais do fundamental subiram de 3,8 em 2005 para 6,3 em 2025, o maior avanço da série, com melhora em todos os governos exceto durante a pandemia. Os anos finais foram de 3,5 para 5,3. O ensino médio é o ponto fraco: passou de 3,4 em 2005 para 4,3 em 2023 e 4,5 em 2025, e não bate a meta desde 2013. O analfabetismo de quem tem 15 anos ou mais caiu de 13,6% em 2000 para 4,9% em 2025.
hipóteseA conclusão é diferente de "todos fracassaram". Todos os governos desde 2003 melhoraram o ensino fundamental, e o ritmo foi maior quando o investimento cresceu, entre 2005 e 2013. O fracasso comum é o ensino médio, que ficou praticamente parado por quinze anos, e é ele que aparece no Pisa, aplicado a alunos de 15 anos. A formação dos professores também avançou, de 47% com curso superior em 2000 para 72% em 2010, mas ainda em 2023 só 59% dos professores dos anos finais da rede pública tinham formação na disciplina que ensinam.
Limites: a série de jovens de 15 a 17 anos troca a Pnad pela Pnad Contínua em 2016; professores mudam de contagem em 2019, por atualização de cadastro, e o indicador de formação adequada à disciplina (2023) fica fora do placar; o analfabetismo usa a Pnad até 2014, a Pnad Contínua com pesos antigos em 2016 e 2018 e a Pnad Contínua reponderada pelo Censo de 2019 em diante; as matrículas de 2014 são estimadas a partir da variação informada pelo Inep.
De 3,9% para 5,6% do PIB até 2013, e depois em queda
Investimento público em educação, todos os níveis, em % do PIB:
Inep, investimento direto (2000 a 2013)Tesouro, despesa do governo geral (2014 a 2023)
Como o dinheiro se divide entre os níveis, nos anos com dado disponível:
Educação básicaEnsino superior
fatoNa série do Inep, o investimento público direto oscilou entre 3,9% e 4,1% do PIB de 2000 a 2005 e subiu todos os anos de 2006 a 2013, até 5,6%. Quase todo o aumento foi na educação básica, que passou de 3,2% do PIB em 2005 para 4,3% em 2009 e 2010; o ensino superior ficou em torno de 0,7% durante toda a década. Na série do Tesouro, que começa em 2013, o total caiu de 5,1% em 2016 para 4,1% em 2021, o ponto mais baixo, e voltou a 4,9% em 2023, quando somou R$ 540 bilhões. A educação básica ficou em torno de 3,6% do PIB nos anos com dado por nível (2013 a 2015 e 2023), e o ensino superior caiu de 0,86% em 2015 para 0,72% em 2023.
estimativaAs duas séries não são comparáveis entre si: a do Inep mede o investimento direto nas redes públicas; a do Tesouro segue a classificação internacional Cofog e deixa parte do gasto na categoria "outros", por isso a educação básica aparece mais baixa. A passagem de uma linha para a outra não é um corte real. Entre 2016 e 2022 não há dado por nível de ensino nas fontes acessadas; a série completa do Inep, por nível, até 2021, existe, mas o arquivo não pôde ser acessado automaticamente.
FHC: Fundef (1996).fatoCriou fundos estaduais que redistribuem recursos para o ensino fundamental, com complementação da União onde o gasto por aluno ficava abaixo do mínimo.
Lula: Fundeb (2007).fatoAmpliou o fundo para toda a educação básica, com complementação mínima da União de 10%.
Congresso, no governo Bolsonaro: Novo Fundeb (2020).fatoTornou o fundo permanente e elevou a complementação da União de 10% para 23%, de forma escalonada até 2026. O texto foi aprovado por unanimidade no Senado depois que o governo desistiu de destinar metade da complementação ao Renda Brasil.
fatoNo Pisa, a prova internacional da OCDE para alunos de 15 anos, o Brasil subiu de 396 para 412 pontos em leitura entre 2000 e 2009, e de 356 para 386 em matemática entre 2003 e 2009. Desde então, está praticamente parado: em 2025, foram 408 em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. A distância para a média da OCDE caiu de 102 para 58 pontos em leitura entre 2006 e 2025, e o Brasil aparece entre os dez países que mais avançaram no período.
hipóteseA boa notícia é menos boa do que parece: a distância diminuiu sobretudo porque os países ricos caíram, de 495 para 466 em leitura, e não porque o Brasil subiu. Os governos acertaram em colocar todos na escola, já que a expansão da matrícula até 2012 aconteceu sem queda da nota, o que é um feito. Mas o dinheiro adicional dos últimos quinze anos não se converteu em aprendizagem. O próprio desenho do Fundeb ajuda a explicar: pelo menos 70% vai para salários, sem vínculo com resultado, e só 2,5 pontos da complementação federal premiam redes que melhoram.
Pisa: OCDE, elaboração Inep, via Poder360; expansão da matrícula: OCDE via Uesb; complementação por resultado e destino a salários: Agência Senado.
4. O ensino superior virou negócio
O Fies: de 76 mil para 733 mil contratos, e o tombo
Novos contratos do Fies por ano, em milhares:
fatoO Fies existe desde 1999, no governo FHC. Reformulado em 2010, no último ano de Lula, com condições muito mais fáceis, explodiu no governo Dilma: chegou a 733 mil novos contratos em 2014, quando financiava 32% do mercado de graduação privada e custou R$ 13,7 bilhões. Em 2015, com a crise fiscal, os contratos caíram 61%; em 2021, foram 47 mil. A inadimplência chegou a 50,1%, e o custo fiscal do fundo foi de R$ 32 bilhões em 2016.
fatoOs grupos de capital aberto foram os maiores beneficiários. De 2010 a 2016, a Kroton recebeu R$ 4,06 bilhões do Fies, a Ser Educacional R$ 1,52 bilhão e a Ânima R$ 1,36 bilhão. Na Kroton, 61% dos alunos chegaram a ter Fies; a empresa operava com margem líquida ajustada de 40% em 2017. Quando o programa encolheu, as ações do setor despencaram.
Depois do Fies, a educação a distância
66%dos calouros entraram em cursos a distância em 2023; 95,9% das matrículas EAD são privadas
81%dos novos alunos de licenciatura, os futuros professores, estudam a distância
26,6% vs 38%cursos com nota 4 ou 5 no Enade 2022: EAD contra presencial
fatoO mercado não desabou; mudou de modelo. Em 2017, um decreto do governo Temer flexibilizou a abertura de polos a distância, sem exigência de visita de avaliação, e os polos passaram de 6.583 para 15.394. Em 2024, pela primeira vez, as matrículas a distância superaram as presenciais. O preço médio das mensalidades caiu, cinco grupos privados concentravam 27% de todos os alunos do ensino superior em 2022, e a evasão em cursos a distância de instituições com fins lucrativos chegou a 58% em 2019. Em 2024, o MEC suspendeu a criação de cursos e polos a distância e passou a preparar um novo marco regulatório.
hipóteseA crítica de que o MEC "aprovou qualquer um" se aplica sobretudo ao decreto de 2017, e não ao Fies em si. O Fies financiou a expansão; a desregulamentação do ensino a distância permitiu que ela continuasse barata depois que o crédito acabou. Nos dois casos, quem pagou foi o estudante, com dívida ou com um diploma de qualidade menor, e o contribuinte, com a inadimplência. Os grupos consolidadores ficaram com o lucro.
No placar, FHC tem a maior nota (7,8), toda feita de acesso e insumos: dobrou as matrículas no ensino superior, ampliou a escola para jovens de 15 a 17 anos e criou o Fundef, num período sem medida de aprendizagem comparável. Entre os governos medidos nos oito indicadores, Lula 1 e 2 teve o maior avanço, com o maior aumento de Ideb e o segundo maior de investimento; Dilma, Temer e Lula 3 mantiveram a melhora do fundamental; Bolsonaro teve o menor investimento da série recente e anos iniciais parados na pandemia. Em todos eles, o ensino médio avançou pouco até 2019, e é por isso que o Pisa, aplicado aos 15 anos, mostra um país estagnado. No ensino superior, o Fies e a desregulamentação do ensino a distância democratizaram o diploma e, ao mesmo tempo, o desvalorizaram, com os grupos financeiros do setor como principais beneficiários.
Cuidados: o investimento por nível de ensino só tem dado para alguns anos (2005 a 2015 e 2023); o Pisa mede alunos de 15 anos e não capta os anos iniciais, onde o Ideb mostra avanços maiores; o indicador do Enade mede a nota dos cursos, não o resultado no mercado de trabalho.
Desde 1994, a mortalidade infantil caiu de 42 para 12 por mil nascidos vivos e a expectativa de vida subiu quase nove anos. Este capítulo mede o que mudou em cada governo, com sete indicadores e a mesma régua dos placares da economia e da educação.
A tese: a saúde melhorou em quase todos os governos, mais rápido quando o ponto de partida era baixo. FHC construiu a Saúde da Família e levou a vacinação ao teto; Lula e Dilma ampliaram a rede; o país perdeu vacinação a partir de 2016 e expectativa de vida na pandemia; o Lula 3 recupera, a partir de uma base deprimida.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Antes de comparar
O presidente paga menos da metade da conta
fatoO SUS é financiado pela União, pelos estados e pelos municípios. Em 2010, a União respondia por 44,2% do gasto público com ações e serviços de saúde; em 2019, por 42,2%; em 2022, por 37,5%. O gasto federal ficou entre 1,6% e 1,7% do PIB em quase todo o período, exceto em 2020 e 2021, na pandemia.
hipóteseO presidente define as regras do dinheiro federal, os programas nacionais (vacinação, Saúde da Família, Mais Médicos, Farmácia Popular) e a coordenação em crises. É isso que o placar tenta capturar. Mas parte do resultado depende de prefeitos e governadores, da renda das famílias e do saneamento, e nenhum indicador abaixo separa essas causas.
Cada coluna mede o que mudou durante o governo, ano a ano, comparando o último dado antes da posse com o último dado do mandato. A cor mostra a posição do governo naquele indicador: verde mais forte é melhor, vermelho mais forte é pior. A nota é a média das posições, de 0 a 10. Role a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Governo
Mortalidade infantilvariação % ao ano
Mortalidade maternavariação % ao ano
Expectativa de vidaanos ganhos ao ano
Vacinação (DTP3)pontos % ao ano
Equipes de Saúde da Famíliapor 100 mil hab., ganho ao ano
Médicospor mil hab., ganho ao ano
Gasto público em saúdepontos do PIB ao ano
Nota0 a 10
FHC (1995-2002)
-5,0%
sem dado
+0,39
+3,1
+1,14
+0,029
sem dado
7,22º
Lula (2003-2010)
-4,7%
-0,5%
+0,42
0,0
+0,86
+0,040
+0,06
5,23º
Dilma (2011-2014)
-3,1%
-2,9%
+0,26
-1,5
+0,66
+0,069
+0,05
4,94º
Dilma e Temer (2015-2018)
-1,6%
-0,8%
+0,20
-1,5
+0,48
+0,074
+0,13
4,35º
Bolsonaro (2019-2022)
-1,0%
-0,6%
-0,19
-2,5
+0,55
+0,104
0,00
1,86º
Lula 3 (2023-2026)*
-1,2%
-1,1%
+0,58
+3,0
+0,87
+0,130
sem dado
7,61º
* Lula 3, nota provisória.estimativaRevisão em meados de 2027, com a vacinação de 2026; versão final em 2028, com mortalidade infantil, mortalidade materna e expectativa de vida de 2026. Datas pelo calendário habitual das fontes.
estimativaCálculo nosso, com peso igual para os sete indicadores: Lula 3 7,6, FHC 7,2, Lula 5,2, Dilma 4,9, Dilma e Temer 4,3, Bolsonaro 1,8. Em cada indicador, o melhor governo recebe 10, o pior recebe 0 e os demais ficam no meio, conforme a posição; empates dividem a nota; quem não tem dado comparável não entra naquela coluna. FHC tem nota em cinco indicadores e o Lula 3, em seis. Mortalidade infantil e vacinação contam só neste placar, e não no da economia.
Mortalidade infantil.fatoPela série da ONU (IGME), por mil nascidos vivos: 42,4 em 1994, 25,6 em 2002, 16,0 em 2010, 14,0 em 2014, 13,1 em 2018, 12,6 em 2022 e 12,3 em 2024. estimativaPor essa série, FHC fica ligeiramente à frente de Lula (−5,0% contra −4,7% ao ano).
Mortalidade materna.fatoÓbitos por 100 mil nascidos vivos, Ministério da Saúde: 72 em 2002, 69 em 2010, 61 em 2014, 59 em 2018, 57,7 em 2022 e 56,4 em 2024. A série oficial muda de método em 1996, por isso FHC fica sem dado. estimativaA régua por ponta esconde o pior momento: a razão chegou a 117,4 em 2021, pela covid entre gestantes, dentro do governo Bolsonaro.
Expectativa de vida.fatoBanco Mundial: 67,3 anos em 1994, 70,4 em 2002, 73,8 em 2010, 74,8 em 2014, 75,6 em 2018, 74,9 em 2022 e 76,0 em 2024. Bolsonaro é o único governo com perda, efeito da pandemia: 73,0 anos em 2021.
Vacinação.fatoTerceira dose da tríplice bacteriana (DTP3), estimativas da OMS e do Unicef: 74% em 1994, 99% em 2002 e em 2010, 93% em 2014, 87% em 2018, 77% em 2022 e 86% em 2025. estimativaLula aparece com zero porque recebeu e entregou a cobertura no teto, o que a régua de variação não premia.
Equipes de Saúde da Família.fato328 equipes em 1994, 16.698 em dezembro de 2002, 31.660 em 2010, 33.404 em 2012, 40.162 em 2015, 42.975 em 2018 e 50.655 pagas em outubro de 2023. estimativa2014 (cerca de 37,9 mil) é interpolado entre 2012 e 2015, e 2022 (cerca de 48,6 mil) soma a 2018 a média de 1.408 equipes novas por ano que o Ministério informa para 2019 a 2022; a população vem do IBGE, interpolada entre anos de referência. O Lula 3 é medido de 2022 a 2023. O governo informa 61.262 equipes credenciadas em março de 2024, mas credenciar não é o mesmo que ter equipe paga em funcionamento, por isso esse número não entra.
Médicos.fatoMédicos por mil habitantes: 1,18 em 2000, 1,56 em 2010, 2,55 em 2022 e 2,81 em 2024 (estimativa da própria Demografia Médica). estimativa2002, 2014 e 2018 (1,24, 1,84 e 2,13) são cálculo nosso, com o número de médicos do estudo e população interpolada. FHC é medido de 2000 a 2002, primeiro ano da série.
Gasto público.fatoGasto das três esferas com ações e serviços públicos de saúde, em % do PIB: 3,16% em 2003, 3,57% em 2010, 3,75% em 2014, 4,0% em 2016, 2019 e 2022. estimativaA série consolidada começa em 2003, depois da regra de 2000 que obrigou estados e municípios a gastar com saúde; por isso FHC fica sem dado e Lula é medido de 2003 a 2010. Dilma e Temer são medidos até 2016 e Bolsonaro a partir de 2019, anos disponíveis nas fontes. Não encontramos 2023 ou 2024 na mesma série.
Ponto de partida.hipóteseIndicadores que crescem a partir de zero favorecem quem começa: FHC recebeu a Saúde da Família com 328 equipes e a vacinação em 74%. Nos cinco indicadores que os seis governos têm em comum, a ordem quase não muda: Lula 3 7,6, FHC 7,2, Lula 6,0, Dilma 4,2, Dilma e Temer 3,0 e Bolsonaro 2,0.
Médicos não são obra de um mandato.hipóteseO curso de medicina dura seis anos, e o salto recente de médicos reflete escolas abertas na década anterior. Sem essa coluna, FHC sobe para 9,0 e o Lula 3 cai para 7,1; Bolsonaro fica com 0,8.
Lula 3 ainda não terminou.hipóteseEle parte de uma base deprimida pela pandemia, o que facilita ganhar expectativa de vida e vacinação. Equipes de Saúde da Família têm só um ano medido. O resultado é provisório.
De 42 para 12 por mil em trinta anos, mais devagar a cada governo
Mortes antes de completar um ano, por mil nascidos vivos:
fatoA queda foi contínua, com uma exceção: em 2016 a taxa subiu de 13,7 para 14,6, no ano da epidemia de zika e da recessão, e voltou a cair em 2017. A redução anual foi de cerca de 5% nos governos FHC e Lula e de 1% a 2% depois de 2014.
hipóteseA desaceleração é esperada: abaixo de 15 por mil, as mortes que restam são sobretudo de recém-nascidos nas primeiras semanas, que dependem de hospital e UTI neonatal, e não mais de diarreia e desnutrição, que a Saúde da Família, a vacinação e o saneamento reduzem com mais facilidade. Por isso a régua por ritmo favorece os primeiros governos, e o placar deve ser lido junto com o nível: o Brasil de 2024 ainda tem mortalidade infantil várias vezes maior que a de países ricos.
Crianças com a terceira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP3), em %:
fatoA cobertura passou de 74% em 1994 para 99% a partir de 2002 e ficou no teto até 2011. Caiu a partir de 2016, chegou a 70% em 2019, ano em que o programa nacional relatou falta da vacina por cinco meses, e a 68% em 2021. Voltou a 90% em 2024 e ficou em 86% em 2025.
hipóteseA queda começou antes da pandemia e atravessa governos de orientações opostas, o que sugere causas que vão além de um presidente: desabastecimento, mudanças no sistema de registro de doses e a perda de confiança em vacinas. A pandemia e a campanha contra a vacina de covid aprofundaram o problema; a recuperação desde 2023 mostra que ele é reversível.
OMS e Unicef, via Banco Mundial (1994 a 2013) e revisão 2025 (2014 a 2025, inclusive a falta de vacina em 2019). As duas revisões coincidem nos anos usados no placar.
Conclusão
Os números não sustentam a ideia de que a saúde só piorou, nem a de que só melhorou com um lado. FHC montou a base: Saúde da Família, vacinação no teto e a maior queda da mortalidade infantil. Lula ampliou a rede e manteve o ritmo; Dilma teve a maior queda da mortalidade materna. A partir de 2015 o avanço desacelera, a vacinação começa a cair e, com a pandemia, o governo Bolsonaro termina com menos expectativa de vida do que recebeu. O Lula 3 lidera o placar, mas mede uma recuperação curta a partir do fundo do poço, e ainda não terminou.
Cuidados: o SUS é financiado pelas três esferas de governo, e a União paga menos da metade; os indicadores de resultado (mortalidade e expectativa de vida) dependem também de renda, saneamento e educação; três séries mudam de método no período (mortalidade materna em 1996, cobertura da Saúde da Família em 2021 e gasto consolidado antes de 2003), e por isso o capítulo usa a medida comparável disponível, indicada em cada item.
O desmatamento da Amazônia caiu de 27,8 mil km² em 2004 para 4,6 mil km² em 2012, voltou a passar de 13 mil km² em 2021 e caiu de novo para 5,8 mil km² em 2025. Este capítulo mede o que mudou em cada governo, com a mesma régua dos placares da economia, da educação e da saúde, e só com os indicadores que têm série oficial comparável.
A tese: o desmatamento da Amazônia responde à política federal mais do que qualquer outro indicador deste site. Caiu quando o governo fiscalizou e criou áreas protegidas, nos anos Lula e Dilma, subiu a partir de 2015 e disparou com Bolsonaro, e caiu pela metade no Lula 3. O Cerrado e as queimadas seguem outra lógica: o primeiro é desmatado em boa parte com autorização legal, e as segundas dependem muito do clima de cada ano.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Antes de comparar
O que depende do presidente, e o que não depende
fatoO governo federal comanda o Ibama e o ICMBio, cria unidades de conservação federais e define os planos de combate ao desmatamento. O plano da Amazônia, o PPCDAm, foi lançado em 15 de março de 2004; o do Cerrado, em 2010, e foi revogado em 2019, no governo Bolsonaro, até ser relançado em 2023.
estimativaNo Cerrado, o Código Florestal permite desmatar até 80% da vegetação nativa de uma propriedade privada fora da Amazônia Legal, e o Ministério do Meio Ambiente estima que mais da metade do desmatamento do bioma é autorizada pelos estados. Por isso o presidente controla menos o Cerrado do que a Amazônia.
hipóteseQueimadas dependem do clima: anos de seca forte, como 2010 e 2024, multiplicam os focos em qualquer governo. Por isso esta é a única coluna do placar medida pela média do mandato, e não pela comparação entre o primeiro e o último ano, como explicado no item 4.
PPCDAm: Inpe via Poder360; PPCerrado e desmatamento autorizado: Agência Gov.
2. O placar do meio ambiente, governo a governo
Quatro indicadores, a mesma régua
Desmatamento compara o último dado antes da posse com o último do mandato, ano a ano. Queimadas usam a média de focos por ano do mandato. Unidades de conservação somam a área federal criada e dividem pelos anos de governo. A cor mostra a posição do governo naquele indicador: verde mais forte é melhor, vermelho mais forte é pior. A nota é a média das posições, de 0 a 10. Role a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Governo
Desmatamento na Amazôniavariação % ao ano
Desmatamento no Cerradovariação % ao ano
Focos de queimadamédia por ano, em mil
Unidades de conservação federais criadasmilhões de ha por ano, área continental
Nota0 a 10
FHC (1995-2002)
-3,6%
sem dado
sem dado
2,6
6,02º
Lula (2003-2010)
-8,5%
-8,2%
301,7
3,4
5,83º
Dilma (2011-2014)
-7,1%
+1,8%
169,8
0,2
5,15º
Dilma e Temer (2015-2018)
+12,6%
-9,5%
185,3
0,65 ou mais
5,54º
Bolsonaro (2019-2022)
+13,5%
+15,1%
201,3
0
0,96º
Lula 3 (2023-2026)*
-16,7%
-10,8%
201,5
0,7
7,21º
* Lula 3, nota provisória.estimativaRevisão em janeiro de 2027, com as queimadas de 2026 e as unidades criadas até dezembro; versão final em meados de 2027, com a taxa consolidada do Prodes 2026. Datas pelo calendário habitual das fontes.
estimativaCálculo nosso, com peso igual para os quatro indicadores: Lula 3 7,2, FHC 6,0, Lula 5,8, Dilma e Temer 5,5, Dilma 5,1, Bolsonaro 0,9. Em cada indicador, o melhor governo recebe 10, o pior recebe 0 e os demais ficam no meio, conforme a posição; empates dividem a nota; quem não tem dado comparável não entra naquela coluna. FHC tem nota em dois indicadores. O desmatamento da Amazônia conta só neste placar: cada indicador conta em um só placar.
Amazônia.fatoProdes/Inpe, Amazônia Legal, em km²: 29.059 em 1995, 21.651 em 2002, 7.000 em 2010, 5.012 em 2014, 7.536 em 2018, 11.594 em 2022 e 5.796 em 2025. O ano Prodes vai de agosto a julho. estimativaO Prodes não mediu 1994; o primeiro dado de FHC, 1995, é o recorde da série. Medido a partir da média anual de 1993 e 1994 (14.896 km²), FHC teria alta de cerca de 6% ao ano, e continuaria em quarto lugar.
Cerrado.fatoProdes Cerrado, em km²: 29.495 em 2002, 10.055 em 2010, 10.761 em 2014, 6.657 em 2018, 10.689 em 2022 e 7.235 em 2025. FHC fica sem dado porque a série começa em 2001, e até 2012 o Inpe mediu a cada dois anos e atribuiu metade a cada ano. estimativaEm 2021 o Inpe redesenhou o limite do bioma: os anos até 2018 estão no limite antigo, os de 2019 em diante no novo. Medido só no limite novo (6.319 km² em 2019), Bolsonaro teria alta de 23% ao ano em vez de 15,1%, e ficaria em último do mesmo jeito.
Queimadas.fatoFocos detectados pelo satélite de referência do Inpe, todos os anos de cada mandato. estimativaOs arquivos anuais do satélite de referência atual começam em 2003; até 2002 a detecção vinha de outro satélite, com sensibilidade diferente, por isso FHC fica sem dado comparável. Bolsonaro e Lula 3 diferem em 0,1% (201,3 mil contra 201,5 mil focos por ano) e foram tratados como empate.
Unidades de conservação.fatoFHC criou 81 unidades federais com 20,8 milhões de hectares; Lula, 77 com 26,8 milhões; Dilma, cerca de 3,4 milhões, dos quais 2,6 milhões em maio de 2016, já no período 2015-2018; Bolsonaro, nenhuma. estimativaA taxa de Dilma (2011-2014) é a diferença entre esses dois números. O período Dilma e Temer soma os 2,6 milhões de maio de 2016 às áreas continentais de Temer, que não têm total consolidado nas fontes, por isso aparece como "0,65 ou mais". O Lula 3 soma 1,8 milhão de hectares até junho de 2026 e 676 mil em setembro, parte em ampliações. Como os dois valores são próximos e incertos, foram tratados como empate.
Áreas marinhas.fatoEm março de 2018, Temer criou as áreas protegidas dos arquipélagos de Trindade e Martim Vaz e de São Pedro e São Paulo, com 92,6 milhões de hectares, quase todos em área de uso sustentável no alto-mar. hipóteseElas ficam fora da coluna porque, contadas, mais que triplicariam toda a área criada por FHC e Lula juntos e decidiriam o placar sozinhas.
Robustez.hipóteseNos dois indicadores que os seis governos têm em comum, Amazônia e unidades de conservação, a ordem muda no meio, mas não nas pontas: Lula 9,0, Lula 3 7,5, FHC 6,0, Dilma 4,0, Dilma e Temer 3,5 e Bolsonaro 0. Bolsonaro é o último em qualquer combinação.
Lula 3 ainda não terminou.hipóteseO desmatamento é medido até 2025 e as queimadas até 2025; o Prodes de 2026 sai no fim do ano. O resultado é provisório.
Área de floresta derrubada por ano na Amazônia Legal, em km²:
fatoO desmatamento teve dois picos: 29 mil km² em 1995, ano seguinte ao Plano Real, e 27,8 mil km² em 2004. Caiu ano a ano até 4,6 mil km² em 2012, o menor da série. Voltou a subir a partir de 2013, passou de 10 mil km² em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, e chegou a 13 mil km² em 2021. Caiu quatro anos seguidos desde então, para 5,8 mil km² em 2025.
fatoEm 2023, os autos de infração do Ibama por crimes contra a flora na Amazônia dobraram em relação à média de 2019 a 2022, e a taxa do Prodes de 2023, que vai de agosto de 2022 a julho de 2023, caiu 22%.
hipóteseA sequência mostra que a taxa responde a decisões de governo em um ou dois anos: fiscalização, embargo de áreas, crédito rural condicionado e criação de áreas protegidas. A queda depois de 2004 e a de depois de 2023 usaram o mesmo conjunto de medidas; a alta de 2019 a 2021 coincidiu com o corte dessas medidas.
Prodes/Inpe, fontes do item 2; fiscalização em 2023: Ibama via CNN Brasil e MMA via RTP.
4. Queimadas
O clima pesa tanto quanto o governo
Focos de queimada por ano, média de cada mandato:
Lula (2003-2010)
301,7 mil
pico de 393,9 mil em 2007
Dilma (2011-2014)
169,8 mil
Dilma e Temer (2015-2018)
185,3 mil
Bolsonaro (2019-2022)
201,3 mil
Lula 3 (2023-2025)
201,5 mil
278,3 mil em 2024, ano de seca; 136,4 mil em 2025
fatoO recorde da série foi 2007, com 393,9 mil focos. Em 2024, ano de seca histórica, o país teve 278,3 mil focos, o maior número desde 2010; em 2025, com o clima normal, caiu para 136,4 mil, metade do ano anterior.
estimativaPor que a média, e não a comparação de pontas: comparar o último ano antes da posse com o último do mandato premia quem termina num ano chuvoso. Pela régua de pontas, o Lula 3 seria o segundo melhor (queda de 10,7% ao ano, de 2022 a 2025) e Dilma o melhor; pela média, Dilma continua em primeiro e o Lula 3 empata com Bolsonaro. A média é a medida mais estável, e por isso foi a escolhida.
hipóteseOs focos dos anos Lula 1 e 2 são altos porque o fogo é usado para limpar a área recém-derrubada, e o desmatamento estava perto do recorde no começo do período. A queda dos focos depois de 2010 acompanha a queda do desmatamento.
Inpe, satélite de referência, fontes do item 2; 2025: WWF-Brasil com dados do Inpe, nota de 2026.
5. Áreas protegidas
Quase tudo foi criado em dois governos
Área de unidades de conservação federais criada em cada governo, em milhões de hectares:
FHC (1995-2002)
20,8 Mha
Lula (2003-2010)
26,8 Mha
Dilma (2011-maio/2016)
3,4 Mha
2,6 Mha em maio de 2016
Temer (2016-2018)
92,6 Mha marinhos
área continental sem total consolidado
Bolsonaro (2019-2022)
0
Lula 3 (2023-set/2026)
cerca de 2,5 Mha
1,8 Mha até jun/2026 e 676 mil ha em set/2026, com ampliações
fatoFHC e Lula criaram juntos 47,6 milhões de hectares de unidades de conservação federais em terra, várias vezes o que os governos seguintes somaram em terra. Em junho de 2026, as 348 unidades federais somavam cerca de 173 milhões de hectares, incluindo as marinhas.
hipóteseCriar uma unidade é o passo mais barato; protegê-la exige servidor, fiscalização e regularização fundiária. Área criada mede a decisão política, não a proteção efetiva.
Fontes do item 2; total de 348 unidades e 173 milhões de hectares: Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, em nota do governo de junho de 2026 reproduzida pelo NC News; o relatório de gestão do ICMBio de 2024 registra os mesmos 173 milhões de hectares, 91,8 milhões deles marinhos.
6. Fora do placar
Emissões e multas: importantes, mas sem série confiável por governo
Emissões de gases de efeito estufa.fatoPelo SEEG, do Observatório do Clima, as emissões brutas do Brasil caíram 16,7% em 2024, para 2,145 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, a maior queda desde 2009, puxada pelo desmatamento. Na edição de 2023 do SEEG, o total emitido em quatro anos foi de 9,8 bilhões de toneladas no segundo governo FHC, 7,6 bilhões no segundo governo Lula, 7,7 bilhões no primeiro governo Dilma e 9,4 bilhões no governo Bolsonaro. estimativaFicou fora porque o SEEG recalcula a série inteira a cada edição, e a série completa da edição atual não está publicada em texto; misturar edições daria números incomparáveis. Como cerca de 40% das emissões vêm do desmatamento, a coluna repetiria em boa parte a da Amazônia.
Multas do Ibama.fatoO Ibama aplicou 9.692 multas em 2020 e 11.922 em 2019, contra uma média de 16 mil por ano de 2013 a 2017. Entre 2023 e 2025, as multas por crimes contra a flora cresceram 81% na Amazônia em relação a 2020-2022. hipóteseFicou fora porque não há série anual publicada para os seis governos, e porque o número de multas é ambíguo: cai quando o crime cai, mas também quando a fiscalização some, e a partir de 2023 o Ibama passou a usar mais embargo remoto, que não gera multa.
No meio ambiente, a diferença entre governos é maior do que na economia ou na saúde. Lula 1 e 2 receberam o desmatamento perto do recorde e o levaram ao menor nível da série até então, criando mais áreas protegidas do que qualquer outro presidente; FHC criou a segunda maior área. A partir de 2015 a Amazônia volta a perder mais floresta a cada ano, e com Bolsonaro a alta acelera nos dois biomas, sem nenhuma área protegida criada: é o último em três dos quatro indicadores. O Lula 3 lidera o placar porque reduziu o desmatamento à metade na Amazônia e em um terço no Cerrado, mas ainda não terminou, e empata com Bolsonaro em queimadas por causa da seca de 2024.
Cuidados: o desmatamento do Cerrado é em boa parte autorizado pelos estados; as queimadas dependem do clima; a série do Cerrado mudou de limite em 2021; FHC tem dado em só dois indicadores; emissões e multas ficaram fora por falta de série comparável, não por irrelevância.
Em 2024, cerca de 33 milhões de brasileiros não tinham rede de água, cerca de 90 milhões não tinham coleta de esgoto, e só pouco mais da metade do esgoto gerado no país era tratado. Este capítulo tenta medir o que mudou em cada governo, com a mesma régua dos placares anteriores, e mostra onde os dados oficiais não permitem medir.
A tese: infraestrutura é a área deste site em que menos dá para dar nota a presidentes. O saneamento depende de prefeituras e companhias estaduais e só tem série nacional comparável de 2010 a 2022; a luz elétrica chegou a quase todos antes de 2015; e as duas medidas mais federais, investimento e rodovias, não têm série que tenhamos conseguido conferir ano a ano. O que os números mostram é um avanço lento e contínuo do esgoto, sem virada clara entre governos.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Antes de comparar
Quem manda no cano, e quem manda no fio
fatoO serviço de água e esgoto é de responsabilidade do município, e na maior parte do país é prestado por companhias estaduais. A União escreve as regras e financia: a Lei 11.445, de 2007, criou as diretrizes nacionais do saneamento, e o novo marco legal, a Lei 14.026, de 2020, fixou a meta de 99% da população com água e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.
fatoEnergia elétrica é concessão federal, regulada pela Aneel. Os dois grandes programas de levar luz ao campo foram federais: o Luz no Campo, do governo FHC, cuja primeira fase previa mais de 600 mil ligações, e o Luz para Todos, criado em 2003, no governo Lula.
hipóteseObra de saneamento leva anos entre contrato, licença e ligação. Parte do que aparece num mandato foi contratada no anterior, e nenhum indicador abaixo separa isso. Por isso, no saneamento, a nota mede o período, e não só o presidente.
Cada coluna compara o último dado antes da posse com o último dado do mandato, em pontos percentuais por ano. A cor mostra a posição do governo naquele indicador: verde mais forte é melhor, vermelho mais forte é pior. A nota é a média das posições, de 0 a 10. Role a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Governo
População com água da redepontos % ao ano
População com coleta de esgotopontos % ao ano
Esgoto tratadopontos % ao ano
População com energia elétricapontos % ao ano
Nota0 a 10
FHC (1995-2002)
sem dado
sem dado
sem dado
+0,60
não calculada1 indicador
Lula (2003-2010)
sem dado
sem dado
sem dado
+0,24
não calculada1 indicador
Dilma (2011-2014)
+0,50
+0,85
+0,73
+0,28
4,43º
Dilma e Temer (2015-2018)
+0,15
+0,90
+1,38
no teto
5,0empate
Bolsonaro (2019-2022)
+0,33
+0,70
+1,48
no teto
5,0empate
Lula 3 (2023-2026)*
quebra de série
quebra de série
quebra de série
no teto
sem nota0 indicador
* Lula 3 sem nota.estimativaReavaliar quando o SINISA publicar os anos-base 2025 e 2026, o que deve ocorrer em 2027 e 2028, e for possível comparar anos do mesmo sistema.
estimativaCálculo nosso, com peso igual para os indicadores e a mesma regra dos outros placares: o melhor governo recebe 10, o pior recebe 0 e os demais ficam no meio, conforme a posição; quem não tem dado comparável não entra na coluna. Dilma e Temer e Bolsonaro empatam em 5,0, e Dilma fica com 4,4: no saneamento, cada um dos três lidera um indicador e fica em último em outro; a diferença de Dilma vem da energia. Em energia, FHC é o primeiro, e Lula e Dilma são tratados como empate, porque a distância entre os dois (0,24 contra 0,28 ponto ao ano) vem de 2010, ano de Censo, e é menor que o erro das pesquisas. FHC e Lula só têm dado em energia elétrica, e um indicador sozinho não forma placar, por isso a nota deles não é calculada. O Lula 3 não tem nenhum indicador comparável e fica sem nota.
Água, coleta e tratamento.fatoSNIS, população total, média nacional: água 81% em 2010, 83,0% em 2014, 83,6% em 2018 e 84,92% em 2022; coleta de esgoto 46,2%, 49,6%, 53,2% e 56,0%; esgoto tratado, em relação à água consumida, 37,9%, 40,8%, 46,3% e 52,2%.
Por que FHC e Lula ficam sem dado.fatoO SNIS existe desde 1995, mas nos primeiros anos poucos prestadores respondiam: eram 592 em 2006 e 1.199 em 2010, depois que a Lei 11.445 tornou a informação uma exigência. estimativaAntes de 2010 a média nacional mistura melhora real com entrada de novos municípios na base, e não é comparável com os anos seguintes.
Por que o Lula 3 fica sem dado comparável.fatoEm 2024 (dados de 2023) o SNIS foi substituído pelo SINISA. Os prestadores de esgoto que responderam caíram de 3.717 para 1.268, e os municípios com dado de esgoto, de 5.150 para 2.754. A água recuou de 84,92% para 83,13% num ano. A coleta mudou de cálculo: o número oficial de 2023 é 59,7%, e o recalculado pelo método antigo é 55,2%. Em 2024, o SINISA aponta 84,1% de água, 56,7% de coleta e 51,8% de esgoto tratado. hipóteseUma queda de quase 2 pontos na água em um ano não tem precedente na série e vem da troca de sistema, não de piora real. Comparar 2022 com 2024 mediria a mudança de método, e não o governo. Por isso o Lula 3 fica sem nota, e o resultado dele só poderá ser medido quando o SINISA tiver anos suficientes para comparar entre si.
Energia elétrica.fatoBanco Mundial, parcela da população com energia: 91,9% em 1994, 96,7% em 2002, 98,6% em 2010, 99,7% em 2014 e 2018, 100,0% em 2022 e 99,8% em 2023. hipóteseA partir de 2014 o indicador está no teto, e as diferenças são do tamanho do erro das pesquisas; o 100% de 2022 coincide com o Censo. Por isso Dilma e Temer, Bolsonaro e Lula 3 aparecem "no teto", sem nota nesta coluna.
Robustez.hipóteseAs diferenças são pequenas. Na coleta, Dilma e Temer (+0,90) e Dilma (+0,85) quase empatam. Em energia, Lula (+0,24) fica atrás de Dilma (+0,28) por causa de 2010, ano de Censo, em que o dado recua de 98,9% para 98,6%; medido até 2009, Lula ficaria à frente. Por isso os dois são tratados como empate, aqui e no placar geral. Medida pela queda da parcela ainda sem luz, e não em pontos, Dilma fica em primeiro: tirou quase quatro quintos de quem faltava em quatro anos. Nenhuma dessas trocas mexe no saneamento.
Parcela da população com água da rede, com coleta de esgoto e parcela do esgoto que é tratada, em %. A linha tracejada marca a troca do SNIS pelo SINISA:
ÁguaColeta de esgotoEsgoto tratadoSINISA, 2023 e 2024
2011 não tem média nacional publicada nas fontes usadas; a linha liga 2010 a 2012.
fatoDe 2012 a 2022, a água subiu 2,2 pontos, a coleta de esgoto 7,7 pontos e o tratamento 13,5 pontos. O investimento total em água e esgoto, somando prestadores, municípios e estados, ficou perto de R$ 20 bilhões por ano no período, com pouca variação; em 2024 chegou a R$ 29,1 bilhões.
hipóteseA coleta de esgoto andou entre 0,7 e 0,9 ponto por ano nos três governos que dá para medir. Um ritmo tão parecido sob presidentes tão diferentes sugere que o motor é de longo prazo: contratos das companhias estaduais, financiamento já contratado e obras que atravessam mandatos.
estimativaNo ritmo médio de 2012 a 2022, perto de 0,8 ponto por ano, a coleta de esgoto chegaria a 90% da população só por volta de 2067, mais de 30 anos depois da meta legal de 2033.
Parcela da população sem energia elétrica em casa:
1994 último ano antes de FHC
8,1%
2002 fim de FHC
3,3%
2010 fim de Lula
1,4%
2014 fim de Dilma
0,3%
2018 fim de Dilma e Temer
0,3%
2022 fim de Bolsonaro, ano do Censo
0,0%
2023 dado mais recente
0,2%
fatoEm 1994, cerca de 8 em cada 100 brasileiros não tinham luz em casa. Em 2014, menos de 1 em cada 300. FHC reduziu a parcela sem luz em mais da metade. O que faltava estava sobretudo no campo: a população rural com energia passou de 84,1% em 2002 para 97,9% em 2014, nos governos Lula e Dilma.
hipóteseO último trecho é o mais caro por ligação: casas longe da rede, em áreas rurais da Amazônia e do semiárido. Por isso a régua em pontos por ano favorece quem começou com mais gente sem luz, e a coluna deve ser lida junto com o nível de partida.
Investimento e rodovias: federais, mas sem série que conseguimos conferir
Investimento público federal.fatoExiste série histórica desde 1947, do Observatório de Política Fiscal do FGV Ibre, que separa governo central, estados, municípios e estatais federais. Somando todas as esferas, o investimento público chegou ao pico de 4,72% do PIB em 2009, caiu ao fundo em 2017 e ficou em 2,71% em 2025. O investimento direto do governo central ficou em 0,26% do PIB em 2022, e em 2024 o governo central era a única esfera que ainda investia menos do que a depreciação do que já tinha. hipóteseFicou fora da nota porque os valores anuais do governo central para os anos de posse e de fim de mandato (1994, 2002, 2010, 2014 e 2018) só estão na planilha do Observatório, que não conseguimos conferir número a número. Este site não publica nota com número que não conferiu.
Rodovias federais pavimentadas.fatoPelo Sistema Nacional de Viação, compilado pela CNT, o país tinha cerca de 64,2 mil km de rodovias federais pavimentadas em 2012, chegou a 66,7 mil km em 2015, caiu para 64,9 mil km em 2016 e estava em 65,8 mil km em 2022. hipóteseA queda de 2016 não é asfalto que sumiu: a extensão muda quando trechos passam de uma esfera para outra ou são reclassificados. A série mede cadastro, não obra, e não encontramos dado oficial comparável para 1994, 2002 e 2010. Por isso fica fora da nota.
Na infraestrutura básica, os dados oficiais não sustentam um vencedor. A luz chegou a quase todos entre FHC e Dilma, com FHC na frente em pontos e Dilma na frente pela parcela que faltava. O esgoto avançou devagar e no mesmo ritmo de 2010 a 2022, com notas próximas para Dilma, Dilma e Temer e Bolsonaro (de 4,4 a 5,0). O Lula 3 não pode ser medido porque o sistema oficial mudou no meio do caminho. No ritmo atual, a meta de esgoto de 2033 fica mais de 30 anos atrasada, em qualquer governo.
Cuidados: água e esgoto são serviços municipais, prestados em geral por companhias estaduais; os números do SNIS são declarados pelos próprios prestadores, sem auditoria; a série nacional só é comparável de 2010 a 2022; energia está no teto desde 2014; investimento federal e rodovias ficaram fora por falta de série conferida, não por irrelevância. Este é o placar com menos dado do site, e deve pesar menos do que os outros no placar geral.
Os capítulos 6, 8, 9, 10, 11 e 12 mediram cada governo, de FHC a Lula 3, em uma área por vez. Este capítulo junta os 29 indicadores que entram na conta em uma nota só, dando mais peso ao que o presidente controla e menos ao que ele divide com governadores e prefeitos.
A tese: somando tudo, os dois governos Lula ficam no topo e os períodos de 2015 a 2022 ficam embaixo. Mas a distância entre Lula e Lula 3 é de 0,1 ponto, menor do que o efeito de qualquer escolha de peso, e o Lula 3 ainda não terminou. A ordem entre o primeiro e o segundo, e entre FHC e Dilma, depende da régua.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aqui
1. Quem responde por quê
Peso cheio, meio peso ou fora da conta
Cada indicador recebeu uma de três classes, conforme quem tem a mão no resultado:
Federal, peso 1. O governo federal decide diretamente: juros e inflação, salário mínimo, Bolsa Família, fiscalização da Amazônia, abertura de cursos de medicina.
Compartilhado, peso 0,5. A União financia ou dita a regra, mas quem executa são estados e municípios: escolas, postos de saúde, polícias.
Fora, peso 0. Responsabilidade de estados e municípios: água e esgoto, que são serviços municipais prestados em geral por companhias estaduais.
hipóteseA classificação é nossa. Os casos mais discutíveis são extrema pobreza e desigualdade (que também dependem da economia), dívida líquida (a série do Banco Central inclui estados e municípios, mas a maior parte é da União), médicos (que inclui contratação privada) e vacinação (a União compra, o município aplica). Mudar qualquer um deles de classe mexe em décimos, como mostra a parte 4.
Indicador
Cap.
Responsabilidade
Peso
Por quê
Crescimento do PIB
6
Federal
1
política fiscal, monetária e cambial
Inflação
6
Federal
1
Banco Central e meta do Conselho Monetário Nacional
ciclo da economia, comandado pela política federal
Dívida líquida do setor público
6
Federal
1
a maior parte é da União; a série inclui estados e municípios
Fome (Mapa da Fome da FAO)
6
Federal
1
programas nacionais de renda e alimentação
Investimento público em educação
9
Compartilhado
0,5
soma União, estados e municípios; a maior parte é dos dois últimos
Ideb anos iniciais
9
Compartilhado
0,5
redes municipais, com regras e verbas federais
Ideb anos finais
9
Compartilhado
0,5
redes municipais e estaduais, com regras e verbas federais
Ideb ensino médio
9
Compartilhado
0,5
redes estaduais, com Fundeb e lei federal (reforma de 2017)
Analfabetismo
9
Compartilhado
0,5
programas federais executados por estados e municípios
Matrículas no ensino superior
9
Federal
1
universidades federais, regulação do setor privado pelo MEC, Fies e ProUni
Jovens de 15 a 17 anos na escola
9
Compartilhado
0,5
ensino médio estadual, com regras e Fundeb federais
Professores com curso superior
9
Compartilhado
0,5
regra federal (LDB, Parfor), contratação local
Mortalidade infantil
10
Compartilhado
0,5
SUS tripartite: União financia, município atende
Mortalidade materna
10
Compartilhado
0,5
SUS tripartite: União financia, município e estado atendem
Expectativa de vida
10
Compartilhado
0,5
soma de saúde, renda e violência
Vacinação (DTP3)
10
Compartilhado
0,5
União compra e distribui; município aplica
Equipes de Saúde da Família
10
Compartilhado
0,5
programa e verba federais, equipe contratada pela prefeitura
Médicos por mil habitantes
10
Federal
1
abertura de cursos de medicina pelo MEC e Mais Médicos
Gasto público em saúde
10
Compartilhado
0,5
soma das três esferas
Desmatamento na Amazônia
11
Federal
1
Ibama, Polícia Federal, PPCDAm e embargos
Desmatamento no Cerrado
11
Compartilhado
0,5
autorizações de desmate são em geral estaduais
Focos de queimada
11
Compartilhado
0,5
fiscalização dividida e forte efeito do clima
Unidades de conservação federais criadas
11
Federal
1
criadas por decreto federal
População com energia elétrica
12
Federal
1
concessão federal, Aneel e Luz para Todos
Taxa de homicídios
8
Compartilhado
0,5
polícias estaduais; União atua com leis, fundo e Polícia Federal
População com água da rede
12
Fora
0
serviço municipal, prestado em geral por companhias estaduais
População com coleta de esgoto
12
Fora
0
serviço municipal, prestado em geral por companhias estaduais
Esgoto tratado
12
Fora
0
serviço municipal, prestado em geral por companhias estaduais
estimativaSão 13 indicadores federais e 16 compartilhados, somando 21 pontos de peso. A economia responde por 8 deles, 38% do total, porque tem mais indicadores federais. A segurança fica com 0,5, cerca de 2%.
Classificação a partir das competências da Constituição (arts. 21 a 24, 30, 144, 196 a 198, 211 e 225); os indicadores, valores e fontes de cada um estão nos capítulos 6, 8, 9, 10, 11 e 12.
2. Homicídios na mesma régua
Da contagem de mortes para a taxa por 100 mil
O capítulo 8 mostra o número de mortes nos primeiros governos e a taxa nos últimos. Para entrar no placar, todos precisam estar em taxa por 100 mil habitantes, que desconta o crescimento da população:
FHC.fato21,2 em 1994 e 28,5 em 2002: alta de 34%, ou 4,3% ao ano.
Lula.fato28,5 em 2002 e 27,4 em 2010: queda de 3,9%, ou 0,5% ao ano.
Dilma.fato27,8 em 2010 e 29,8 em 2014: alta de 7,2%, ou 1,8% ao ano.
Dilma e Temer.fato29,8 em 2014 e 27,8 em 2018: queda de 6,7%, ou 1,7% ao ano.
Bolsonaro.fato27,9 em 2018 e 21,7 em 2022: queda de 22%, ou 5,6% ao ano.
Lula 3.fato21,7 em 2022 e 20,1 em 2024: queda de 7,4% em dois anos, ou 3,7% ao ano.
estimativaCada governo é medido dentro de uma mesma edição da fonte, porque as edições revisam a população e mudam a taxa em alguns décimos (2010 aparece como 27,4 numa e 27,8 na outra; 2018, como 27,8 e 27,9). Com qualquer combinação, a ordem é a mesma: Bolsonaro, Lula 3, Dilma e Temer, Lula, Dilma e FHC.
Nota geral de 0 a 10, pela regra de pesos deste capítulo:
A tabela abaixo mostra a nota de cada área já com os pesos deste capítulo, por isso ela difere da nota publicada em cada capítulo, que usava peso igual. A cor mostra a posição do governo na área. Role para o lado para ver todas as colunas.
Governo
Economianota 0 a 10
Educaçãonota 0 a 10
Saúdenota 0 a 10
Meio ambientenota 0 a 10
Energia elétricanota 0 a 10
Homicídiosnota 0 a 10
Peso com dadode 21 possíveis
Nota geral0 a 10
FHC (1995-2002)
3,4
8,2
6,0
6,0
10,0
0,0
16,5 de 21
5,43º
Lula (2003-2010)
8,4
7,1
4,8
6,8
2,5
4,0
20,0 de 21
6,81º
Dilma (2011-2014)
5,7
5,0
4,8
4,8
2,5
2,0
21,0 de 21
5,04º
Dilma e Temer (2015-2018)
1,2
3,4
4,5
4,8
sem dado
6,0
20,0 de 21
3,06º
Bolsonaro (2019-2022)
4,2
3,4
2,6
0,6
sem dado
10,0
20,0 de 21
3,35º
Lula 3 (2023-2026)*
7,3
4,0
7,9
7,3
sem dado
8,0
19,5 de 21
6,72º
estimativaCálculo nosso. Em cada indicador vale a nota por posição já usada nos capítulos: o melhor governo recebe 10, o pior 0, os demais ficam no meio, empates dividem a nota, e quem não tem dado comparável não entra na coluna. A nota geral é a média dessas notas, com peso 1 para indicador federal e 0,5 para compartilhado. Cada indicador conta uma vez só. Com peso igual dentro de cada área, o mesmo cálculo reproduz as notas publicadas nos capítulos 6, 9, 10 e 11.
Topo.estimativaLula com 6,8 e Lula 3 com 6,7. O Lula lidera a economia; o Lula 3, saúde e meio ambiente. A diferença entre os dois é menor do que a variação de qualquer regra de peso testada abaixo.
Meio.estimativaFHC com 5,4 e Dilma com 5,0. FHC tem a melhor nota da educação e a pior da economia entre os dois; Dilma fica no meio em quase tudo.
Base.estimativaBolsonaro com 3,3 e Dilma e Temer com 3,0. Dilma e Temer têm a pior economia, com a recessão de 2015 e 2016; Bolsonaro tem a pior saúde, puxada pela pandemia, e o pior meio ambiente.
Energia elétrica.estimativaLula e Dilma são tratados como empate (2,5 cada; FHC fica com 10). A diferença entre os dois, 0,24 contra 0,28 ponto ao ano, vem de 2010, ano de Censo, em que o dado recua; medido até 2009, Lula ficaria à frente (capítulo 12). Pela régua estrita de posição, Lula teria 0 e Dilma 5, e o Lula 3 ficaria em primeiro no placar geral (6,7 contra 6,6).
Dado faltando.fatoFHC é medido com 16,5 dos 21 pontos de peso, porque não há Ideb, mortalidade materna comparável, gasto em saúde, Cerrado, queimadas nem fome (FAO) para o período. Energia elétrica só tem dado comparável até Dilma, e o gasto em saúde não tem o Lula 3.
Lula 3 ainda não terminou.hipóteseA maior parte dos dados vai até 2024 ou 2025, e o governo partiu de uma base deprimida pela pandemia, o que facilita melhorar emprego, pobreza e expectativa de vida. A nota é provisória.
* Quando recalcular.estimativaO placar geral acompanha as revisões das áreas: primeira em março de 2027 (economia e meio ambiente), versão final quando saírem os dados de 2026 de saúde e homicídios, em 2028. Datas pelo calendário habitual das fontes.
4. Quanto a régua muda o resultado
Cinco regras de peso, a mesma base
Nota geral de cada governo com regras diferentes de peso, para ver o que é sólido e o que depende da escolha:
Regra de peso
FHC
Lula
Dilma
Dilma e Temer
Bolsonaro
Lula 3
Ordem
Regra deste capítulo (federal 1, compartilhado 0,5)
5,4
6,8
5,0
3,0
3,3
6,7
Lula, Lula 3, FHC, Dilma, Bolsonaro, Dilma e Temer
Sem os homicídios
5,5
6,8
5,1
2,9
3,1
6,6
Lula, Lula 3, FHC, Dilma, Bolsonaro, Dilma e Temer
Sem a energia elétrica
5,1
7,0
5,1
3,0
3,3
6,7
Lula, Lula 3, Dilma, FHC, Bolsonaro, Dilma e Temer
Peso igual para todos os indicadores
5,8
6,5
4,9
3,5
3,2
6,4
Lula, Lula 3, FHC, Dilma, Dilma e Temer, Bolsonaro
Peso igual para cada área
5,6
5,6
4,1
4,0
4,2
6,9
Lula 3, Lula, FHC, Bolsonaro, Dilma, Dilma e Temer
estimativaO que não muda: os dois governos Lula ficam entre os dois primeiros em todas as regras, e Dilma e Temer fica entre os dois últimos em todas. O que muda: quem é o primeiro (o Lula 3 passa à frente com peso igual por área), a ordem entre FHC e Dilma (Dilma passa à frente sem a energia elétrica, por 5,11 contra 5,06), e a ordem na base (com peso igual por área, Bolsonaro passa Dilma). Lula e FHC empatam em 5,6 com peso igual por área; Lula fica à frente por 0,01.
hipótesePeso igual por área dá à energia elétrica, um indicador só e com dado para três governos, o mesmo peso de toda a economia. Por isso preferimos a regra por indicador, e mostramos a outra como teste.
5. A ressalva da segurança
Por que os homicídios entram com peso tão pequeno
fatoA Constituição entrega as polícias militar e civil aos estados (art. 144). A União tem a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Fundo Nacional de Segurança Pública e as leis penais e de armas.
hipótesePor isso a taxa nacional de homicídios é, em grande parte, a soma do que fizeram 27 governadores. Como mostra o capítulo 8, especialistas não atribuem ao governo federal a queda iniciada em 2018, e a única medida federal com efeito medido nos estudos consultados é o Estatuto do Desarmamento. A queda de 2018 a 2024 também coincide com tréguas entre facções e com o envelhecimento da população, fatores que nenhum governo controla.
estimativaCom meio peso, os homicídios valem 0,5 de 21 pontos. Tirá-los da conta muda a nota geral em no máximo 0,2 ponto e não muda a ordem.
Fatores da queda recente: Atlas da Violência 2026 (Ipea e FBSP), via Revista Fórum; influência federal e desarmamento: fontes do capítulo 8.
Conclusão
Somados 29 indicadores oficiais, com peso maior para o que depende do presidente, os governos Lula ficam no topo, FHC e Dilma no meio, e os anos de 2015 a 2022 embaixo. A frase "o PT quebrou o Brasil" não se sustenta no placar geral, e a ideia oposta, de que tudo melhorou só com o PT, também não: FHC tem a melhor nota da educação e fica à frente de Dilma na maioria das regras. O topo é disputado por um governo terminado e outro que ainda pode mudar de nota.
Cuidados: a nota mede posição relativa entre seis governos, e não o tamanho das diferenças; o contexto externo (crise de 2008, preço de commodities, pandemia) não é descontado; governos com menos dado são medidos sobre uma base menor; a classificação de responsabilidade é uma escolha nossa, explicada na parte 1 e testada na parte 4; o Lula 3 é provisório.
O que foi julgado, o que foi acusado e o que foi dito
Jair Bolsonaro e três de seus filhos acumulam casos na Justiça, em CPIs e na imprensa desde os anos 2000. Este capítulo reúne os principais, com uma regra: cada caso aparece com o nível de prova que atingiu e com o desfecho, inclusive quando a acusação foi anulada ou arquivada.
Condenação, denúncia, investigação, reportagem e declaração não pesam o mesmo. Aqui elas aparecem separadas, com data, fonte e situação em 9 de outubro de 2026.
1condenação2denúncia ou indiciamento3investigação4apuração jornalística5declaração própriaRregistro públicoestimativacom método e margem
1. A régua de prova
Como ler cada caso
Os níveis medem até onde uma acusação chegou, não se ela é verdadeira:
1Condenação. Decisão judicial. O texto diz se é penal, cível ou eleitoral, e se ainda cabe recurso.
2Denúncia ou indiciamento. O Ministério Público acusou formalmente, ou a Polícia Federal concluiu o inquérito apontando autoria. É acusação, não culpa.
3Investigação. Inquérito, CPI ou apuração oficial aberta, sem acusação formal.
4Apuração jornalística. Reportagem com documentos ou testemunhos, sem investigação oficial correspondente.
5Declaração própria. Gravação ou registro da fala. Prova que a frase foi dita, não que houve crime.
RRegistro público. Fato documentado que não é acusação: uma nomeação, um pagamento, uma medalha, uma decisão processual.
Cada caso mostra o nível máximo atingido e o desfecho. Um caso pode ter chegado ao nível 2 e terminado arquivado. Arquivamento por nulidade processual não é absolvição, e também não é condenação: significa que o mérito não foi julgado.
2. Rachadinhas e dinheiro da família
Queiroz, a loja de chocolates e os imóveis em dinheiro vivo
Rachadinha no gabinete de Flávio na Alerjnível 2 · denúncia arquivada
O que aconteceu.REm 2018, um relatório do Coaf apontou movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. Pelo menos oito servidores do gabinete depositaram cerca de R$ 150 mil na conta dele em datas logo após o pagamento dos salários.
2Em novembro de 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio, Queiroz e mais 15 pessoas por peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa, com desvio estimado em R$ 2,7 milhões entre 2007 e 2018. Segundo os promotores, o dinheiro era lavado numa loja de chocolates de Flávio em um shopping do Rio, na compra de imóveis em espécie e no pagamento de despesas pessoais.
Desfecho.REm 2021, o STJ anulou as decisões do juiz de primeira instância, por entender que Flávio tinha direito a foro especial. Em novembro de 2021, a 2ª Turma do STF anulou quatro dos cinco relatórios do Coaf, com voto do relator Gilmar Mendes, que viu uma "investigação disfarçada"; Edson Fachin ficou vencido. O próprio MP pediu a anulação da denúncia, e o Órgão Especial do TJ-RJ a arquivou em 16 de maio de 2022. Em fevereiro de 2025, Gilmar Mendes negou recursos do MP para reabrir o caso. O mérito nunca foi julgado.
Outro lado. Flávio disse que a denúncia tinha erros e foi apresentada às vésperas da eleição municipal de 2020, e sempre negou a prática.
Queiroz e Michelle Bolsonaronível 4 · sem investigação própria
O que aconteceu.4Reportagens de 2020 mostraram que Queiroz fez 21 depósitos para Michelle Bolsonaro entre 2011 e 2016, somando R$ 89 mil. Um deles, um cheque de R$ 24 mil, já constava do relatório do Coaf.
5Jair Bolsonaro disse que o cheque era a devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que fez a Queiroz. Em agosto de 2020, ao ser perguntado por um repórter do Grupo Globo sobre os depósitos, respondeu com uma ameaça de agressão física, criticada pela ABI, pela Abraji e pela OAB.
Desfecho. Os dados vieram da quebra de sigilo que depois foi anulada. Não há investigação sobre Michelle.
51 imóveis comprados com dinheiro vivonível 4 · sem investigação oficial
O que aconteceu.4Em agosto de 2022, após sete meses de apuração em escrituras e entrevistas com vendedores, o UOL publicou que Jair Bolsonaro e parentes próximos compraram 107 imóveis entre 1990 e 2022, pelo menos 51 deles pagos total ou parcialmente em dinheiro vivo. Um dos casos: Flávio pagou R$ 638 mil em espécie por dois apartamentos em Copacabana. O UOL depois publicou as provas usadas em cada um dos 51 casos.
Outro lado.5Bolsonaro disse que não havia ilegalidade e respondeu aos repórteres: "investiga".
Desfecho. Não localizamos investigação oficial aberta a partir da reportagem. Pagar imóvel em dinheiro vivo não é crime em si; a pergunta da reportagem é a origem do dinheiro.
4A jornalista Juliana Dal Piva, do UOL, reconstituiu o esquema de devolução de salários nos gabinetes da família no podcast "A vida secreta de Jair" (2021), com episódios sobre a ex-mulher Ana Cristina Siqueira Valle, a prisão de Queiroz e as visitas de Jair e Flávio a Adriano da Nóbrega na prisão, e no livro "O negócio do Jair" (2022). Também foi coautora da reportagem dos imóveis.
5Em agosto de 2020, o então diretor da Abin, Alexandre Ramagem, gravou uma reunião com Jair Bolsonaro, o ministro Augusto Heleno e as advogadas de Flávio. Na gravação, liberada pelo STF, Bolsonaro sugere procurar o secretário da Receita Federal e o chefe do Serpro para tratar da investigação contra o filho, e diz que o então governador Wilson Witzel prometeu "resolver" o caso em troca de uma vaga no STF.
Outro lado. Witzel negou. Apoiadores de Bolsonaro destacam que, no áudio, ele diz não querer favorecimento.
Atibaia.RQueiroz foi preso em 18 de junho de 2020 em um imóvel em Atibaia (SP), numa operação conjunta dos MPs do Rio e de São Paulo. O imóvel pertencia ao advogado Frederick Wassef, que defendia Flávio e Jair; segundo o caseiro, Queiroz morava lá havia cerca de um ano.
Joias.2Em julho de 2024, a PF indiciou Wassef, Jair Bolsonaro e outras dez pessoas por associação criminosa, lavagem e apropriação de bens públicos no caso das joias recebidas de governos estrangeiros.
Desfecho. Em 5 de março de 2026, a PGR pediu o arquivamento, argumentando que a lei não define se um presente recebido no cargo pertence ao presidente ou à União. Em 19 de março, Moraes mandou a PGR se manifestar sobre novos dados do celular de Wassef enviados pela PF, e a OAB contestou o uso dessas provas. Sem decisão final.
Outro lado. A defesa de Bolsonaro afirma que ele não tinha ingerência sobre os presentes recebidos em viagens.
Adriano da Nóbrega e o porteiro do Vivendas da Barra
Homenagens a Adriano da Nóbregaregistro público
REm 2003, por iniciativa de Flávio, a Alerj deu ao então tenente Adriano da Nóbrega uma moção de louvor. Em 2005, Flávio lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia, quando Adriano estava preso preventivamente, acusado de matar um guardador de carros em 2004. Dias depois, Jair Bolsonaro discursou na Câmara defendendo o policial e pedindo novo júri. Adriano foi absolvido depois.
4Segundo o UOL, Jair e Flávio visitaram Adriano na prisão entre 2004 e 2005, e a família homenageou ao longo dos anos 75 policiais que responderam a processos criminais, principalmente por homicídio.
3Em 2019, Adriano foi apontado pela polícia do Rio como chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores ligado à milícia de Rio das Pedras. Foragido, foi morto pela polícia na Bahia em fevereiro de 2020; a Secretaria de Segurança baiana chamou de infundada a suspeita de tiros a curta distância.
Outro lado.5Em 2020, Jair Bolsonaro disse que ele próprio determinou a homenagem e que Adriano era, naquela época, "um herói". Em agosto de 2026, no Jornal Nacional, Flávio disse que Adriano era um policial exemplar quando foi homenageado e que não pode responder pelo que ele fez anos depois.
A mãe e a mulher de Adriano no gabinete de Flávioregistro público
RDanielle Mendonça da Costa da Nóbrega, mulher de Adriano, foi assessora de Flávio na Alerj de 2007 até novembro de 2018. Raimunda Veras Magalhães, mãe dele, foi nomeada em abril de 2016, mais de dois anos depois de Adriano ser expulso da PM, e ficou até 2018. As contratações foram feitas por meio de Queiroz. As duas e Adriano foram citados na investigação da rachadinha, que terminou anulada (bloco 2).
O porteiro e o caso Mariellenível 3 · versão desmentida por perícia
O que aconteceu.3Em 29 de outubro de 2019, o Jornal Nacional revelou que o porteiro do condomínio Vivendas da Barra disse à polícia que, no dia do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, interfonou para a casa 58, de Jair Bolsonaro, e que "Seu Jair" autorizou a entrada de Élcio de Queiroz.
RNo dia seguinte, Carlos Bolsonaro publicou vídeos da tela do computador da portaria e áudios das ligações. Um perito aposentado ouvido pela revista piauí disse que o trecho inicial dos áudios publicados por Carlos foi editado.
Desfecho.RO porteiro recuou e disse ter anotado errado. Em fevereiro de 2020, um laudo da Polícia Civil assinado por seis peritos concluiu que a gravação original não foi adulterada, que a voz não era do porteiro que citou Bolsonaro e que quem liberou a entrada de Élcio foi Ronnie Lessa, morador do condomínio.
Gravação apagada. Não encontramos registro de que alguma gravação tenha sido apagada. A dúvida que circulou foi sobre os trechos editados nos vídeos de Carlos, não sobre o arquivo periciado.
1Lessa e Élcio foram condenados em outubro de 2024 a 78 e 59 anos. Em fevereiro de 2026, a 1ª Turma do STF condenou por unanimidade os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão como mandantes, e o ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa a 18 anos. Nenhum integrante da família Bolsonaro foi acusado no caso.
Todas são nível 5: a fala está registrada. A última coluna mostra se alguma delas virou processo:
Data e veículo
O que disse
Desfecho
2/12/1998, Veja
Que a ditadura de Pinochet, no Chile, deveria ter matado mais gente.
Nenhum
23/5/1999, Câmera Aberta (Band)
Defendeu guerra civil, fim do voto e fechamento do Congresso; disse ser favorável à tortura e desqualificou a democracia.
Nenhum
1999 ou 2000 (as fontes divergem), Programa do Jô (Globo)
Explicou por que defendia o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso: bárbaro, disse, era privatizar a Vale e as telecomunicações e entregar o petróleo ao capital estrangeiro.
Nenhum
Dezembro de 2008, discussão com manifestantes
Que o erro da ditadura foi torturar e não matar.
Nenhum
11/11/2003, Câmara; 9/12/2014, plenário; 2015, Zero Hora
Disse à deputada Maria do Rosário que não a estupraria porque ela "não merece"; na entrevista, que ela era "muito feia".
1Condenado a indenizar em R$ 10 mil (2015), mantido pelo STJ (2017) e pelo STF (2019); pediu desculpas públicas em 13/6/2019. 2Réu no STF em 2016 por apologia ao crime e injúria; a ação foi enviada à Justiça do DF quando ele deixou o cargo; desfecho não localizado.
28/3/2011, CQC (Band)
Perguntado por Preta Gil sobre o que faria se o filho namorasse uma mulher negra, disse que não discutiria "promiscuidade". Depois afirmou ter entendido que a pergunta era sobre relação homossexual.
RInquérito no STF arquivado em 2015, porque a emissora só entregou a versão editada. 1TJ-RJ condenou-o a pagar R$ 150 mil por danos morais coletivos pelas falas no programa (2017).
17/4/2016, votação do impeachment na Câmara
Dedicou o voto à memória do coronel Brilhante Ustra, "o pavor de Dilma". Em agosto de 2019, já presidente, chamou Ustra de "herói nacional". A Comissão Nacional da Verdade registrou 45 mortes ou desaparecimentos e 502 casos de tortura no período em que Ustra chefiou o DOI-Codi de São Paulo.
Nenhum
Abril de 2017, Clube Hebraica (Rio)
Referiu-se a quilombolas medindo o peso deles em "arrobas", unidade usada para gado; disse que teve quatro filhos homens e na quinta "fraquejou" e veio uma mulher.
1Condenado em ação do MPF a pagar R$ 50 mil por dano moral (out/2017). 2Denunciado pela PGR por racismo (abr/2018); o STF rejeitou a denúncia em 11/9/2018.
18/2/2020, em frente ao Alvorada
Insultou com conotação sexual a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha.
Repúdio de ABI, Abraji, ANJ e OAB
Março de 2020, redes sociais
Apoiou a convocação dos atos de 15 de março, que pediam o fechamento do Congresso e do STF.
Nenhum
27/10/2021, Jovem Pan News, sem saber que estava ao vivo
Sobre contratos de pedágio do passado: "manda um sapato número 43 (...) cheio de notinha de cem". Em seguida perguntou quanto vale uma vaga no STF. Na mesma entrevista, discutiu com o humorista André Marinho, que lhe perguntou se quem pratica rachadinha deveria ser preso.
A ABJD pediu explicações ao STF
observaçãoA fala do sapato 43 não foi sobre rachadinha, como circula em redes sociais: foi sobre propina em contratos de pedágio. A rachadinha apareceu em outro momento da mesma entrevista.
Pinochet, Câmera Aberta, Jô, ditadura, Maria do Rosário, CQC, Hebraica, Patrícia Campos Mello e atos de 2020: Wikipédia, que reúne as fontes originais; data do Câmera Aberta: TVMaze; Maria do Rosário: Agência Brasil, Migalhas e Conjur (cópia em agregador; link original não localizado); Ustra: Reuters, via Euronews; sapato 43: Metrópoles, Congresso em Foco e Conjur.
5. Pandemia
As vacinas que esperaram e a conta das mortes
As ofertas da Pfizernível 3 · apurado pela CPI
3Em depoimento à CPI da Covid em maio de 2021, o presidente da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo, disse que a empresa ofereceu vacinas ao Ministério da Saúde repetidas vezes entre agosto e novembro de 2020, sem resposta. A CPI apurou que uma carta enviada em setembro de 2020 ficou dois meses sem resposta. O contrato, de 100 milhões de doses, só foi assinado em março de 2021, e o primeiro milhão chegou no fim de abril.
Outro lado.5Bolsonaro disse que o acordo de 2021 foi melhor que a oferta de 2020 e citou incertezas jurídicas e sanitárias, já que a vacina ainda não tinha aprovação regulatória.
2O relatório final da CPI, de outubro de 2021, pediu o indiciamento de Bolsonaro e de integrantes do governo e enviou as conclusões ao STF e à PGR.
Desfecho.REm julho de 2022, a PGR, então chefiada por Augusto Aras, pediu o arquivamento de 7 das 10 apurações abertas a partir do relatório, por falta de elementos, incluindo a acusação de charlatanismo pela defesa de tratamentos sem eficácia. Para as compras de cloroquina e azitromicina, entendeu que não houve crime. O governo gastou cerca de R$ 90 milhões nesses medicamentos. Não localizamos o desfecho das três apurações restantes.
JOTA (cópia em agregador; link original não localizado); gasto: Wikipédia, citando a imprensa.
Estimativa de mortes evitáveis
Autor
Como foi calculada
120 mil
Jurema Werneck (Movimento Alerta)
Primeiro ano da pandemia, até março de 2021, se o país tivesse adotado distanciamento, restrições e fechamento de escolas e comércio
95,5 mil
Pedro Hallal (UFPel)
Efeito do atraso na compra das vacinas da Pfizer e da CoronaVac
145 mil
Pesquisadores da USP, citados por Hallal
Cronograma de vacinação mais rápido, incluindo a opção de 50% das doses do consórcio Covax, em vez de 10%
400 mil
Pedro Hallal (UFPel)
Mortes que o Brasil teria evitado se tivesse ficado na média mundial de mortos por milhão de habitantes, até junho de 2021
estimativaAs quatro contas medem coisas diferentes e não se somam. As duas primeiras isolam uma decisão; a de 400 mil compara o Brasil com o mundo e inclui tudo o que fez o país ficar acima da média, não só o governo federal. Senadores governistas contestaram os números na CPI.
O que foi dito, o que foi julgado e o que foi arquivado
Inelegível até 2030nível 1 · Justiça Eleitoral
1Em 30 de junho de 2023, o TSE declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, por 5 votos a 2, por abuso de poder político na reunião com embaixadores de julho de 2022, em que levantou suspeitas sem provas sobre as urnas eletrônicas. Em outubro de 2023, também por 5 a 2, o TSE o condenou de novo por usar as comemorações do 7 de Setembro de 2022 para fins eleitorais, com multa de R$ 425,6 mil.
Outro lado. Os dois ministros vencidos na primeira ação entenderam que ele exerceu sua liberdade de opinião. Bolsonaro chamou o julgamento de injusto e político.
A live que ligou vacina e Aidsnível 2 · PGR contra
5Em 21 de outubro de 2021, em live, Bolsonaro leu uma notícia para dizer que vacinados tinham mais chance de contrair Aids. Facebook e YouTube derrubaram o vídeo; a reportagem usada tratava de outro tipo de vacina, que não estava em uso.
2Em agosto de 2022, a PF concluiu que ele espalhou a desinformação "de forma direta, voluntária e consciente" e pediu ao STF o indiciamento dele e de Mauro Cid por incitação ao crime.
Desfecho. Em setembro de 2022, a PGR se manifestou contra o indiciamento. Não localizamos decisão final.
4Pela contagem do Aos Fatos, Bolsonaro fez 3.000 declarações falsas ou distorcidas até maio de 2021, média de 3,4 por dia.
JOTA (cópia em agregador; link original não localizado); Wikipédia, citando Aos Fatos e a imprensa.
O cartão de vacinanível 2 · arquivado
2Em março de 2024, a PF concluiu que Mauro Cid articulou a emissão de cartões de vacinação falsos para Bolsonaro e familiares, e indiciou o ex-presidente. Cid disse em delação que agiu por ordem dele.
Desfecho.REm 27 de março de 2025, a PGR pediu o arquivamento para Bolsonaro: a delação de Cid não foi confirmada por outras provas, e a lei proíbe denúncia baseada só na palavra do delator. Os dados falsos foram inseridos e apagados em dezembro de 2022, sem indício de uso do certificado. Segundo a imprensa, Moraes arquivou o caso.
RCarlos Decotelli foi anunciado ministro da Educação em junho de 2020 com doutorado pela Universidade de Rosário e pós-doutorado em Wuppertal. O reitor de Rosário disse que ele não obteve o título, e Wuppertal disse que não lhe deu título algum. Ele deixou o cargo cinco dias depois, sem tomar posse.
RRicardo Salles, ministro do Meio Ambiente, teve por anos um mestrado em Yale no currículo. Em 2019, Yale confirmou que ele nunca estudou lá; Salles atribuiu a informação a um assessor.
Dinheiro público durante a estadia nos EUAregistro público · apuração do TCU
REduardo mudou-se para os EUA em fevereiro de 2025. Em março, pediu licença não remunerada de 120 dias, mas, segundo O Globo, recebeu R$ 46 mil naquele mês. Voltou a receber salário em julho, cerca de R$ 17 mil, e o gabinete na Câmara continuou funcionando: R$ 123 mil por mês com oito funcionários, perto de R$ 1 milhão no total até novembro de 2025. A verba de gabinete não é cortada por faltas.
3O TCU pediu à Câmara que apurasse o uso de dinheiro público em uma viagem de Eduardo aos EUA. Não localizamos o resultado.
5Jair Bolsonaro disse que sustentava o filho com parte dos R$ 17 milhões doados por apoiadores via Pix em 2023. Esse dinheiro é privado. As contas de Eduardo foram bloqueadas por Moraes em 2025.
O que está comprovado. Os pagamentos constam do Portal da Transparência da Câmara. Não há decisão que os declare irregulares.
Mandato cassado e condenaçãonível 1 · mandado de prisão
RA Câmara cassou o mandato de Eduardo em dezembro de 2025: ele faltou a 63 das 78 sessões deliberativas do ano.
1Em 16 de junho de 2026, a 1ª Turma do STF o condenou por 4 a 0 a 4 anos e 2 meses em regime semiaberto, por coação no curso do processo: concluiu que ele articulou nos EUA o tarifaço contra exportações brasileiras e as sanções a Moraes para tentar evitar a condenação do pai. O recurso foi rejeitado em 18 de setembro. Em outro processo, foi condenado a 1 ano em regime aberto por difamar a deputada Tabata Amaral. Em 8 de outubro de 2026, Moraes determinou a expedição de mandado de prisão.
Outro lado.5Eduardo disse que ficaria nos EUA para não ser preso por Moraes, chamou a denúncia de falsa e os integrantes da PGR de "lacaios de Moraes". A Defensoria Pública da União, que fez sua defesa, pediu a absolvição.
O caso Master, com o "interlocutor direto", os R$ 61 milhões do filme "Dark Horse", os seis encontros e o patrimônio de Flávio, está no capítulo 5. Aqui ficam só os fatos novos:
3Inquérito no STF. Em 23 de julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu inquérito, a pedido da PF e com parecer favorável da PGR, para apurar suspeitas de lavagem, corrupção e evasão de divisas no financiamento de "Dark Horse". Flávio e Eduardo estão entre os investigados.
3Valor negociado. A negociação com Vorcaro foi de cerca de R$ 134 milhões, dos quais cerca de R$ 61 milhões foram transferidos. Flávio manteve contatos e cobranças depois de o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB.
RCampanha de 2022. Vorcaro foi o maior doador individual da campanha de Jair Bolsonaro em 2022, com R$ 3 milhões.
4Mansão. Segundo a Revista Fórum, a PF apura se o financiamento bancário da mansão de Flávio em Brasília, de 2021, tem relação com as negociações para o BRB comprar o Master. Fonte única até aqui.
Outro lado. A defesa de Flávio nega irregularidades. Flávio é candidato a presidente no segundo turno de 25 de outubro de 2026.
2A PGR denuncia Bolsonaro e outras 33 pessoas por tentativa de golpe de Estado.
26/3/2025
A 1ª Turma do STF aceita a denúncia: Bolsonaro e sete aliados viram réus.
18/7/2025
Moraes impõe tornozeleira, recolhimento noturno e proibição de usar redes sociais; a Turma confirma.
4/8/2025
Prisão domiciliar, por descumprir as medidas ao publicar conteúdo pelas contas dos filhos.
11/9/2025
1Condenado por 4 a 1 a 27 anos e 3 meses. Luiz Fux votou pela anulação.
Nov/2025
Recursos rejeitados; o processo transita em julgado.
22/11/2025
Preso na Superintendência da PF em Brasília, depois de tentativa de violar a tornozeleira.
Jan/2026
Moraes nega recurso baseado no voto de Fux e transfere Bolsonaro para a Papudinha, no Complexo da Papuda.
5/3/2026
A 1ª Turma nega, por unanimidade, novo pedido de prisão domiciliar.
24/3/2026
Prisão domiciliar humanitária por 90 dias, após internação por broncopneumonia, com parecer favorável da PGR.
3/7/2026
Moraes mantém a domiciliar, citando a melhora clínica e a ausência de falta grave.
Como atuou a defesa.ROs advogados Celso Vilardi e Paulo Cunha Bueno sustentaram que planejar não é crime sem ato de violência, que Bolsonaro mandou fazer a transição de governo e que nenhuma prova o liga ao plano "Punhal Verde e Amarelo", que previa matar Lula e Moraes. Cunha Bueno disse que condená-lo seria punir "a tentativa da tentativa". A defesa reclamou de não ter tido acesso nem tempo suficientes para analisar as provas, questionou a delação de Mauro Cid e pediu o afastamento de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin; os pedidos foram rejeitados. Flávio Bolsonaro lembrou que Dino foi ministro da Justiça de Lula e Zanin, advogado de Lula.
O voto divergente.RFux votou pela anulação por incompetência do STF, já que os réus não tinham mais cargo, e disse que os cerca de 70 terabytes de documentos configuraram um "tsunami de dados" que prejudicou a defesa.
Fora do tribunal. O governo Trump impôs tarifa de 50% a produtos brasileiros citando o processo, que chamou de "caça às bruxas".
O inquérito sem fim, as penas do 8 de janeiro e o caso Master
O inquérito das fake newsregistro público · questionado no STF
REm março de 2019, o então presidente do STF, Dias Toffoli, abriu de ofício, sem pedido do Ministério Público, um inquérito sobre ataques ao tribunal e entregou a relatoria a Moraes sem sorteio, sob protesto de Marco Aurélio Mello. A procuradora-geral Raquel Dodge pediu o arquivamento, e Moraes negou. Ainda em 2019, Moraes mandou retirar do ar uma reportagem da revista Crusoé sobre Toffoli, a pedido dele. Luiz Fux defendia na época que a investigação fosse entregue ao MP.
REm 2020, o plenário do STF julgou o inquérito constitucional, quase por unanimidade. Ele seguiu aberto por mais de seis anos e deu origem a outros, como o das milícias digitais, que envolve Bolsonaro e outras 22 pessoas.
3Em 9 de setembro de 2026, a relatoria passou para Edson Fachin. Em outubro, Fux pediu acesso integral aos autos para julgar ação do PP, de 2024, que questiona a abertura de ofício e a concentração de funções em Moraes. O pedido veio depois de Moraes receber fora da agenda o diretor-geral da PF e outros dois diretores.
JOTA (cópia em agregador; link original não localizado) e JOTA (cópia em agregador; link original não localizado); sorteio e PGR: Leandro Ruschel (crítico do inquérito); 2026: Times Brasil/CNBC.
As penas do 8 de janeironível 1 · em revisão
1Até abril de 2026, o STF condenou 1.402 pessoas pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, 431 delas a prisão. O caso mais citado pelos críticos é o da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, que pichou com batom a estátua da Justiça: 14 anos em regime fechado, por cinco crimes, entre eles golpe de Estado e associação criminosa armada.
5O ministro aposentado Celso de Mello defendeu a pena, dizendo que ela não se refere só à pichação, mas ao conjunto de crimes.
RO Congresso aprovou a Lei da Dosimetria para reduzir essas penas. Lula a vetou em 8 de janeiro de 2026; o veto foi derrubado em 30 de abril (318 a 144 na Câmara, 49 a 24 no Senado), e a Lei 15.402 foi promulgada em 8 de maio. Moraes suspendeu a aplicação da lei aos condenados do 8 de janeiro até o STF julgar duas ações que contestam sua constitucionalidade.
Moraes, Vorcaro e Mendonçanível 3 · em disputa no STF
3André Mendonça, relator do caso Master, pediu a abertura de investigação sobre a relação de Moraes com Daniel Vorcaro, depois que um relatório da PF reuniu 53 mensagens trocadas entre os dois. Moraes reagiu acusando Mendonça de possível abuso de autoridade, com base num documento de inteligência da PF sem autoria formal e que o próprio texto dizia não ter valor de prova. O contrato do escritório da mulher de Moraes com o Master está no capítulo 5.
REm 30 de julho de 2025, o governo Trump aplicou a Moraes sanções da Lei Magnitsky, acusando-o de uma campanha politicamente motivada para silenciar críticos; em setembro, estendeu as sanções à mulher dele, Viviane Barci de Moraes, e revogou o visto do ministro. A 1ª Turma do STF concluiu depois que Eduardo Bolsonaro articulou essas medidas (bloco 7).
Pela régua, o que tem condenação é a trama golpista (27 anos e 3 meses, em cumprimento), as duas inelegibilidades no TSE, a coação de Eduardo Bolsonaro e as indenizações por falas sobre Maria do Rosário, quilombolas e o CQC. A rachadinha de Flávio chegou a denúncia e foi anulada por questões de foro e de prova, sem julgamento do mérito. O cartão de vacina e a maior parte das conclusões da CPI foram arquivados a pedido da PGR; o caso das joias segue sem decisão. Os imóveis em dinheiro vivo não passaram de reportagem. O caso Master, com Flávio e Eduardo investigados, está aberto. As declarações são registros, e algumas viraram processo. As críticas a Moraes também têm base documental: o inquérito aberto de ofício, a relatoria sem sorteio, as penas questionadas e a disputa com Mendonça estão registrados, e parte delas está em julgamento no próprio STF.
Cuidados: situação em 9 de outubro de 2026, a 16 dias do segundo turno; casos em aberto (Master, joias, mandado contra Eduardo, inquérito das fake news) podem mudar a qualquer momento. Nível de prova não é grau de culpa: denúncia anulada não prova inocência, e reportagem não prova crime. Fontes únicas ou de veículos com posição política conhecida estão marcadas na lista de fontes de cada bloco.
Uma frase comum na política brasileira é que o STF é inclinado à esquerda, porque a maioria dos ministros foi indicada por Lula e Dilma. Este capítulo testa a frase com votos: quem indicou cada ministro e como cada um votou nos casos que mais dividiram o país, do mensalão ao 8 de janeiro.
A tese testada: "o STF é inclinado à esquerda". Se fosse verdade no sentido simples, os indicados por presidentes do PT votariam juntos e a favor do PT. Os quadros abaixo mostram, caso a caso, se isso aconteceu.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação defendida aquilinha de indicados por Lula ou Dilma
1. Quem indicou quem
Dez ministros, cinco presidentes e uma cadeira vazia
No Brasil, o presidente escolhe o ministro e o Senado aprova ou rejeita. O ministro fica até os 75 anos, por isso um presidente pode deixar indicados que votam por décadas depois dele.
Ministro
Indicado por
No STF desde
Gilmar Mendes
FHC
2002
Cármen Lúcia
Lula
2006
Dias Toffoli
Lula
2009
Luiz Fux
Dilma
2011
Edson Fachin (presidente)
Dilma
2015
Alexandre de Moraes (vice)
Temer
2017
Nunes Marques
Bolsonaro
2020
André Mendonça
Bolsonaro
2021
Cristiano Zanin
Lula
2023
Flávio Dino
Lula
2024
Vaga de Barroso
sem ocupante
desde out/2025
fatoHoje, 6 dos 10 ministros foram indicados por presidentes do PT: quatro por Lula e dois por Dilma. Zanin foi advogado de Lula na Lava Jato e Dino foi ministro da Justiça do governo Lula (capítulo 14, bloco 9).
fatoA 11ª cadeira está vazia desde outubro de 2025, quando Luís Roberto Barroso se aposentou antes do prazo. Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o Senado o rejeitou em 29 de abril de 2026, por 42 votos a 34. Em maio, Lula disse que enviaria o nome de Messias outra vez; até 9 de outubro, não localizamos nova indicação formal ao Senado.
fatoDesde 2003, os presidentes indicaram ao STF (contando só os aprovados pelo Senado):
Lula, 10 nomes: Cezar Peluso, Ayres Britto e Joaquim Barbosa (2003), Eros Grau (2004), Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia (2006), Menezes Direito (2007), Dias Toffoli (2009), Cristiano Zanin (2023) e Flávio Dino (2024).
Dilma, 5: Luiz Fux e Rosa Weber (2011), Teori Zavascki (2012), Luís Roberto Barroso (2013) e Edson Fachin (2015).
Temer, 1: Alexandre de Moraes (2017), na vaga de Teori, morto em acidente aéreo.
Bolsonaro, 2: Nunes Marques (2020) e André Mendonça (2021).
Um tribunal de maioria indicada pelo PT condenou a cúpula do partido
O julgamento começou em agosto de 2012. Dos 11 ministros que o abriram, 8 tinham sido indicados por Lula ou Dilma.
fatoO processo durou quatro meses e meio e terminou com 25 condenados entre 38 denunciados. José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil de Lula, foi apontado como chefe do núcleo político; José Genoino, ex-presidente do PT, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro, também foram condenados.
Corrupção ativa, José Dirceu (outubro de 2012)
Indicado por
Condenou
Absolveu
Lula
Joaquim Barbosa, Ayres Britto, Cármen Lúcia
Lewandowski, Toffoli
Dilma
Rosa Weber, Fux
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC), Marco Aurélio (Collor), Celso de Mello (Sarney)
fatoResultado: 8 a 2 para "Condenou". Indicados por Lula e Dilma: 5 em "Condenou" e 2 em "Absolveu". Demais: 3 e 0.
fatoGenoino foi condenado pelo mesmo crime por 9 a 1; só Lewandowski votou pela absolvição. As penas: Dirceu, 10 anos e 10 meses (7 anos e 11 meses por corrupção ativa e 2 anos e 11 meses por quadrilha); Genoino, 6 anos e 11 meses.
fatoEm 15 de novembro de 2013, Joaquim Barbosa, relator do caso e então presidente do STF, expediu os mandados de prisão. Genoino e Dirceu se entregaram à Polícia Federal no mesmo dia.
fatoEm fevereiro de 2014, com recursos chamados embargos infringentes, o STF reviu só a condenação por quadrilha. Ayres Britto e Cezar Peluso já tinham deixado a corte, e os dois substitutos, indicados por Dilma, votaram pela absolvição:
Formação de quadrilha, recurso (fevereiro de 2014)
Indicado por
Manteve a condenação
Absolveu
Lula
Joaquim Barbosa
Lewandowski, Toffoli, Cármen Lúcia
Dilma
Fux
Barroso, Teori, Rosa Weber
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC), Marco Aurélio (Collor), Celso de Mello (Sarney)
fatoResultado: 6 a 5 para "Absolveu". Indicados por Lula e Dilma: 2 em "Manteve a condenação" e 6 em "Absolveu". Demais: 3 e 0. Os seis votos pela absolvição estão nas fontes; os cinco contrários são os demais ministros da época.
fatoCom a absolvição por quadrilha, a pena de Dirceu caiu para 7 anos e 11 meses e a de Genoino para 4 anos e 8 meses, ambas em regime semiaberto.
Condenado, preso, solto e com as condenações anuladas
O caso do tríplex do Guarujá passou por três tribunais e voltou ao STF três vezes. A linha do tempo:
12/7/2017.fatoO juiz Sergio Moro condena Lula a 9 anos e 6 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
24/1/2018.fatoA 8ª Turma do TRF-4 mantém a condenação por 3 a 0 e aumenta a pena para 12 anos e 1 mês.
4 e 5/4/2018.fatoO STF nega o habeas corpus de Lula por 6 a 5 (quadro abaixo). Lula se entrega em 7 de abril.
Abril de 2019.fatoO STJ mantém a condenação e reduz a pena para 8 anos e 10 meses.
8/11/2019.fatoLula é solto um dia depois de o STF proibir a prisão antes do fim de todos os recursos (bloco 5).
8/3/2021.fatoEdson Fachin anula as condenações de Lula, por entender que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar esses casos.
23/3/2021.fatoA 2ª Turma declara Moro suspeito (parcial) no caso do tríplex.
Janeiro de 2022.fatoA Justiça Federal do DF declara o caso prescrito e o arquiva. O mérito nunca foi julgado de novo.
Habeas corpus de Lula (abril de 2018)
Indicado por
Negou: Lula pôde ser preso
Concedeu
Lula
Cármen Lúcia
Toffoli, Lewandowski
Dilma
Fachin, Barroso, Rosa Weber, Fux
Temer
Moraes
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC), Marco Aurélio (Collor), Celso de Mello (Sarney)
fatoResultado: 6 a 5 para "Negou: Lula pôde ser preso". Indicados por Lula e Dilma: 5 em "Negou: Lula pôde ser preso" e 2 em "Concedeu". Demais: 1 e 3.
fatoRosa Weber disse que considerava inconstitucional prender antes do fim dos recursos, mas votou contra o habeas corpus para seguir o entendimento que a corte tinha na época.
Anulação das condenações, plenário (abril de 2021)
Indicado por
Anulou
Manteve as condenações
Lula
Toffoli, Lewandowski, Cármen Lúcia
Dilma
Fachin, Rosa Weber, Barroso
Fux
Temer
Moraes
Bolsonaro
Nunes Marques
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC)
Marco Aurélio (Collor)
fatoResultado: 8 a 3 para "Anulou". Indicados por Lula e Dilma: 6 em "Anulou" e 1 em "Manteve as condenações". Demais: 2 e 2.
Suspeição de Moro, 2ª Turma (março de 2021)
Indicado por
Moro foi parcial
Moro não foi parcial
Lula
Lewandowski, Cármen Lúcia
Dilma
Fachin
Bolsonaro
Nunes Marques
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC)
fatoResultado: 3 a 2 para "Moro foi parcial". Indicados por Lula e Dilma: 2 em "Moro foi parcial" e 1 em "Moro não foi parcial". Demais: 1 e 1. Cármen Lúcia tinha votado contra a suspeição em 2018 e mudou o voto.
Suspeição de Moro, plenário (abril a junho de 2021)
Indicado por
Manteve a decisão da Turma
Derrubaria a decisão
Lula
Lewandowski, Toffoli, Cármen Lúcia
Dilma
Rosa Weber
Fachin, Barroso, Fux
Temer
Moraes
Bolsonaro
Nunes Marques
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC)
Marco Aurélio (Collor)
fatoResultado: 7 a 4 para "Manteve a decisão da Turma". Indicados por Lula e Dilma: 4 em "Manteve a decisão da Turma" e 3 em "Derrubaria a decisão". Demais: 3 e 1. Nunes Marques votou contra a suspeição na Turma, mas no plenário acompanhou a tese de que a decisão da Turma não podia ser revista.
fatoEm setembro de 2023, Dias Toffoli anulou todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht, a pedido de Lula, e escreveu que a prisão dele foi "um dos maiores erros judiciários da história do país". A associação nacional dos procuradores da República recorreu, dizendo que a decisão extrapolou os limites legais.
Do PSDB e do governo Temer à relatoria dos casos de Bolsonaro
Moraes é o ministro mais citado por quem diz que o STF age contra a direita. A trajetória dele:
A partir de 1991.fatoPromotor de Justiça em São Paulo.
2002 a 2005.fatoSecretário de Justiça do estado de São Paulo, no governo Alckmin. Depois, conselheiro do CNJ.
Partidos.fatoFoi filiado ao DEM, ao PMDB e ao PSDB. Foi secretário de Transportes da capital paulista na gestão Kassab.
Jan/2015 a mai/2016.fatoSecretário de Segurança Pública de São Paulo, no governo Geraldo Alckmin (PSDB).
Mai/2016 a fev/2017.fatoMinistro da Justiça de Michel Temer, nomeado durante o processo de impeachment de Dilma.
6/2/2017.fatoTemer o indica ao STF para a vaga de Teori. Moraes pede desfiliação do PSDB. A oposição da época dizia que a indicação servia para proteger o governo Temer de investigações.
22/2/2017.fatoO Senado aprova o nome por 55 a 13.
Ago/2022 a jun/2024.fatoPreside o TSE e conduz a eleição de 2022.
Hoje.fatoVice-presidente do STF. Foi relator da trama golpista que condenou Bolsonaro e do inquérito das fake news, alvo de sanções dos EUA e parte de uma disputa com André Mendonça no caso Master. Esses pontos estão detalhados no capítulo 14, blocos 9 e 10.
Como Moraes votou nos casos deste capítulo:
Caso
Voto de Moraes
Habeas corpus de Lula (2018)
Negou
Prisão em segunda instância (2019)
A favor da prisão
Anulação das condenações de Lula (2021)
Anulou
Suspeição de Moro, plenário (2021)
Manteve
Terceirização (2018)
Liberou
Homofobia como crime (2019)
Criminalizou
Marco temporal (2023)
Contra a tese
Trama golpista (2025)
Relator; condenou
hipóteseO indicado de Temer votou contra Lula em 2018 e 2019, a favor dele em 2021 e com as empresas na terceirização. O padrão dos votos dele não coincide com o de nenhum partido.
Prisão, trabalho, aposentadoria, golpe, terras indígenas e homofobia
Se o tribunal votasse por bloco, cada quadro teria os indicados do PT de um lado e os demais do outro. Veja o que aconteceu.
Prisão em segunda instância
fatoA pergunta: um condenado pode ser preso depois da segunda instância, ou só depois de esgotar todos os recursos? Em 2016 e em 2019, o STF deu respostas opostas, nas duas vezes por 6 a 5.
Outubro de 2016
Indicado por
Permitiu a prisão
Exigiu o fim dos recursos
Lula
Cármen Lúcia
Lewandowski, Toffoli
Dilma
Fachin, Teori, Barroso, Fux
Rosa Weber
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC)
Celso de Mello (Sarney), Marco Aurélio (Collor)
fatoResultado: 6 a 5 para "Permitiu a prisão". Indicados por Lula e Dilma: 5 em "Permitiu a prisão" e 3 em "Exigiu o fim dos recursos". Demais: 1 e 2.
Novembro de 2019 (a decisão que soltou Lula)
Indicado por
Permitiu a prisão
Exigiu o fim dos recursos
Lula
Cármen Lúcia
Lewandowski, Toffoli
Dilma
Fachin, Barroso, Fux
Rosa Weber
Temer
Moraes
FHC, Sarney ou Collor
Marco Aurélio (Collor), Gilmar Mendes (FHC), Celso de Mello (Sarney)
fatoResultado: 6 a 5 para "Exigiu o fim dos recursos". Indicados por Lula e Dilma: 4 em "Permitiu a prisão" e 3 em "Exigiu o fim dos recursos". Demais: 1 e 3. Gilmar Mendes mudou de lado entre 2016 e 2019.
Terceirização e contribuição sindical (2018)
Terceirização da atividade principal das empresas (agosto de 2018)
Indicado por
Liberou
Votou contra
Lula
Toffoli, Cármen Lúcia
Lewandowski
Dilma
Barroso, Fux
Fachin, Rosa Weber
Temer
Moraes
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC), Celso de Mello (Sarney)
Marco Aurélio (Collor)
fatoResultado: 7 a 4 para "Liberou". Indicados por Lula e Dilma: 4 em "Liberou" e 3 em "Votou contra". Demais: 3 e 1.
fatoEm junho de 2018, por 6 a 3, o STF manteve o fim da contribuição sindical obrigatória, criado pela reforma trabalhista de Temer. Os três votos pela volta da cobrança foram de Fachin, Rosa Weber e Toffoli, indicados por Dilma e Lula. A maioria foi aberta por Fux e acompanhada por Barroso, também indicados por Dilma.
Revisão da vida toda (aposentadorias do INSS)
fatoA revisão permitiria a aposentados incluir no cálculo salários de antes de 1994. O STF aprovou a tese em 2022, por 6 a 5, e a derrubou em 2024, por 7 a 4, depois de mudanças na composição. A União estimava um custo de até R$ 480 bilhões. Em novembro de 2025, ao confirmar a derrubada:
Revisão da vida toda (novembro de 2025)
Indicado por
Contra a revisão (posição do INSS)
A favor dos aposentados
Lula
Zanin, Cármen Lúcia, Toffoli
Dilma
Barroso, Fux
Fachin
Temer
Moraes
Bolsonaro
Nunes Marques
Mendonça
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC)
fatoResultado: 8 a 2 para "Contra a revisão (posição do INSS)". Indicados por Lula e Dilma: 5 em "Contra a revisão (posição do INSS)" e 1 em "A favor dos aposentados". Demais: 3 e 1. Rosa Weber, já aposentada, tinha votado antes no mesmo sentido de Mendonça.
hipóteseAqui o governo Lula, por meio da AGU e do INSS, defendia o lado vencedor. A divergência a favor dos aposentados foi aberta por um indicado de Bolsonaro, André Mendonça.
8 de janeiro: o primeiro réu
fatoEm setembro de 2023, todos os ministros condenaram Aécio Lúcio Costa Pereira, preso dentro do Senado. A divergência foi sobre os crimes e a pena:
Indicado por
Ministro
Pena proposta
Temer
Moraes (relator)
17 anos, pelos cinco crimes
Dilma
Fachin, Fux e Rosa Weber
17 anos
Lula
Toffoli e Cármen Lúcia
17 anos
FHC
Gilmar Mendes
17 anos
Lula
Zanin
15 anos
Dilma
Barroso
10 anos
Bolsonaro
Mendonça
8 anos, sem o crime de golpe de Estado
Bolsonaro
Nunes Marques
2 anos e 6 meses, só por dano ao patrimônio
fatoOs dois indicados de Bolsonaro foram os únicos a não reconhecer o crime de golpe de Estado. A controvérsia posterior sobre o tamanho das penas está no capítulo 14, bloco 10.
Trama golpista (1ª Turma, setembro de 2025)
Condenação de Jair Bolsonaro
Indicado por
Condenou
Votou pela anulação
Lula
Dino, Cármen Lúcia, Zanin
Dilma
Fux
Temer
Moraes
fatoResultado: 4 a 1 para "Condenou". Indicados por Lula e Dilma: 3 em "Condenou" e 1 em "Votou pela anulação". Demais: 1 e 0.
Pautas de costumes e de terra
Homofobia e transfobia como crime (junho de 2019)
Indicado por
Criminalizou
Votou contra
Lula
Cármen Lúcia
Lewandowski, Toffoli
Dilma
Fachin, Barroso, Rosa Weber, Fux
Temer
Moraes
FHC, Sarney ou Collor
Celso de Mello (Sarney), Gilmar Mendes (FHC)
Marco Aurélio (Collor)
fatoResultado: 8 a 3 para "Criminalizou". Indicados por Lula e Dilma: 5 em "Criminalizou" e 2 em "Votou contra". Demais: 3 e 1. Os três vencidos disseram que cabia ao Congresso, e não ao STF, criar o crime.
Marco temporal das terras indígenas (setembro de 2023)
Indicado por
Rejeitou a tese
Aprovou a tese
Lula
Zanin, Toffoli, Cármen Lúcia
Dilma
Fachin, Barroso, Fux, Rosa Weber
Temer
Moraes
Bolsonaro
Nunes Marques, Mendonça
FHC, Sarney ou Collor
Gilmar Mendes (FHC)
fatoResultado: 9 a 2 para "Rejeitou a tese". Indicados por Lula e Dilma: 7 em "Rejeitou a tese" e 0 em "Aprovou a tese". Demais: 2 e 2.
Somando os dez casos
Para cada caso, a segunda coluna indica o lado que o PT ou a esquerda defendia. Essa classificação é nossa. As outras colunas contam quantos ministros votaram nesse lado.
Caso
Lado associado à esquerda hipótese
Indicados por Lula e Dilma
Demais indicados
Mensalão: Dirceu (2012)
Absolver
2 de 7
0 de 3
Mensalão: quadrilha (2014)
Absolver
6 de 8
0 de 3
Habeas corpus de Lula (2018)
Conceder
2 de 7
3 de 4
Segunda instância (2019)
Exigir o fim dos recursos
3 de 7
3 de 4
Anulação das condenações (2021)
Anular
6 de 7
2 de 4
Suspeição de Moro, plenário (2021)
Manter
4 de 7
3 de 4
Terceirização (2018)
Vetar
3 de 7
1 de 4
Homofobia (2019)
Criminalizar
5 de 7
3 de 4
Marco temporal (2023)
Rejeitar a tese
7 de 7
2 de 4
Trama golpista (2025)
Condenar
3 de 4
1 de 1
Total
41 de 68 (60%)
18 de 35 (51%)
fatoA contagem é feita a partir dos quadros acima. hipóteseOs indicados por Lula e Dilma votaram com o lado associado à esquerda um pouco mais vezes que os demais, mas dividiram-se em quase todos os casos. Em quatro dos dez, a maioria deles votou contra esse lado: Dirceu, habeas corpus de Lula, segunda instância e terceirização.
A direita, a esquerda e quem critica o modo de decidir
O STF é criticado pelos dois lados, muitas vezes pelas mesmas decisões vistas de ângulos opostos.
Pela direita: o STF legisla no lugar do Congresso.
fatoEm junho de 2019, Bolsonaro disse que a decisão que criminalizou a homofobia era equivocada e que o STF estava "legislando". O Senado afirmou respeitar a decisão, mas rejeitou a acusação de que foi omisso.
fatoEm 2024, o STF decidiu que portar até 40 gramas de maconha para uso próprio não configura tráfico. Críticos citam o caso como mais um exemplo de decisão que caberia ao Congresso.
fatoDepois de o STF derrubar o marco temporal, o Senado aprovou a tese em lei por 43 a 21, e frentes parlamentares, o PL e o Novo lançaram um movimento contra o que chamaram de usurpação de competência.
Pela esquerda: o STF deixou a Lava Jato avançar e validou reformas contra trabalhadores.
fatoEm março de 2016, numa conversa gravada com Sérgio Machado, o senador Romero Jucá falou em um pacto nacional para conter a Lava Jato depois da queda de Dilma, "com o Supremo, com tudo", e disse ter conversado com ministros do STF, sem citar nomes. A gravação foi revelada em maio de 2016.
fatoO mesmo tribunal permitiu a prisão em segunda instância em 2016, negou o habeas corpus de Lula em 2018 e validou a terceirização e o fim da contribuição sindical obrigatória (bloco 5).
Dos dois lados: decisões tomadas por um ministro só.
fatoEm 2020, segundo dados do próprio STF, a corte emitiu 81.161 decisões individuais (monocráticas) e 18.208 decisões de turma ou plenário.
fatoEm dezembro de 2022, o STF mudou o regimento: pedidos de vista passaram a ter prazo de 90 dias, e decisões urgentes de um ministro passaram a ir logo ao plenário virtual. Em novembro de 2023, o Senado aprovou por 52 a 18 a PEC 8/2021, que proíbe decisão individual suspendendo leis e atos dos presidentes da República, da Câmara e do Senado. A proposta seguiu para a Câmara.
fatoExemplos de decisões individuais de grande efeito: a anulação das provas da Odebrecht por Toffoli (bloco 3), que o Estadão chamou de revisionismo histórico, e o inquérito das fake news, aberto de ofício em 2019 e conduzido por Moraes (capítulo 14, bloco 10).
A frase "o STF é inclinado à esquerda" acerta um fato: 6 dos 10 ministros atuais foram indicados por Lula ou Dilma. O resto da frase não passa no teste dos votos. Foi um tribunal de maioria indicada pelo PT que condenou e prendeu a cúpula do partido no mensalão, negou o habeas corpus que levou Lula à prisão e validou a terceirização e o fim do imposto sindical. Esse mesmo tribunal, com outra composição, anulou as condenações de Lula e declarou Moro parcial, com votos de indicados de FHC e de Temer. Nos dez casos somados, os indicados do PT votaram com o lado associado à esquerda em 60% das vezes, contra 51% dos demais, e se dividiram em quase todos. O grupo que mais votou junto foi o dos dois indicados de Bolsonaro, no 8 de janeiro e no marco temporal. As críticas ao modo de decidir, com muitas decisões individuais e inquéritos abertos pelo próprio tribunal, vêm dos dois lados e têm base documental.
Cuidados: os dez casos foram escolhidos por serem os mais citados no debate, e não formam uma amostra estatística das quase 100 mil decisões que o STF emitiu só em 2020. A coluna "lado associado à esquerda" é uma classificação nossa, e em alguns casos discutível: na revisão da vida toda, por exemplo, o governo Lula estava do lado contrário ao dos aposentados, e por isso o caso ficou fora da soma. Votos de Turma envolvem só cinco ministros. Situação em 9 de outubro de 2026, com uma vaga aberta no tribunal.
Feminicídio, drogas e aborto: o que os números mostram
Três temas que aparecem em sermões, campanhas e julgamentos do STF. Este capítulo reúne os dados oficiais e as pesquisas sobre cada um, explica como os números são produzidos e apresenta os argumentos de quem defende e de quem rejeita mudanças na lei, sem tomar partido.
As perguntas: o feminicídio cresceu ou só passou a ser registrado? Quem é preso por tráfico no Brasil? Quantos abortos acontecem num país que proíbe o procedimento, e o que pensa a população?
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação a testar
Uma lei de 2015 criou a categoria, e cada polícia começou a usá-la num ritmo
Feminicídio é o assassinato de uma mulher por razões de gênero: em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo à condição de mulher. Antes de 2015, essas mortes entravam na estatística como homicídio comum.
fatoA Lei 13.104, de 9 de março de 2015, incluiu o feminicídio no Código Penal como qualificadora do homicídio. Em 2024, a Lei 14.994 o transformou em crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos, a maior do Código Penal.
fatoO número de feminicídios vem dos boletins de ocorrência das Polícias Civis. Ele reflete a classificação dada pelo delegado no registro, que pode mudar durante a investigação ou no Ministério Público.
fatoA adoção foi gradual. No Rio de Janeiro, a Polícia Civil só passou a registrar feminicídio a partir de outubro de 2016, com base na Lei Estadual 7.448/2016. Em São Paulo, a Secretaria de Segurança diz que os delegados incluem a qualificadora desde 2015, mas a série oficial do estado só começa em 2018. Em 2016, vários estados nem informavam o dado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
fatoA parcela dos homicídios de mulheres registrada como feminicídio saiu de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024, segundo o FBSP. A promotora Valéria Scarance, do Ministério Público de São Paulo, resumiu o efeito em 2019: o total de mortes é um número absoluto, mas o de feminicídios varia conforme a interpretação no momento do registro.
Ano
Feminicídios registrados (polícias)
Homicídios de mulheres (Ministério da Saúde)
2013
categoria não existia
4.762
2015
449 (lei vigente a partir de março)
sem dado verificado
2016
929
sem dado verificado
2017
1.075
pico da série: 4,7 por 100 mil mulheres
2018
1.229
sem dado verificado
2019
1.330
sem dado verificado
2020
1.354
sem dado verificado
2021
1.347
sem dado verificado
2022
1.455
3.806
2023
1.475
3.903 (3,5 por 100 mil)
2024
1.492 (revisado para 1.504)
3.642 (3,4 por 100 mil, menor da série)
2025
1.568 a 1.571
ainda não publicado
fatoAs fontes oficiais divergem. Para 2025, o FBSP contou 1.571 feminicídios; o Sinesp, do Ministério da Justiça, 1.470, com dados de dezembro ainda faltando para Alagoas, Paraíba, Pernambuco e São Paulo.
As mortes de mulheres caíram; as que acontecem dentro de casa, não
O registro de óbitos do Ministério da Saúde (SIM) conta todas as mulheres assassinadas, sem depender da classificação policial. Por isso o Atlas da Violência, do Ipea com o FBSP, usa essa série como medida mais estável.
fatoO número de homicídios de mulheres caiu 27,7% entre 2014 e 2024. A queda veio dos crimes fora de casa, cuja taxa foi de 3,47 para 2,17 por 100 mil mulheres. Os assassinatos dentro de casa ficaram estáveis no período.
fatoEm 2024, 67,5% das mulheres assassinadas eram negras (2.457 vítimas). Entre as vítimas de feminicídio de 2021 a 2024, 59,4% foram mortas pelo companheiro e 21,3% pelo ex; 66,3% dos casos aconteceram na residência.
hipóteseA mudança no registro explica a maior parte do aumento dos feminicídios desde 2015: a parcela classificada saltou de 9,4% para 40,3%, enquanto o total de mulheres assassinadas caiu.
fatoO próprio FBSP faz uma ressalva a essa leitura. Reconhece que parte do crescimento vem da melhora dos registros, mas afirma que pesquisas de vitimização e a alta de outros crimes contra mulheres, como ameaça, perseguição e tentativa de feminicídio, indicam aumento real da violência. Para o salto de 4,7% entre 2024 e 2025, diz que ele não pode ser atribuído só ao aprimoramento dos registros.
São Paulo concentra o maior aumento; Rio e Minas crescem menos
Segurança pública é responsabilidade principal dos estados: as Polícias Civil e Militar respondem aos governadores (Constituição, art. 144, §6º). Por isso a comparação é feita por estado, com quem governava em cada período.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, 2015 a 2025
Estado
2015
2016
2017
2018
2019
2020
2021
2022
2023
2024
2025
SP
85
90
104 a 131
117 a 148
184
179
136
195
221
253
270
MG
sem dado
sem dado
150
156
146
151
155
175
186
163
177
RJ
sem dado
16 (out. a dez.)
68
70 a 71
85
78
85
111
99
107
104
fatoAs faixas existem porque fontes oficiais publicaram números diferentes para o mesmo ano. Para SP em 2018, a Secretaria de Segurança informou 148 casos ao Estadão em 2019; o Anuário 2019 do FBSP registrou 117; a série atual da Secretaria mostra 136.
Estado
Governadores (partido)
SP
Geraldo Alckmin (PSDB), 2015 a abr/2018 · Márcio França (PSB), abr a dez/2018 · João Doria (PSDB), 2019 a mar/2022 · Rodrigo Garcia (PSDB), abr a dez/2022 · Tarcísio de Freitas (Republicanos), 2023 a 2025
MG
Fernando Pimentel (PT), 2015 a 2018 · Romeu Zema (Novo), 2019 a 2025
RJ
Luiz Fernando Pezão (MDB), 2015 a 2018, com Francisco Dornelles (PP) no exercício do cargo em parte de 2016 e no fim de 2018 · Wilson Witzel (PSC), 2019 a ago/2020, afastado · Cláudio Castro (PSC, depois PL), ago/2020 a mar/2026, quando renunciou
estimativaTomando 2017 como primeiro ano completo nos três estados, de 2017 a 2025 SP sobe entre 139 e 166 casos, RJ sobe 36 e MG sobe 27. No RJ, quase todo o salto aparente desde 2016 vem de o registro ter começado em outubro daquele ano.
estimativaEm SP, o feminicídio era 27% dos 548 homicídios dolosos de mulheres em 2018. Em 2024, comparando os 253 feminicídios registrados pela polícia com os 351 homicídios de mulheres do Ministério da Saúde, a parcela fica em cerca de 72%. Como as fontes são diferentes, a comparação é aproximada.
Os 27 estados (2017 e 2018 sem fonte verificada para 24 deles)
UF
2015
2016
2019
2020
2021
2022
2023
2024
2025
Governador eleito em 2022 (partido na eleição)
AC
s/d
s/d
11
11
12
9
10
8
14
Gladson Cameli (PP)
AL
9
35
44
35
25
31
18
22
29
Paulo Dantas (MDB)
AP
s/d
s/d
7
9
4
9
4
2
9
Clécio Luís (Solidariedade)
AM
s/d
s/d
12
16
23
21
23
29
20
Wilson Lima (União Brasil)
BA
s/d
18
101
114
93
107
115
111
102
Jerônimo Rodrigues (PT)
CE
s/d
s/d
34
27
31
29
42
41
47
Elmano de Freitas (PT)
DF
5
21
32
17
25
22
31
23
28
Ibaneis Rocha (MDB)
ES
58
34
35
26
38
35
35
39
35
Renato Casagrande (PSB)
GO
26
18
41
43
54
55
56
56
59
Ronaldo Caiado (União Brasil)
MA
s/d
s/d
51
65
58
69
50
69
51
Carlos Brandão (PSB)
MT
s/d
s/d
38
62
43
47
46
47
53
Mauro Mendes (União Brasil)
MS
16
34
30
43
33
44
30
35
39
Eduardo Riedel (PSDB)
MG
s/d
s/d
146
151
155
175
186
163
177
Romeu Zema (Novo)
PA
24
43
47
66
67
54
57
50
63
Helder Barbalho (MDB)
PB
4
8
36
35
32
26
34
26
36
João Azevêdo (PSB)
PR
22
20
89
73
75
77
81
109
87
Ratinho Júnior (PSD)
PE
s/d
75
57
75
87
72
82
77
88
Raquel Lyra (PSDB)
PI
26
31
29
31
37
24
28
40
37
Rafael Fonteles (PT)
RJ
s/d
16*
85
78
85
111
99
107
104
Cláudio Castro (PL)
RN
29
29
21
13
20
16
24
19
21
Fátima Bezerra (PT)
RS
99
96
97
80
96
111
85
72
80
Eduardo Leite (PSDB)
RO
s/d
s/d
6
13
16
23
21
13
25
Marcos Rocha (União Brasil)
RR
s/d
1
6
9
5
3
6
7
7
Antonio Denarium (PP)
SC
46
52
58
57
55
57
57
51
52
Jorginho Mello (PL)
SP
85
90
184
179
136
195
221
253
270
Tarcísio de Freitas (Republicanos)
SE
s/d
s/d
21
14
20
19
16
10
15
Fábio Mitidieri (PSD)
TO
s/d
s/d
10
9
22
14
18
13
20
Wanderlei Barbosa (Republicanos)
Brasil
449
621*
1.328
1.351
1.347
1.455
1.475
1.492
1.568
s/d: estado não informou. *RJ 2016 cobre só outubro a dezembro. *Brasil 2016: total da primeira divulgação, com os estados que informaram; a série revisada do FBSP registra 929. Valores de 2019 e 2020 são da divulgação de 2022; os totais nacionais revisados são 1.330 e 1.354.
estimativaEntre os estados que informaram em 2016, os maiores aumentos absolutos até 2025 foram SP (+180), RJ (+88, com a ressalva acima), BA (+84) e PR (+67). De 2019 a 2025, com todos os estados, os maiores foram SP (+86), MG e PE (+31 cada) e RJ e RO (+19 cada). Em percentual de 2021 a 2025, lideram Amapá (+125%), São Paulo (+99%) e Rondônia (+56%).
hipóteseComo o aumento registrado depende muito de quando e como cada Polícia Civil passou a classificar os casos, o quadro não permite atribuir a alta ou a queda a um governador ou partido específico.
A proteção depende de serviços que faltam nas cidades pequenas
fatoA União faz a lei penal, mantém o Ligue 180 e financia a Casa da Mulher Brasileira, com gestão compartilhada. Estados respondem pelas polícias, pelas Delegacias de Defesa da Mulher e pela Justiça; municípios, pela maior parte dos centros de referência e abrigos.
fatoEm 2024, cidades de até 100 mil habitantes tinham 41% da população feminina e 50% dos feminicídios. Só 5% delas tinham delegacia especializada, e mais de 70% não tinham nenhum serviço especializado de atendimento.
fatoNum levantamento com 16 estados, 13,1% das vítimas de feminicídio tinham medida protetiva em vigor quando foram mortas; 86,9% não tinham.
FBSP (2026), com dados da pesquisa MUNIC 2023 do IBGE.
2. Drogas · a lei de 2006
A lei tirou a prisão do usuário e endureceu a pena do traficante, sem dizer quem é quem
fatoA Lei 11.343, de agosto de 2006, retirou a pena de prisão para o porte para consumo próprio, que passou a ter advertência, serviços à comunidade ou curso educativo. Ao mesmo tempo, elevou a pena mínima do tráfico de 3 para 5 anos. A lei não fixou quantidade para separar uso de tráfico; a decisão ficou com o policial na abordagem e com o juiz.
fatoEm dezembro de 2006 havia 47 mil pessoas presas por tráfico e associação para o tráfico, num sistema com cerca de 340 mil presos. Em dezembro de 2023, eram 193 mil, alta de 311% em 17 anos, e os crimes de drogas respondiam por 25,7% da população prisional. Entre homens, a proporção quase dobrou entre 2006 e 2011 e se estabilizou perto de 25%. Entre mulheres, chegou a 58% em 2015 e era 39,6% em 2023.
fatoA população prisional total passou de 174 mil em 2000 para 964 mil em 2025, contando prisão domiciliar. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo.
Jovens, pouco escolarizados, presos em flagrante com pouca droga
O Ipea analisou uma amostra de 5.121 réus, representativa dos 41.100 sentenciados por tráfico na Justiça estadual no primeiro semestre de 2019.
Característica
Justiça estadual
Homens
87%
Menos de 30 anos
73,6%
No máximo o ensino fundamental
68,4%
Não brancos (entre os processos com cor registrada)
68,7%
Processos sem registro de cor
30%
Envolvimento com facção identificado
13%
Mediana de maconha apreendida (67,1% dos processos)
85 g
Mediana de cocaína apreendida (70,2% dos processos)
24 g
fatoNegros são 55,5% da população brasileira (Censo 2022) e 68% da população carcerária (Sisdepen, 2023).
fatoEm 87,4% dos casos o processo começa com prisão em flagrante, e só cerca de 20% começaram com a atuação de órgãos de investigação, como a Polícia Civil. Os pesquisadores consideram que o número de 13% de ligação com facção pode estar superestimado.
estimativaCom critérios objetivos de quantidade, entre 23% e 35% dos réus processados por tráfico portavam quantidades compatíveis com uso pessoal e poderiam ser tratados como usuários, conforme o limite adotado. O dado não permite dizer que a maioria dos presos é usuária.
O STF fixou 40 gramas de maconha; o Senado reagiu com uma PEC
fatoEm 26 de junho de 2024, no RE 635.659 (Tema 506), o STF decidiu que portar maconha para uso próprio continua ilícito, mas sem efeito penal, e fixou que se presume usuário quem tem até 40 gramas ou seis plantas fêmeas, até que o Congresso legisle. A presunção é relativa: o delegado pode afastá-la com justificativa, por exemplo se houver balança ou anotações de venda. A decisão vale só para maconha.
fatoEm 16 de abril de 2024, o Senado aprovou a PEC 45/2023, que inclui na Constituição a criminalização do porte de qualquer quantidade de droga. Na Câmara, a CCJ aprovou a admissibilidade em junho de 2024 e uma comissão especial foi criada no dia da decisão do STF. Até a data deste capítulo, não encontramos registro de votação em plenário.
fatoEm março de 2024, 67% dos brasileiros diziam que a posse de maconha deveria ser crime e 31% eram a favor de descriminalizar (Datafolha).
Proibição: os 183 países das três convenções da ONU sobre drogas (1961, 1971 e 1988) seguem, em regra, esse modelo
Portugal (2001)
Descriminalizou o porte de todas as drogas para uso pessoal, com sanção administrativa; produzir e vender seguem proibidos
Uruguai (2013)
Primeiro país a legalizar produção, venda e consumo de maconha; relatório de 2018 apontou que a maioria dos usuários ainda comprava no mercado ilegal
Canadá (2018)
Legalizou a maconha recreativa, com limite de 30 gramas em público
Alemanha (abril de 2024)
Permitiu porte de até 25 gramas em público e cultivo doméstico
Estados Unidos
Proibição federal; cerca de metade dos estados permite a venda
Quem defende critério objetivo ou descriminalização
Quem defende manter ou ampliar a criminalização
Barroso, então presidente do STF: sem critério de quantidade, um jovem rico da Zona Sul do Rio pego com 25 gramas é tratado como usuário, e um jovem pobre, como traficante.
André Mendonça, ministro do STF e pastor presbiteriano: votou contra e afirmou que o tribunal invadia atribuição do Congresso.
Moraes, no voto: polícia e Justiça tendem a classificar jovens e menos escolarizados como traficantes.
Frente Parlamentar Evangélica (deputado Eli Borges): a criminalização se liga à missão da igreja de proteger a integridade física e mental das pessoas diante do poder destrutivo das drogas.
Ipea e CNJ: o encarceramento por pequenas quantidades amplia a superlotação e fortalece facções dentro das prisões.
Igreja Católica: o Catecismo (§2291) classifica o uso de drogas fora de fins terapêuticos como falta grave. Em 2024, o presidente da CNBB ligou ao presidente do STF para expressar preocupação com a descriminalização.
Defensores citam Portugal como exemplo de saúde pública no lugar da prisão.
Críticos citam o Uruguai, onde o mercado ilegal persistiu, e afirmam que a flexibilização aumenta o consumo entre jovens.
Os argumentos acima são posições de cada lado, registradas nas fontes; não são conclusões deste site.
Três exceções, um julgamento parado e um projeto que equipara aborto a homicídio
fatoO Código Penal de 1940 pune o aborto, com exceção de dois casos: quando não há outro meio de salvar a vida da gestante e quando a gravidez resulta de estupro (art. 128). Em 2012, o STF incluiu a gestação de feto anencéfalo (ADPF 54).
fatoA ADPF 442, proposta pelo PSOL em 2017, pede que o aborto até a 12ª semana deixe de ser crime. Rosa Weber votou a favor em setembro de 2023, antes de se aposentar; Barroso votou a favor em outubro de 2025, também antes de se aposentar, ressalvando que é possível ser contra o aborto e contra a prisão da mulher. O placar está em 2 a 0, e Gilmar Mendes pediu destaque, o que leva o caso ao plenário presencial sem data. A CNBB pediu a anulação dos dois votos, alegando falhas de procedimento.
fatoEm 2024, a Câmara aprovou urgência para o PL 1.904/2024, do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), que equipara ao homicídio o aborto após 22 semanas, inclusive em caso de estupro. Não encontramos registro de votação do mérito.
Uma em cada sete mulheres aos 40 anos, segundo a pesquisa nacional
Como quase todo aborto no Brasil é ilegal, não existe registro direto. Os números vêm de pesquisa com entrevistas e de internações no SUS.
estimativaA Pesquisa Nacional de Aborto 2021 (Débora Diniz, Marcelo Medeiros e Alberto Madeiro) ouviu 2.000 mulheres alfabetizadas, de 18 a 39 anos, em áreas urbanas de 125 municípios. 10% disseram ter feito ao menos um aborto, contra 13% em 2016 e 15% em 2010. Projetada até os 40 anos, a proporção chega a cerca de uma em cada sete.
estimativaNa mesma pesquisa, 52% tinham 19 anos ou menos no primeiro aborto, e 43% precisaram ser hospitalizadas para concluí-lo (eram 55% em 2010). A pesquisa não cobre mulheres sem escolaridade nem moradoras da zona rural.
estimativaDe 2008 a 2015, o SUS registrou em média 200 mil internações por ano por procedimentos relacionados ao aborto, número que inclui abortos espontâneos. De 2006 a 2015, foram 770 mortes maternas com aborto como causa básica; um estudo da Fiocruz estima que o número real seja até cerca de 30% maior, por erro de classificação nas declarações de óbito.
A maioria rejeita a legalização e também o endurecimento
fatoDatafolha, junho de 2024: 38% querem proibir o aborto em qualquer caso, 34% preferem manter a lei como está e 24% querem ampliar o acesso. Em março de 2024, 52% achavam que a mulher que aborta deve ser presa, contra 58% em 2018.
fatoIpsos-Ipec, julho de 2025: 75% contra a legalização e 16% a favor.
PL 1.904 (aborto após 22 semanas como homicídio), Datafolha jun/2024
Contra
A favor
Total
66%
29%
Católicos (49% da amostra)
68%
28%
Evangélicos (30% da amostra)
57%
37%
O único recorte por religião encontrado em pesquisa recente foi sobre o PL 1.904; para a pergunta geral sobre a lei, não localizamos o cruzamento por religião.
estimativaEstudo publicado na Lancet Global Health em 2020 (Guttmacher Institute e OMS) estimou, para 2015 a 2019, taxas de aborto semelhantes em países onde ele é amplamente legal (40 por mil mulheres por ano) e onde é restrito (36 por mil). As menores taxas estavam em países ricos com aborto legal (11 por mil); em países ricos com restrição, eram 32 por mil.
País
Situação
Uruguai (2012)
Permitido até 12 semanas, 14 em caso de estupro
Argentina (dez/2020)
Lei 27.610: permitido até 14 semanas, sem exigir motivo
Colômbia (fev/2022)
Corte Constitucional descriminalizou até 24 semanas, por 5 a 4
México (set/2023)
Suprema Corte declarou inconstitucional punir o aborto em todo o país
Estados Unidos (jun/2022)
Decisão Dobbs retirou a proteção constitucional de 1973; cada estado decide
El Salvador, Nicarágua e Honduras
Proibição total
Quem defende descriminalizar
Quem defende manter ou ampliar a proibição
Rosa Weber, no voto: punir a mulher não é política eficaz e viola liberdade, autonomia e dignidade.
CNBB e frentes parlamentares contra o aborto: a vida começa na concepção e deve ser protegida desde então. A Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 4) protege a vida, em geral, desde a concepção.
Barroso, no voto: o aborto deve ser tratado como questão de saúde pública, e é possível ser contra o aborto e contra a prisão da mulher.
Lenise Garcia, do Movimento Brasil sem Aborto: muitas vezes o aborto não é escolha da mulher, e sim imposição masculina ou falta de apoio.
Pesquisadoras da PNA: as taxas de aborto não caem com a proibição, e a ilegalidade aumenta internações e mortes.
Críticos das estimativas: no Uruguai, o primeiro ano de legalização registrou 6.676 abortos, bem abaixo das estimativas de 33 mil usadas no debate, e o número subiu cerca de 20% no ano seguinte.
Os argumentos acima são posições de cada lado, registradas nas fontes; não são conclusões deste site.
Feminicídio: o número registrado subiu de 929 em 2016 para 1.571 em 2025, enquanto o total de mulheres assassinadas caiu cerca de 28% em dez anos, pela queda das mortes fora de casa. Boa parte do aumento vem de as polícias terem passado a classificar esses casos, em ritmos diferentes por estado: no Rio, o registro só começou em outubro de 2016. O FBSP ressalva que há também sinais de aumento real, sobretudo no último ano. São Paulo concentra o maior aumento absoluto. Drogas: a lei de 2006 tirou a prisão do usuário e endureceu a pena do traficante sem dizer quem é quem; os presos por tráfico passaram de 47 mil para 193 mil, majoritariamente jovens, pouco escolarizados e presos em flagrante, e entre 23% e 35% dos processados portavam quantidades de usuário. Aborto: a lei permite três exceções; a pesquisa nacional estima que uma em cada sete mulheres já abortou até os 40 anos, e a população rejeita tanto a legalização quanto o endurecimento proposto no PL 1.904.
Cuidados: os números de feminicídio por estado vêm de fontes que se revisam e às vezes divergem; para 2017 e 2018 só há dado verificado de SP, MG e RJ. A pesquisa do Ipea sobre tráfico é de processos de 2019. A Pesquisa Nacional de Aborto cobre só mulheres alfabetizadas de áreas urbanas. As internações no SUS incluem abortos espontâneos. Os argumentos de cada lado são registrados como posições, não como fatos. Situação em 9 de outubro de 2026: ADPF 442, PEC 45 e PL 1.904 seguem pendentes.
Bolsa Família: o que os dados dizem sobre trabalho, filhos e fraude
O programa existe desde 2003, mudou de nome duas vezes e desde outubro de 2026 paga no mínimo R$ 691 por família a cerca de 19 milhões de famílias. Este capítulo testa com estudos e dados oficiais a tese de que ele cria acomodação e desestimula o trabalho, e reúne o que se sabe sobre natalidade, efeitos sociais e irregularidades, com os argumentos de críticos e defensores.
A tese testada: o Bolsa Família faz as pessoas deixarem de procurar emprego e trabalharem menos.
fatodocumentadoestimativacom margem de errohipóteseinterpretação a testar
De 3,6 milhões de famílias em 2003 a cerca de 19 milhões hoje
O Bolsa Família paga dinheiro todo mês a famílias pobres, com exigências na saúde e na escola dos filhos. Entre o fim de 2021 e o início de 2023 ele se chamou Auxílio Brasil.
fatoFoi criado pela Medida Provisória 132, em outubro de 2003, juntando quatro programas que já existiam: Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação e Auxílio-Gás.
fatoA Lei 14.284, de 29 de dezembro de 2021, trocou o programa pelo Auxílio Brasil. Em agosto de 2022 o valor mínimo subiu de R$ 400 para R$ 600. A Lei 14.601, de junho de 2023, recriou o Bolsa Família no lugar do Auxílio Brasil.
fatoRegra atual: entra a família com renda de até R$ 218 por pessoa. Desde outubro de 2026, ela recebe R$ 164 por integrante, mais R$ 173 por criança de 0 a 6 anos e um adicional por integrante de 7 a 17 anos ou gestante, também reajustado. Antes do reajuste, os valores eram R$ 142, R$ 150 e R$ 50. Se a soma ficar abaixo do piso por família, o governo completa a diferença.
fatoEm 17 de setembro de 2026, a 17 dias do primeiro turno da eleição, o governo anunciou reajuste de 15,04%, a inflação pelo INPC desde 2023. O piso passou de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro de 2026, com custo extra de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027, segundo o Ministério da Fazenda. O ministro André Mendonça, do STF, entendeu que o aumento não fere a lei eleitoral; a Fiemg questionou o momento do anúncio.
fatoEm 2024 o programa transferiu R$ 168,3 bilhões. Para 2025, a lei do orçamento reservou cerca de R$ 158 bilhões.
Período
Gasto em % do PIB
Quem publicou
2003 a 2018
cerca de 0,5%
Ipea
até 2020
cerca de 0,5%
IFI (Senado)
depois de 2022
cerca de 1,2%
IFI (Senado)
2027, com o reajuste
deve ficar perto de 1,2%
IFI (Senado)
estimativaPara comparar o salto do período eleitoral e da pandemia: somando todas as transferências de renda, o Banco Mundial calcula 0,5% do PIB em 2019, 4% em 2020 (com o Auxílio Emergencial) e 1,2% no fim de 2022.
Com benefício pequeno, os estudos não acharam queda no trabalho
A preocupação dos críticos tem base na teoria econômica: quem recebe renda sem trabalhar pode trabalhar menos, e quem perde o benefício ao ganhar mais pode evitar a carteira assinada. A pergunta é o tamanho desse efeito na prática.
Estudo
Dados
O que encontrou
De Brauw, Gilligan, Hoddinott e Roy (IFPRI), revista Economic Development and Cultural Change, 2015
Painel de famílias, 2005 e 2009
Nenhum efeito significativo no total de participação nem de horas. Houve migração de horas do trabalho formal para o informal.
Gerard, Naritomi e Silva (Banco Mundial e CEPR), 2021
Expansão de 2009, comparando municípios
A expansão aumentou o emprego formal local. Perto do limite de renda há efeito negativo individual no trabalho formal, mas o dinheiro gasto no comércio local gerou mais vagas do que esse efeito tirou.
Banerjee, Hanna, Kreindler e Olken (MIT e Harvard), 2015
7 experimentos com sorteio em 6 países: Honduras, Indonésia, México, Marrocos, Nicarágua e Filipinas
Nenhuma evidência sistemática de que transferências de renda desestimulem o trabalho.
Com o benefício maior, há queda na participação; o tamanho é disputado
estimativaFGV Ibre (Daniel Duque, Carta do Ibre de agosto de 2025): entre as pessoas que podem receber o programa, a taxa de participação no mercado de trabalho caiu 11% em relação a quem não pode. Entre os recém-incluídos, a chance de estar ocupado caiu 12% e a de ter emprego formal, 13%. O efeito se concentra em homens de 14 a 30 anos, no Norte e no Nordeste. O autor propõe reduzir o benefício básico de R$ 600.
estimativaIpea (Nota Técnica Dinte 78, outubro de 2025): entre quem já recebia quando o valor subiu de R$ 400 para R$ 600, a participação no mercado de trabalho caiu de 2,2 a 4,7 pontos percentuais. Entre os que continuaram ocupados, a redução foi de 0 a 1 hora por semana, sem significância estatística forte. O efeito sobre ter carteira assinada foi nulo. Os autores chamam o efeito de real e pequeno.
fatoNo estudo do Ipea, quem saiu do mercado de trabalho era, em proporção maior que a média, desocupado, doméstico sem carteira, mulher com filho de até 10 anos, morador do Nordeste e da zona rural. Os motivos declarados: 34,4% cuidar da casa ou de parentes; 4,98% não querer trabalhar. Trabalhadores com carteira eram 12,6% dos beneficiários e 3,9% dos que saíram.
hipóteseOs dois estudos medem grupos diferentes: o Ipea olha quem já recebia; a FGV compara quem pode receber com quem não pode e destaca os recém-incluídos. Isso pode explicar parte da distância entre os números.
Beneficiários ficam com a maior parte das novas vagas, e saem mais rápido delas
fatoPelo Caged, em 2024, 1,27 milhão das 1,69 milhão de vagas com carteira criadas no país (75,5% do saldo) foram ocupadas por beneficiários do Bolsa Família. Em 2025, beneficiários e outros inscritos no Cadastro Único ficaram com 1,160 milhão das 1,274 milhão de vagas (91%), segundo o Ministério do Trabalho.
fatoO mesmo levantamento mostra que beneficiários ficam em média seis meses no emprego formal, contra mais de 14 meses dos inscritos no Cadastro Único sem benefício e mais de 20 meses dos demais trabalhadores.
hipóteseO saldo de vagas mostra que beneficiários são contratados, mas não responde se trabalhariam mais sem o benefício, que é o que os estudos acima tentam medir. A permanência curta pode refletir vagas de pior qualidade, o medo de perder o benefício ou as duas coisas; não encontramos estudo que separe as causas.
Os estudos não encontraram mais filhos por causa do benefício
O argumento crítico: se o valor cresce com o número de filhos, a família teria motivo para ter mais. O desenho antigo pagava por criança até um limite de cinco benefícios.
fatoSimões e Soares (Revista Brasileira de Economia, 2012), com dados da pesquisa nacional de demografia e saúde de 2006, não encontraram efeito do programa sobre a fecundidade das beneficiárias, ao menos no início do programa. Rocha (UFRJ) chega ao mesmo resultado com outro método. Uma revisão da literatura publicada pela USP lista a ausência de efeito na fecundidade entre os achados centrais sobre o programa.
fatoA taxa de fecundidade do Brasil caiu de 2,39 filhos por mulher em 2000 para 1,87 em 2010, período de expansão do programa. Os demógrafos José Eustáquio Alves e Suzana Cavenaghi (IBGE) mostram que a queda recente foi maior entre as mulheres mais pobres.
hipóteseOs estudos cobrem o desenho anterior a 2023. Não encontramos avaliação sobre o benefício por criança pequena, de R$ 150 e depois R$ 173; a pergunta continua aberta para o programa de hoje.
Pobreza e mortalidade infantil caem; vacinação tem resultado misto
Área
O que foi medido
Selo
Pobreza
Ipea (2019): cerca de 70% do dinheiro chegou aos 20% mais pobres; o programa reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25%, e responde por 10% da queda da desigualdade entre 2001 e 2015. Em 2017, 64% dos beneficiários seguiam em extrema pobreza, com valor médio de cerca de R$ 180.
estimativa
Economia local
Ipea (2013): cada R$ 1 no programa acrescenta R$ 1,78 ao PIB, por um modelo de simulação.
estimativa
Fome
IBGE: domicílios com insegurança alimentar grave caíram de 4,1% em 2023 para 3,2% em 2024, igual ao menor nível, de 2013. Em julho de 2025, a FAO tirou o Brasil do Mapa da Fome.
fato
Escola
Glewwe e Kassouf (2012): matrícula de 5,5% a 6,5% maior e abandono de 0,4 a 0,5 ponto menor. Os autores avaliam que o ganho futuro em salário pode não superar o custo. IFPRI: participação escolar 4,5% maior no total (significância fraca), 8,2% entre meninas; sem efeito médio na aprovação.
estimativa
Vacinação
Resultado misto. Estudo nacional com dados de 2005 e estudo em coortes de Ribeirão Preto e São Luís não acharam efeito. Em Araraquara, 92,1% das crianças beneficiárias estavam com vacinas em dia aos 12 meses, contra 85,1% das não beneficiárias, sem diferença na vacinação na idade certa.
estimativa
Mortalidade infantil
Rasella et al. (Lancet, 2013): em municípios com cobertura alta e consolidada, mortalidade de menores de 5 anos 17% menor; 65% menor por desnutrição e 53% menor por diarreia. Ramos et al. (PLoS Medicine, 2021), 6,3 milhões de crianças: mortalidade de 1 a 4 anos 17% menor entre beneficiárias.
estimativa
hipóteseA queda da fome em 2024 coincidiu com alta do emprego formal e do salário mínimo; nenhuma fonte encontrada separa a parte que cabe ao Bolsa Família. Os estudos de mortalidade são observacionais, não experimentos com sorteio, e por isso medem associação ajustada, não prova de causa.
O maior problema apareceu quando o valor passou a ser igual por família
"Irregular" nos relatórios de controle quer dizer que a família não cumpria a regra de entrada. Isso inclui renda que subiu sem atualização do cadastro, família declarada como de uma pessoa só e declaração falsa. Não é o mesmo que fraude criminal, que depende de investigação caso a caso.
Órgão e ano
O que encontrou
TCU, 2016 (Acórdão 1009/2016)
Cruzando Receita Federal, RAIS e INSS: 163.173 famílias com renda acima de quatro vezes o limite do programa.
TCU, 2022 (Auxílio Brasil)
Possibilidade de pagamentos irregulares acima de R$ 2 bilhões por mês, por inclusão indevida; o desenho favorecia famílias de uma pessoa, fora do público prioritário de crianças.
CGU, 2023
Famílias de uma pessoa no Cadastro Único passaram de 15 milhões para 22 milhões entre outubro de 2021 e dezembro de 2022, alta de 55%.
TCU, 2023 (Acórdão 2342/2023)
Visitas a 2.662 famílias, amostra das 21,1 milhões que recebiam em dezembro de 2022: renda divergente em 40,3% e composição familiar divergente em 33,4%; 22,5% não cumpriam os critérios. Pagamentos fora da regra estimados em R$ 14,24 bilhões de janeiro a maio de 2023, com projeção de R$ 34 bilhões até dezembro.
MDS, pente-fino de 2023
8,4 milhões de benefícios bloqueados para checagem, 7,1 milhões deles de famílias de uma pessoa; 3,7 milhões cancelados. No mesmo período, 2,85 milhões de famílias foram incluídas.
fatoO Banco Mundial calculou que, no Auxílio Brasil, uma família de uma pessoa recebia em média R$ 600 por pessoa, e uma família de quatro, R$ 150 por pessoa, o que incentivou o cadastro de famílias separadas.
hipóteseO índice de 22,5% do TCU vem da base herdada do Auxílio Brasil, medida antes do pente-fino de 2023. Os dados disponíveis não permitem dizer quanto dele era má-fé e quanto era cadastro desatualizado.
México acabou com o seu programa; os EUA pagam só a quem trabalha
País e programa
Como funciona
O que se mediu
México: Progresa (1997), depois Oportunidades e Prospera
Dinheiro condicionado a escola e saúde, como o Bolsa Família; foi o primeiro grande programa avaliado com sorteio de beneficiários
Encerrado em 2019 pelo governo López Obrador e trocado pelas Becas Benito Juárez. Depois do fim, a matrícula caiu, sobretudo entre meninos em idade de ensino médio, e o trabalho deles subiu (Parker, Márquez-Padilla e Vogl, NBER).
Estados Unidos: EITC
Crédito no imposto pago só a quem tem renda do trabalho
A revisão de Eissa e Hoynes aponta alta do emprego de mães solo: um estudo atribui ao EITC 60% da alta de 8,7 pontos entre 1984 e 1996, sem redução de horas; entre mães casadas, queda de cerca de 1 ponto. Kleven (NBER) contesta e diz que o efeito se confunde com a reforma da assistência social da mesma época.
Seis países em desenvolvimento
Programas de governo com sorteio de beneficiários
Reanálise de 7 experimentos sem evidência sistemática de desestímulo ao trabalho (ver bloco 2).
Não localizamos fonte verificada para comparar o gasto em % do PIB entre países; por isso a comparação fica no desenho e nos resultados.
FGV Ibre: o benefício de R$ 600 afastou jovens do emprego formal, e adiar o primeiro emprego reduz a renda futura; o valor básico deveria cair.
Ipea: o efeito do aumento é real e pequeno, concentrado em quem já tinha trabalho precário, e não uma mudança no comportamento da maioria.
Dados do Ministério do Trabalho: beneficiários ficam em média seis meses no emprego, menos da metade dos demais inscritos no Cadastro Único.
MDS e Ministério do Trabalho: beneficiários ocuparam a maior parte das vagas formais criadas em 2024 e 2025.
TCU e Banco Mundial: o valor igual por família, adotado em 2022, gerou cadastros divididos e pagamentos fora da regra.
Estudos de saúde: associação com menor mortalidade infantil, sobretudo por desnutrição e diarreia.
IFI: o gasto passou de 0,5% para cerca de 1,2% do PIB, e o reajuste de 2026 não estava no orçamento de 2027. A Fiemg questionou o anúncio às vésperas da eleição.
Ipea: o programa reduziu a extrema pobreza em 25% custando 0,5% do PIB no período avaliado.
As posições acima estão registradas nas fontes dos blocos anteriores; não são conclusões deste site.
Conclusão
A tese de que o Bolsa Família desestimula o trabalho não se confirmou nos estudos sobre o programa até 2021, quando o benefício era pequeno: as pesquisas acharam efeito nulo ou migração do trabalho formal para o informal, e em nível municipal mais emprego formal. Depois que o valor subiu para R$ 600, em 2022, os dois estudos disponíveis encontram queda na participação no mercado de trabalho: de 2,2 a 4,7 pontos entre quem já recebia (Ipea) e de 11% entre elegíveis (FGV Ibre), sem redução relevante de horas de quem continuou trabalhando. Não há evidência de que o benefício leve a mais filhos. Há associação com menos mortes de crianças e mais matrícula escolar, e resultado misto em vacinação. As irregularidades foram grandes no Auxílio Brasil, quando o valor era igual por família, e o custo subiu de cerca de 0,5% para cerca de 1,2% do PIB.
Cuidados: os estudos sobre trabalho depois de 2022 ainda são poucos, recentes e usam métodos diferentes. Nenhum avalia o desenho atual com o reajuste de outubro de 2026. Os números de vagas do Caged são saldo de contratações e não medem se as pessoas trabalhariam mais sem o benefício. O índice de 22,5% do TCU mede famílias fora da regra, não fraude comprovada. A série de famílias tem lacunas onde não encontramos dado verificado.
Esquerda, direita e comunismo: o que as palavras querem dizer
Poucas palavras são tão usadas e tão pouco explicadas no debate brasileiro. Este capítulo volta à origem de "esquerda" e "direita", pergunta se elas ainda dão conta da política de hoje, explica o que o comunismo propõe na teoria e o que aconteceu quando partidos comunistas chegaram ao poder, mostra como o medo do comunismo foi usado no Brasil e no mundo, e termina com uma pergunta concreta: onde ficam Lula e o PT nesse mapa.
As perguntas: o que separa esquerda e direita? Esses rótulos ainda servem? O que é comunismo, onde ele existiu de fato e quando o medo dele foi real, exagerado ou fabricado?
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"Esquerda" e "direita" eram, no começo, só uma descrição de onde cada grupo sentava. O sentido político veio depois, e mudou muitas vezes.
fatoNa Assembleia Nacional da Revolução Francesa, os representantes do Terceiro Estado (burguesia, baixo clero, trabalhadores urbanos e camponeses), que pediam mudanças mais profundas, sentavam à esquerda. Os representantes da nobreza e do clero, que defendiam seus privilégios, sentavam à direita.
fatoO sentido mudou ao longo de dois séculos. Do crescimento do movimento operário até a Revolução Russa de 1917, e durante quase todo o século 20, "esquerda" passou a carregar uma crítica forte ao capitalismo, segundo a historiadora Virgínia Fontes (Fiocruz e UFF).
O critério mais usado hoje: a atitude diante da desigualdade
fatoO filósofo italiano Norberto Bobbio, em Direita e Esquerda (1994; no Brasil, Editora Unesp, 1995), examinou os argumentos contra e a favor da divisão e propôs um critério: a esquerda dá mais peso à igualdade, a direita aceita mais a desigualdade. Para ele, a esquerda tende a ver as desigualdades como sociais e removíveis; a direita tende a vê-las como naturais, difíceis de eliminar ou como preço da liberdade.
fatoBobbio separa esse eixo de outro: o de moderados contra extremistas. Para ele, o que os extremistas de direita e de esquerda têm em comum é a rejeição da democracia. Ou seja, ser mais à esquerda ou mais à direita não é o mesmo que ser mais violento.
hipóteseIsso ajuda a ler a história da violência política sem generalizar. Há registros de violência em nome da esquerda (o Terror jacobino, os regimes comunistas do bloco 6) e em nome da direita (o fascismo, as ditaduras anticomunistas do bloco 7). O que pesa, em cada caso, é se o grupo aceita ou rejeita as regras democráticas.
fatoUma ressalva de transparência: Bobbio se declarava um homem de esquerda e via o termo de forma positiva. O critério dele é o mais citado na academia, mas não é neutro para todos os leitores.
Os dois querem uma vida melhor; discordam sobre ritmo e caminho
"Progressista" e "conservador" se parecem com "esquerda" e "direita", mas medem outra coisa: a atitude diante da mudança. Para ser justo com os dois lados, cada um precisa ser descrito do jeito que ele próprio aceitaria.
fatoO texto que fundou o conservadorismo moderno é Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke (1790). Burke não defendia que nada mudasse. Defendia que se mudasse aos poucos, preservando instituições que funcionam, porque elas guardam a experiência acumulada de muitas gerações e porque mudanças bruscas tendem a produzir efeitos que ninguém previu.
Progressista
Conservador
Como vê a sociedade
Pode e deve ser redesenhada para corrigir injustiças
É um tecido frágil, construído ao longo do tempo
Ritmo de mudança
Reformas amplas, quando há injustiça
Mudanças graduais, testadas na prática
Instituições e tradições
Podem esconder desigualdades e devem ser revistas
Guardam experiência acumulada e dão estabilidade
Risco que mais teme
Manter injustiças por inércia
Destruir o que funciona em nome de um projeto
Melhores condições de vida
Vêm de redistribuição e direitos
Vêm de ordem, família, comunidade e trabalho
O quadro resume posições típicas, não regras. As descrições de cada campo seguem o que seus próprios defensores dizem.
hipóteseOs dois eixos não coincidem. Uma pessoa pode ser liberal na economia (mais mercado, menos Estado) e progressista nos costumes. Outra pode ser conservadora nos costumes e defender Estado forte na economia. Por isso uma linha única, da esquerda à direita, apaga diferenças reais. O bloco 3 trata disso.
Edmund Burke, Reflexões sobre a Revolução na França, 1790. O quadro é uma síntese deste site, não citação de autor.
3. Os rótulos ainda servem?
Para uns, a divisão virou tribo; para outros, ela só mudou de forma
A pergunta não é nova. Bobbio escreveu seu livro justamente para responder a quem dizia, nos anos 1990, que esquerda e direita tinham perdido o sentido.
Autor
Tese
Posição
Anthony Giddens, Para além da esquerda e da direita (1994)
Com a globalização, a divisão antiga deixou de organizar os problemas novos. Base teórica da "terceira via".
Contesta
Norberto Bobbio, Direita e Esquerda (1994)
A divisão sobrevive porque a disputa sobre a igualdade continua.
Defende
Hyrum e Verlan Lewis, The Myth of Left and Right (Oxford, 2023)
Não existe essência que una as posições de cada campo. As bandeiras mudam de lado com o tempo (o protecionismo já foi de direita, de esquerda e de direita de novo) e hoje só a lealdade de grupo mantém o pacote junto.
Contesta
Bryan Caplan e Robin Hanson (debate com os Lewis, 2024)
Ainda existe uma diferença ideológica coerente entre progressistas e conservadores.
Defende
Gethin, Martínez-Toledano e Piketty, Quarterly Journal of Economics (2022)
Em 21 democracias e mais de 300 eleições (1948 a 2020), o voto de esquerda passou dos menos escolarizados para os mais escolarizados, enquanto os de renda alta seguem votando à direita. Surgiu um segundo eixo, sociocultural.
Mostra a divisão mudando de forma
fatoOs irmãos Lewis propõem trocar o rótulo pela posição: em vez de "um conservador pró-vida", dizer "uma pessoa contra o aborto"; em vez de "um esquerdista ambientalista", dizer "uma pessoa a favor da proteção ambiental".
hipóteseAs duas leituras podem ser verdade ao mesmo tempo: o eixo da igualdade continua organizando a disputa sobre economia e impostos, enquanto temas como imigração, costumes e meio ambiente formam um segundo eixo que a linha única não capta.
Uma sociedade sem classes e sem Estado, que nenhum país declarou ter alcançado
No uso marxista, "comunismo" é o ponto de chegada imaginado, não o nome de um governo. Os partidos comunistas que chegaram ao poder diziam estar construindo o socialismo, uma etapa anterior.
fatoPropriedade. O Manifesto Comunista (Marx e Engels, 1848) propõe abolir a propriedade burguesa, isto é, a propriedade privada dos meios de produção: fábricas, terras, bancos, o que serve para produzir e empregar outros. O mesmo texto diz que não pretende abolir a apropriação pessoal dos produtos do trabalho, aquilo que a pessoa usa para viver.
fatoClasses. Para Marx, a sociedade capitalista se divide entre quem é dono dos meios de produção e quem só tem a própria força de trabalho para vender. Sem propriedade privada dos meios de produção, essa divisão deixaria de existir.
fatoDuas fases. Na Crítica do Programa de Gotha (1875), Marx descreve uma primeira fase, em que cada um recebe conforme o trabalho que entrega, e uma fase superior, resumida na frase "de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades".
fatoEstado. Engels, no Anti-Dühring (1878), escreve que o Estado não seria abolido por decreto: ele definharia, perdendo função à medida que as classes desaparecessem.
hipóteseA caricatura "comunismo é tomarem sua casa" não corresponde ao que está nesses textos. Mas ela não nasceu do nada: o bloco 6 mostra que regimes comunistas expropriaram também pequenos proprietários, inclusive camponeses. Teoria e prática precisam ser julgadas separadamente.
Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, 1848; Karl Marx, Crítica do Programa de Gotha, 1875; Friedrich Engels, Anti-Dühring, 1878.
5. Comparando os modelos
Quem é dono, quem decide o preço, quem manda
Modelo
Grandes empresas e terras
Mercado
Papel do Estado
Comunismo (teoria)
Coletivas
Não existe como hoje
Definha até desaparecer
Socialismo (no sentido marxista)
Estatais ou coletivas
Limitado ou planejado
Central, como fase de transição
Social-democracia
Majoritariamente privadas
Livre, com regras
Cobra impostos altos e financia saúde, educação e previdência amplas
Capitalismo de Estado
Mistas, com estatais fortes nos setores estratégicos
Existe e é amplo
Investidor e controlador dominante
Capitalismo liberal
Privadas
Livre
Regula e garante contratos, com intervenção menor
Os tipos são simplificações. Países reais misturam elementos de mais de uma linha.
fatoA social-democracia nasceu marxista e se afastou do marxismo. O marco mais citado é o Congresso de Bad Godesberg, em 1959, quando o Partido Social-Democrata alemão (SPD) abandonou o marxismo como doutrina oficial e aceitou a economia de mercado.
Programa de Bad Godesberg, SPD, 1959. Classificação dos modelos: síntese deste site.
6. Na prática
Coletivização, fome e repressão: o custo que a teoria não previa
Os regimes do século 20 que se chamaram comunistas concentraram poder num partido único. A propriedade foi estatizada ou coletivizada, e não apenas a dos grandes donos.
estimativaUnião Soviética. Pelos números do historiador Nicolas Werth, baseados nos arquivos soviéticos: cerca de 6 milhões de deportados, sobretudo camponeses classificados como kulaks; cerca de 5 milhões de mortos na fome de 1921 e 1922 e cerca de 6 milhões na de 1932 e 1933.
estimativaChina, Grande Salto Adiante (1958 a 1962). As estimativas de mortes em excesso vão de 15 a 32 milhões, quando calculadas a partir dos censos, a pelo menos 45 milhões, pelo historiador Frank Dikötter, que usou arquivos provinciais. Dikötter estima que de 30% a 40% das moradias foram derrubadas no período, para virar adubo, abrir estradas, remover aldeias ou punir donos. Em 1981, o próprio Partido Comunista Chinês atribuiu a fome principalmente aos erros do Grande Salto.
fatoA disputa sobre o total.O Livro Negro do Comunismo (1997) fala em cerca de 100 milhões de mortos sob regimes comunistas. O número está no prefácio do organizador, Stéphane Courtois. Dois dos principais coautores, Nicolas Werth e Jean-Louis Margolin, criticaram publicamente o que chamaram de obsessão por chegar aos 100 milhões e rejeitaram a equiparação com o nazismo.
A China de hoje: sucesso econômico, poder de partido único e nenhum consenso sobre o nome
fatoA China se define oficialmente como "socialismo com características chinesas", modelo adotado com as reformas de 1978.
fatoEm 40 anos, o número de chineses abaixo da linha internacional de pobreza extrema (US$ 1,90 por dia) caiu perto de 800 milhões, quase três quartos da redução da pobreza extrema no mundo no período. O dado é de um estudo conjunto do Banco Mundial com órgãos do governo chinês, publicado em 2022.
estimativaO setor privado responde por cerca de 50% da arrecadação, 60% do PIB, 70% da inovação tecnológica e 80% do emprego urbano, segundo o próprio governo chinês. É um número oficial, sem auditoria independente.
fatoEm 2022, o Escritório de Direitos Humanos da ONU concluiu que a detenção arbitrária e discriminatória de uigures e outros grupos muçulmanos em Xinjiang pode constituir crimes contra a humanidade. A China rejeitou o relatório e publicou uma resposta de 131 páginas.
Como classificar a China
Quem defende
Argumento
Socialismo de mercado
Elias Jabbour e Alberto Gabriele, China: o socialismo do século XXI
O mercado é usado como ferramenta, mas o Estado planeja e controla os setores estratégicos e o partido dirige o rumo.
Capitalismo político
Branko Milanovic, Capitalism, Alone (2019)
Produção privada e busca de lucro dominam; a diferença para o Ocidente está no Estado autoritário e na burocracia que governa.
Capitalismo com características chinesas
Yasheng Huang (MIT), livro de 2008
O crescimento veio do empreendedorismo privado, sobretudo rural, e não do planejamento estatal.
As classificações acima são teses dos autores, não conclusões deste site. Não há consenso acadêmico.
Uma ameaça que foi real, uma que foi forjada e outra que serviu de justificativa
A referência central sobre o tema no Brasil é o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, autor de Em guarda contra o "perigo vermelho" (2002). Os casos abaixo mostram três situações diferentes.
1935: ameaça real.fatoUm levante armado comunista, depois chamado de Intentona, tentou derrubar o governo e fracassou. Houve mortes de militares, que passaram a ser homenageados todo ano.
1937: ameaça forjada.fatoEm 30 de setembro, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Góis Monteiro, anunciou no rádio a descoberta de um plano comunista para tomar o poder, o Plano Cohen. Dois dias depois, foi decretado estado de guerra. Em 10 de novembro, Getúlio Vargas fechou o Congresso e instaurou a ditadura do Estado Novo. Em 1945, o próprio Góis Monteiro revelou que o documento era falso, escrito pelo capitão Olímpio Mourão Filho, da Ação Integralista Brasileira. Mourão disse ter feito o texto como simulação.
1964: ameaça usada como justificativa.fatoAs Marchas da Família com Deus pela Liberdade reuniram setores conservadores contra o governo João Goulart. O general que pôs as tropas na rua em Juiz de Fora para iniciar o golpe foi o mesmo Olímpio Mourão Filho. Documentos do governo americano revelados depois mostram a Operação Brother Sam: uma força-tarefa naval, com o porta-aviões USS Forrestal, enviada para apoiar os golpistas. Como o golpe venceu rápido, ela foi desmontada em 2 de abril sem chegar à costa.
estimativaFora do Brasil, o caso extremo. Na Indonésia, em 1965 e 1966, o Exército, milícias e gangues mataram entre 500 mil e 1 milhão de pessoas acusadas de ligação com o Partido Comunista, o maior do mundo fora da China e da URSS. O jornalista Vincent Bevins, em O Método Jacarta (2020), documenta o apoio dos Estados Unidos e liga o caso às ditaduras anticomunistas da América Latina, inclusive à brasileira.
hipóteseO padrão que aparece nos casos brasileiros: uma ameaça real (1935) criou a memória que tornou crível uma ameaça inventada (1937). A mesma memória foi mobilizada em 1964. O medo teve base em fatos, mas foi ampliado e usado para suspender a democracia nas duas vezes.
Concordam que o capitalismo deve ser superado; discordam sobre como, e sobre a China
Os três ganharam público fora da universidade, sobretudo pela internet. O quadro registra trajetória, ideias e vínculos verificáveis.
Jones Manoel
Elias Jabbour
Humberto Matos
Formação e atividade
Historiador e mestre em Serviço Social (UFPE), professor, youtuber
Geógrafo e economista, professor de pós-graduação na UERJ
Historiador, canal Saia da Matrix no YouTube
Ideia central
"Revolução brasileira": reformas populares radicais e estruturais; defende a superação do lulismo
A China é a principal experiência de socialismo de mercado do século 21
Esquerda revolucionária, mas aberta ao diálogo com grupos como os evangélicos
Partido
PCB (2018 a 2023), depois PCBR, sem registro no TSE; PSOL desde 2026
Militante do PCdoB
Não encontramos filiação verificada
Cargo eletivo
Governador de PE em 2022 pelo PCB: 33.931 votos (0,7%), 6º lugar. Deputado federal eleito por PE em 2026 pelo PSOL: 249.077 votos, 2º mais votado do estado
Nenhum. Assessorou Dilma Rousseff no Banco do BRICS (NDB) e foi diretor de pesquisas do banco
Não encontramos registro de candidatura
Críticas que recebe
Acadêmicos, inclusive de esquerda, o acusam de relativizar os crimes de Stálin
Críticos o acusam de defender a ditadura chinesa
Sem registro relevante nas fontes consultadas
fatoDivergências entre eles e dentro da esquerda. Jones Manoel diz que o PCdoB, partido de Jabbour, não pratica política comunista, e que por isso o Brasil não tem um deputado comunista há mais de 30 anos. Ele deixou o PCBR depois de uma disputa com a direção sobre o controle do seu canal no YouTube, e o PSOL, para onde foi, exige apoio ao presidente Lula. Jones e Humberto Matos já debateram publicamente.
fatoJabbour ganhou o Special Book Award of China, prêmio literário do governo chinês para estrangeiros, pelo livro escrito com Gabriele.
Esquerda na origem e no discurso; mais perto do centro em várias decisões de governo
A pergunta "o PT é de esquerda?" tem respostas diferentes conforme o que se mede: a identidade do partido, o que ele diz ou o que fez no governo. Para a direita, o PT é esquerda radical; para a esquerda radical, é um partido de conciliação. Os fatos abaixo permitem testar as duas leituras.
Decisão
O que foi
Leitura
Carta ao Povo Brasileiro (22 de junho de 2002)
Compromisso de respeitar contratos, preservar o superávit primário e controlar a inflação
Moderação
Henrique Meirelles no Banco Central (2003 a 2010)
Mantido nos dois mandatos, com respaldo de Lula às decisões do Banco Central no combate à inflação
Moderação
Reforma da Previdência dos servidores (2003)
Aprovada com apoio do governo; os parlamentares do PT que votaram contra foram expulsos e fundaram o PSOL em 2004
Moderação, com ruptura à esquerda
Bolsa Família (2003)
Transferência de renda a famílias pobres (capítulo 17)
Redistribuição
Geraldo Alckmin como vice (2022)
Ex-governador do PSDB, adversário de Lula em 2006
Aliança ao centro
Arcabouço fiscal (Lei Complementar 200, de 30 de agosto de 2023)
Limites para o crescimento da despesa pública
Moderação
Reforma tributária do consumo (Emenda 132, de 20 de dezembro de 2023)
Unificação de impostos sobre consumo, com transição longa
Pauta compartilhada com o centro
Ministérios para o centrão (2023)
União Brasil no Turismo; PP no Esporte e Republicanos em Portos e Aeroportos, para formar maioria no Congresso
Aliança ao centro e à direita
Eletrobras (2023 a 2025)
Foi ao STF contra o limite de 10% de voto da União, sem pedir a reversão da privatização. Fechou acordo: manteve o limite e ganhou 3 de 10 cadeiras no conselho
Criticado pela esquerda e pelos sindicatos do setor
Isenção do IR até R$ 5 mil (Lei 15.270, de 26 de novembro de 2025)
Cerca de 15 milhões beneficiados; imposto mínimo de até 10% para rendas acima de R$ 600 mil por ano, cerca de 140 mil pessoas
Redistribuição
A coluna "Leitura" resume como cada decisão costuma ser classificada nas fontes; não é nota deste site.
hipóteseA leitura acadêmica mais citada. O cientista político André Singer, em Os sentidos do lulismo (2012), chama o modelo de "reformismo fraco": reduzir a pobreza sem confrontar os interesses dos mais ricos nem a ordem econômica.
hipóteseA crítica pela esquerda. Jones Manoel diz que superar o lulismo é um debate inadiável. Críticos do mesmo campo apontam os juros altos do período Meirelles e a manutenção das privatizações anteriores.
hipóteseA crítica pela direita. Críticos à direita apontam a proximidade com governos de Cuba e da Venezuela e a participação no Foro de São Paulo, articulação de partidos de esquerda latino-americanos, como sinais de que o partido mantém um projeto mais radical do que mostra no governo.
fatoSituação em 9 de outubro de 2026: Lula disputa o segundo turno da eleição presidencial com Flávio Bolsonaro (PL) em 25 de outubro. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%.
Esquerda e direita nasceram de um mapa de assentos em 1789 e mudaram de conteúdo muitas vezes. O critério mais usado, o de Bobbio, as separa pela atitude diante da desigualdade, e separa os dois do extremismo, que é outra régua. Há autores sérios que dizem que a divisão virou lealdade de grupo e outros que mostram que ela persiste, com um segundo eixo cultural. O comunismo, na teoria, é uma sociedade sem classes e sem Estado que nenhum país declarou ter alcançado; propõe socializar os meios de produção, não os objetos pessoais. Na prática, os regimes comunistas do século 20 expropriaram também pequenos proprietários e produziram fomes e repressão com milhões de mortos. A China combina partido único, planejamento em setores estratégicos e um setor privado que gera a maior parte do PIB, e não há consenso sobre como chamá-la. No Brasil, o medo do comunismo teve base real em 1935, foi fabricado em 1937 e serviu de justificativa em 1964. O PT nasceu na esquerda e mantém o discurso, mas tomou várias decisões de governo que o aproximam do centro; à direita e à esquerda radical, isso é lido de formas opostas.
Cuidados: os números de mortos sob regimes comunistas e na Indonésia são estimativas com faixas largas, e a escolha de fonte muda muito o resultado. Os dados sobre o setor privado chinês são oficiais e sem auditoria independente. Os quadros de modelos e de progressistas e conservadores simplificam, e países e pessoas reais misturam posições. As classificações da China e do PT são teses de autores, não conclusões deste site. Situação em 9 de outubro de 2026, antes do segundo turno presidencial.